terça-feira, 14 de outubro de 2008

Preocupante

Estou percebendo em mim vários sintomas de velhice:

1- Os homens mais lindos, na minha opinião, foram lindos há uns 40 anos atrás, mais ou menos;
2- As melhores músicas que conheço foram composta há mais de vinte anos;
3- Descobri que aqueles cantores que eu considerava insuportáveis quado tinha 12 anos são, na verdade, maravilhosos;
4- Não acredito mais que eu possa mudar o mundo;
5- As músicas frenéticas tocadas ininterruptamente nas academias estão começando a me enjoar;
6- Começo a concordar que beleza é bom mas não é tão importante quanto eu imaginava;
7- Adoro ficar sentada na cadeira de balanço do pátio de casa. Estou começando a achar isso melhor do que muitos programas que antes me interessavam;
8- Não tenho mais paciência para usar, como antigamente, um sapato desconfortável só por ser lindo.
9- As roupas justas, que eu adorava, estão começando a me incomodar. Entrei numa de priorizar o conforto.
10- Estou pensando seriamente em fazer um lifting;
11- Um cruzeiro marítimo já não me parece mais uma idéia abominável.
12- Minha gaveta já tem permissão para receber algumas calcinhas confortáveis, não só as sex;
13- Começo a me sentir ridícula de mini saia - coisa que sempre adorei.
14- Uso tranquilamente roupas que há um tempo atrás eu achava "de velha".
15- Também uso bijuterias, tonalidade de batom e de esmalte que me paerciam coisas "de velha".
16- Os mais jovens já riram de algumas de minhas gírias que (dizem) não serem mais usadas há uns 15 anos pelo menos.
17- Não vejo graça nesse lance de "ficar".
18- A gritaria e risadagem sem fim dos adolescentes me cansam a beleza.
19 - Não faço mais exercícios físicos apenas por motivos estéticos.
20- Adoro ambientes tranquilos;
21- Não tenho mais a menor tesão em sair pulando atrás de um trio elétrico. Na verdade nunca saí, mas antigamente eu tinha vontade.
22- Descobri que eu não era uma adolescente horrorosa;
23- Lamento imensamente os anos que sofri me achado uma bruxa desengonçada. A adolescência é mesmo uma porcaria.
24- Nunca mais senti aquela sensação desagradável de ser horrorosa.
25- Não fico imaginando o que vou ganhar em meu aniversário ou no Natal.
26- Jamais namoraria um hippie. Antigamente eu os achava o máximo.

Tem mais, mas não vou escrever agora. Estou cansadinha.

Cristina Faraon

domingo, 12 de outubro de 2008

Uma lição de vida


Filho: "Papai, me ensine sobre a vida!"...

Pai: "O que mais você quer saber?"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A importância de um blog em nossas vidas



Descobri que o uso do blog tem uma função social inestimável. Ele nos ajuda, entre outras coisas, a sermos mais palatáveis em nosso meio e, assim, mantermos nossos preciosos amigos.

Trocando em miúdos: a principal função de um blog é poupar os ouvidos dos outros. Um blog nos livra do mico de pulverizarmos pelo mundo as nossas opiniões desnecessárias.

Eu mesma tenho opinião pra praticamente tudo, da existência de vida extraterrestre a legalização do aborto, da importância do trema ao sexo dos anjos. É só me consultar.Lâmpada

Felizmente também tenho auto crítica e penso: será que as pessoas estão mesmo interessadas em saber como foi meu dia ou o que penso a respeito disso ou daquilo? É aí que entra o blog! Sabe, você tem a impressão de estar falando para uma multidão atenta e paciente com todo o tempo do mundo. Não é o sonho de todo orador? Não é o sonho de todo o chato? Não seria o SEU sonho, caro leitor? Dá pra curtir longamente essa fantasia como uma espécie de orgasmo múltiplo. Ao mesmo tempo não lhe pesará a dolorosa desconfiança de estar sendo um mala sem alça. Lê quem quiser - você é inocente.

Ah ... Suave consolo de quem precisa se expressar!

Olho para o meu passado e sinto um certo desconforto. Eu era chatona. Era só alguém "dar mole" que lá vinha eu com minhas idéias. Pior: todas as idéias eram defendidas, não explanadas. Sabe, acho que eu tinha um quê de militante não sei-de-quê. E como todos sabemos, e ninguém aguenta papo de militante.

Em meu achismo irrefreável acho agora que todos os militantes do mundo deveriam ter um blog. Deveriam ser forçados a isso sob pena de serem escurraçados de seu habitat. O lance é terapêutico! Eles despejariam na internet toda a sua indignação ou amargura ou seja-lá-o-que-fosse e aliviariam suas represas emocionais. O que sobraria para os nossos ouvidos seria uma ou outra palavra de ordem perfeitamente digeríveis.

Que bela trégua dariam para os amigos na mesa do bar! Já chegariam ali com a alma lavada e enxaguada. Ninguém teria medo de tocar "naquele" assunto porque saberia que o tal Ser Pensante limitar-se-ia à breve curiosidade do questionador e brindaria a todos com o mínimo necessário em palavras, uma clara e breve explicação para depois escorregar alegremente para outro assunto. Seria assim porque tudo o mais já estaria devidamente publicado no blog. Brilhante!

Mesa de bar e festa de amigo é para falar abobrinha. Até quando o assunto é sério, nessas ocasiões ele precisa ser rapidamente esculhambado se não, não tem graça. E é para ter graça.

Só para você ter uma idéia: se não fosse esse blog eu já teria sucumbido a tentação de ser militante de blog: invadiria festas e bares tentando convencer as pessoas da necessidade de blogarem para não enfadarem nem enfartarem. Como tenho esse espaço, vou salvar o texto e ficar calminha calminha.Não conte para ninguém

Cristina Faraon

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pedaços

Queria ter a determinação da Madonna
A simpatia da Ivete Sangalo
A beleza da Ana Paula Arósio
No meu próprio coração.

Queria ter a fluência do Maluf
A animação da Hebe
A inesgotável esperança da mamãe
E ainda os meus próprios filhos.

Escrever como Machado de Assis
Ser iluminada como Vinícius de Moraes
Ter a sensibilidade tocante do Chico Buarque
E continuar querendo entender as pessoas.

Queria a capacidade de renúncia de São Francisco de Assis
A força interior de Joana D'Arc
Falar de Jesus como o Pastor Rosivaldo
E ainda ter o mesmo passado de cuidadora de bebês.

Amar como Florbela Espanca
Como Mandela, ainda conseguir sorrir depois de tudo
Ter as mãos benfazejas de uma massagista
Ainda em minha pele morena.

Queria ser tudo o que sou
E mais o que não tenho
Sem com isso deixar de ser
Essa Cristina que você não conhece.


Cristina Faraon


domingo, 28 de setembro de 2008

Lá se foi mais um...

Não ando por aí chamando de bonito qualquer mais-ou-menos que apareça. Quando eu carimbo de lindo - Selo de Qualidade Cristina - é porque é mesmo e não tem discussão. Pois o Paul Newman sempre elevou-se sobre a humanidade como um dos homens mais bonitos que já "conheci". Bonito demais, indiscutivelmente másculo (virtude rara), o charme em pessoa. Tesouro. Deus o tenha.


Veja aqui mais algumas fotos delezinho.
A notícia de sua morte - 01
Notícia de sua morte - 02
Assista uma entrevista.

sábado, 27 de setembro de 2008

Fumando em nome de Deus



Esses dias fui à igreja (não digo o nome nem sob tortura) e ao final do "evento" o grupo musical tocava umas músicas em volume tão alto mas tão alto, que minha vontade era ... era... era fazer e dizer coisas que Cristo não aconselharia. Aquela barulheira me inspirava a agir contra o Evangelho. Era horrível, estressante. Por que não nos inspirar a um momento final mais gostoso? Porque não cooperar com os agradáveis reencontros e conversas com os amigos? Porque inviabilizar isso tudo e tornar nossos últimos minutos na casa de Deus em algo desagradável? Por que nos expulsar daquele jeito?

Tentei inutilmente conversar com algumas pessoas mas foi em vão. Gritei, irritei minha garganta, maltratei meu ouvidos... Conclusão: não tenho vontade de pisar naquele lugar no próximo domingo.

Acho o seguinte: casa de show é casa de show, boate é boate, trio elétrico é trio elétrico, feira é feira e igreja é igreja. E tem mais: "barulhar" no ouvido dos outros não é menos errado do que fumar "no pulmão" dos outros. Ambas as coisas são desagradáveis e prejudiciais à saúde. Não pense que, por o barulho ser feito "em nome de Deus", ele se tornará menos nocivo.

E tenho dito.

Cristina Faraon

sábado, 20 de setembro de 2008

Olhos de Fogo

Acho que esta sou eu com meu vestido amarelo de verão. Foi na década de 30 e nem sei como meu pai permitiu que eu saisse assim, para ser tão demoradamente observada por você.

Debaixo do chapéu meus cabelos negros e limpos não se deixam observar nem serem tocados sequer pelo vento. Pensei que um dia o verias solto em nossa alcova de casados... Naquela manhã ele apenas se enroscava, tranquilo guardião da minha nuca.

Creia que esta fui eu quando tinha a pele alva e preservava cuidadosamente o caminho dos meus olhos. Sim, te olhava vez por outra. Interpretava uma timidez que não tinha e que no entanto era o meu principal adorno.

Posei pra ti em uma rara manhã. As manhãs contigo eram raras. O sol se movia com vigor para o centro do céu. Meu vestido de crepe levou consigo areia quando levantei e o vento cochichou-te o meu perfume.

Essa era eu com minhas pernas fortes e coxas virgens.

Se meu pai permitisse eu posaria pra você mais vezes e em muitas outras cores. O tempo seria sempre eterno como nos quadros, como na mágica dos teus pincéis. Vez por outra verias meus dentes brancos. Deixaria que me olhasses mas não focaria teus olhos de fogo.

Queria ser a esposa que sonhaste, o sague azul, o corpo imaculado guardado em camisolas de algodão, leves como pele de ovo... e em meu quadril perfeito seriam forjados teus filhos e eu não morreria no parto.

Se eu não fosse a mulata que sou, voltaria a ser marfim de 1930. Deixar-me-ia pintar assim, fingindo ser livre e com uma sensualidade vivaz escorrendo pelo sorriso. Em meu silêncio pareceria a ti que ali mesmo poderia se tua se tão somente me tomasses pela mão.

Em algum recanto de mim sou assim. No olhar que não te lanço, no sorriso contido e nas maneiras suaves sinalizo tudo o que pressentimos que sou. Sinalizo para você, Olhos de Fogo, tudo o que nós sabemos que posso te dar se tão somente me tomares pela mão.

Cristina Faraon

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Preocupante

Estou percebendo em mim vários sintomas de velhice:

1- Os homens mais lindos, na minha opinião, foram lindos há uns 40 anos atrás, mais ou menos;
2- As melhores músicas que conheço foram composta há mais de vinte anos;
3- Descobri que aqueles cantores que eu considerava insuportáveis quado tinha 12 anos são, na verdade, maravilhosos;
4- Não acredito mais que eu possa mudar o mundo;
5- As músicas frenéticas tocadas ininterruptamente nas academias estão começando a me enjoar;
6- Começo a concordar que beleza é bom mas não é tão importante quanto eu imaginava;
7- Adoro ficar sentada na cadeira de balanço do pátio de casa. Estou começando a achar isso melhor do que muitos programas que antes me interessavam;
8- Não tenho mais paciência para usar, como antigamente, um sapato desconfortável só por ser lindo.
9- As roupas justas, que eu adorava, estão começando a me incomodar. Entrei numa de priorizar o conforto.
10- Estou pensando seriamente em fazer um lifting;
11- Um cruzeiro marítimo já não me parece mais uma idéia abominável.
12- Minha gaveta já tem permissão para receber algumas calcinhas confortáveis, não só as sex;
13- Começo a me sentir ridícula de mini saia - coisa que sempre adorei.
14- Uso tranquilamente roupas que há um tempo atrás eu achava "de velha".
15- Também uso bijuterias, tonalidade de batom e de esmalte que me paerciam coisas "de velha".
16- Os mais jovens já riram de algumas de minhas gírias que (dizem) não serem mais usadas há uns 15 anos pelo menos.
17- Não vejo graça nesse lance de "ficar".
18- A gritaria e risadagem sem fim dos adolescentes me cansam a beleza.
19 - Não faço mais exercícios físicos apenas por motivos estéticos.
20- Adoro ambientes tranquilos;
21- Não tenho mais a menor tesão em sair pulando atrás de um trio elétrico. Na verdade nunca saí, mas antigamente eu tinha vontade.
22- Descobri que eu não era uma adolescente horrorosa;
23- Lamento imensamente os anos que sofri me achado uma bruxa desengonçada. A adolescência é mesmo uma porcaria.
24- Nunca mais senti aquela sensação desagradável de ser horrorosa.
25- Não fico imaginando o que vou ganhar em meu aniversário ou no Natal.
26- Jamais namoraria um hippie. Antigamente eu os achava o máximo.

Tem mais, mas não vou escrever agora. Estou cansadinha.

Cristina Faraon

domingo, 12 de outubro de 2008

Uma lição de vida


Filho: "Papai, me ensine sobre a vida!"...

Pai: "O que mais você quer saber?"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A importância de um blog em nossas vidas



Descobri que o uso do blog tem uma função social inestimável. Ele nos ajuda, entre outras coisas, a sermos mais palatáveis em nosso meio e, assim, mantermos nossos preciosos amigos.

Trocando em miúdos: a principal função de um blog é poupar os ouvidos dos outros. Um blog nos livra do mico de pulverizarmos pelo mundo as nossas opiniões desnecessárias.

Eu mesma tenho opinião pra praticamente tudo, da existência de vida extraterrestre a legalização do aborto, da importância do trema ao sexo dos anjos. É só me consultar.Lâmpada

Felizmente também tenho auto crítica e penso: será que as pessoas estão mesmo interessadas em saber como foi meu dia ou o que penso a respeito disso ou daquilo? É aí que entra o blog! Sabe, você tem a impressão de estar falando para uma multidão atenta e paciente com todo o tempo do mundo. Não é o sonho de todo orador? Não é o sonho de todo o chato? Não seria o SEU sonho, caro leitor? Dá pra curtir longamente essa fantasia como uma espécie de orgasmo múltiplo. Ao mesmo tempo não lhe pesará a dolorosa desconfiança de estar sendo um mala sem alça. Lê quem quiser - você é inocente.

Ah ... Suave consolo de quem precisa se expressar!

Olho para o meu passado e sinto um certo desconforto. Eu era chatona. Era só alguém "dar mole" que lá vinha eu com minhas idéias. Pior: todas as idéias eram defendidas, não explanadas. Sabe, acho que eu tinha um quê de militante não sei-de-quê. E como todos sabemos, e ninguém aguenta papo de militante.

Em meu achismo irrefreável acho agora que todos os militantes do mundo deveriam ter um blog. Deveriam ser forçados a isso sob pena de serem escurraçados de seu habitat. O lance é terapêutico! Eles despejariam na internet toda a sua indignação ou amargura ou seja-lá-o-que-fosse e aliviariam suas represas emocionais. O que sobraria para os nossos ouvidos seria uma ou outra palavra de ordem perfeitamente digeríveis.

Que bela trégua dariam para os amigos na mesa do bar! Já chegariam ali com a alma lavada e enxaguada. Ninguém teria medo de tocar "naquele" assunto porque saberia que o tal Ser Pensante limitar-se-ia à breve curiosidade do questionador e brindaria a todos com o mínimo necessário em palavras, uma clara e breve explicação para depois escorregar alegremente para outro assunto. Seria assim porque tudo o mais já estaria devidamente publicado no blog. Brilhante!

Mesa de bar e festa de amigo é para falar abobrinha. Até quando o assunto é sério, nessas ocasiões ele precisa ser rapidamente esculhambado se não, não tem graça. E é para ter graça.

Só para você ter uma idéia: se não fosse esse blog eu já teria sucumbido a tentação de ser militante de blog: invadiria festas e bares tentando convencer as pessoas da necessidade de blogarem para não enfadarem nem enfartarem. Como tenho esse espaço, vou salvar o texto e ficar calminha calminha.Não conte para ninguém

Cristina Faraon

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pedaços

Queria ter a determinação da Madonna
A simpatia da Ivete Sangalo
A beleza da Ana Paula Arósio
No meu próprio coração.

Queria ter a fluência do Maluf
A animação da Hebe
A inesgotável esperança da mamãe
E ainda os meus próprios filhos.

Escrever como Machado de Assis
Ser iluminada como Vinícius de Moraes
Ter a sensibilidade tocante do Chico Buarque
E continuar querendo entender as pessoas.

Queria a capacidade de renúncia de São Francisco de Assis
A força interior de Joana D'Arc
Falar de Jesus como o Pastor Rosivaldo
E ainda ter o mesmo passado de cuidadora de bebês.

Amar como Florbela Espanca
Como Mandela, ainda conseguir sorrir depois de tudo
Ter as mãos benfazejas de uma massagista
Ainda em minha pele morena.

Queria ser tudo o que sou
E mais o que não tenho
Sem com isso deixar de ser
Essa Cristina que você não conhece.


Cristina Faraon


domingo, 28 de setembro de 2008

Lá se foi mais um...

Não ando por aí chamando de bonito qualquer mais-ou-menos que apareça. Quando eu carimbo de lindo - Selo de Qualidade Cristina - é porque é mesmo e não tem discussão. Pois o Paul Newman sempre elevou-se sobre a humanidade como um dos homens mais bonitos que já "conheci". Bonito demais, indiscutivelmente másculo (virtude rara), o charme em pessoa. Tesouro. Deus o tenha.


Veja aqui mais algumas fotos delezinho.
A notícia de sua morte - 01
Notícia de sua morte - 02
Assista uma entrevista.

sábado, 27 de setembro de 2008

Fumando em nome de Deus



Esses dias fui à igreja (não digo o nome nem sob tortura) e ao final do "evento" o grupo musical tocava umas músicas em volume tão alto mas tão alto, que minha vontade era ... era... era fazer e dizer coisas que Cristo não aconselharia. Aquela barulheira me inspirava a agir contra o Evangelho. Era horrível, estressante. Por que não nos inspirar a um momento final mais gostoso? Porque não cooperar com os agradáveis reencontros e conversas com os amigos? Porque inviabilizar isso tudo e tornar nossos últimos minutos na casa de Deus em algo desagradável? Por que nos expulsar daquele jeito?

Tentei inutilmente conversar com algumas pessoas mas foi em vão. Gritei, irritei minha garganta, maltratei meu ouvidos... Conclusão: não tenho vontade de pisar naquele lugar no próximo domingo.

Acho o seguinte: casa de show é casa de show, boate é boate, trio elétrico é trio elétrico, feira é feira e igreja é igreja. E tem mais: "barulhar" no ouvido dos outros não é menos errado do que fumar "no pulmão" dos outros. Ambas as coisas são desagradáveis e prejudiciais à saúde. Não pense que, por o barulho ser feito "em nome de Deus", ele se tornará menos nocivo.

E tenho dito.

Cristina Faraon

sábado, 20 de setembro de 2008

Olhos de Fogo

Acho que esta sou eu com meu vestido amarelo de verão. Foi na década de 30 e nem sei como meu pai permitiu que eu saisse assim, para ser tão demoradamente observada por você.

Debaixo do chapéu meus cabelos negros e limpos não se deixam observar nem serem tocados sequer pelo vento. Pensei que um dia o verias solto em nossa alcova de casados... Naquela manhã ele apenas se enroscava, tranquilo guardião da minha nuca.

Creia que esta fui eu quando tinha a pele alva e preservava cuidadosamente o caminho dos meus olhos. Sim, te olhava vez por outra. Interpretava uma timidez que não tinha e que no entanto era o meu principal adorno.

Posei pra ti em uma rara manhã. As manhãs contigo eram raras. O sol se movia com vigor para o centro do céu. Meu vestido de crepe levou consigo areia quando levantei e o vento cochichou-te o meu perfume.

Essa era eu com minhas pernas fortes e coxas virgens.

Se meu pai permitisse eu posaria pra você mais vezes e em muitas outras cores. O tempo seria sempre eterno como nos quadros, como na mágica dos teus pincéis. Vez por outra verias meus dentes brancos. Deixaria que me olhasses mas não focaria teus olhos de fogo.

Queria ser a esposa que sonhaste, o sague azul, o corpo imaculado guardado em camisolas de algodão, leves como pele de ovo... e em meu quadril perfeito seriam forjados teus filhos e eu não morreria no parto.

Se eu não fosse a mulata que sou, voltaria a ser marfim de 1930. Deixar-me-ia pintar assim, fingindo ser livre e com uma sensualidade vivaz escorrendo pelo sorriso. Em meu silêncio pareceria a ti que ali mesmo poderia se tua se tão somente me tomasses pela mão.

Em algum recanto de mim sou assim. No olhar que não te lanço, no sorriso contido e nas maneiras suaves sinalizo tudo o que pressentimos que sou. Sinalizo para você, Olhos de Fogo, tudo o que nós sabemos que posso te dar se tão somente me tomares pela mão.

Cristina Faraon