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domingo, 30 de janeiro de 2011

Queria fazer um teste

Queria novamente vestir meu uniforme de Escola Pública com um EP bordado em azul no peito. Era motivo de orgulho.

Queria sim vestir aquela camisa branca com minha saia azul marinho, pregueada. Minha meia subiria até quase alcançar os joelhos e eu entraria em formação com os colegas. Colocaria minha pasta no chão ao lado da merendeira, pertinho do tornozelo. Então a diretora da escola iria lá para a frente e puxaria um dos hinos que aprendemos: Hino à Bandeira, Hino Nacional, Canção do Expedicionário, Hino da Independência... Qualquer um era belíssimo para mim, eu não tinha preferências.

Quando cantávamos a gente se sentia maior do que era, capaz até algum grande ato de heroísmo.

Se eu voltasse... Ah... Eu respiraria fundo debaixo daquele sol ainda morno. Respiraria já esperando a emoção infalível que me sobreviria. Eu amava os hinos. Eles me faziam acreditar que éramos um povo heróico, forte e idealista.

Não me envergonho de dizer que ainda sinto grande emoção quando ouço nossos hinos. Só que não é  a mesma emoção de antigamente, romântica e cheia de imagens ideais. É uma emoção mista de saudade (imensa!) , sentimento de perda e lamento. Uma emoção de quem vê a beleza de nossos sentimentos juvenis dobrar o rio na chalana.


"Lá vai a chalana! Bem longe se vai
Cruzando o remanso do rio Paraguai
Oh chalana, sem querer tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas vais levando o meu (nosso!)  amor!"

É possível que alguns jovens ainda se emocionem com nossos hinos. Uns poucos ainda ficariam arrepiados mas mesmo esses poucos não teriam coragem de confessar essa "falha" para os colegas.  Nós, do passado, tínhamos. Amar a pátria era bonito, não um atestado de babaquice.

Antigamente era um orgulho estudar em escola pública. No tempo dos militares. Só quem ia para escola particular eram os alunos vadios (ou burros) que pudessem pagar. Lá, qualquer bestalhão passava. Quem era bom mesmo, estudava em escola pública.


"- Não quer estudar? Vive repetindo? Então cai fora e dá a vaga para outro."  

Os bons tinham vaga certa na escola pública e estufavam o peito. Lembro de um episódio no qual minha mãe teve que ir atrás de conseguir um ATESTADO DE POBREZA para poder manter minha matrícula. Sério!

Mãe, por favor, traga aquele meu uniforme branco e azul marinho! E minhas meias três quartos. Pegue minha mão e me leve tranquilamente pelas ruas do Estácio. Cumprimente o Kid Moringueira, nosso vizinho ilustre.   Despeça-me com um beijo e me deixe entrar no pátio pois os colegas já estão em posição de sentido. Quero sentir tudo de novo, mãe! Quero ouvir o hino! Deixe eu ser criança novamente, só mais uma vez. Quero sentir de novo aquela vontade de chorar, aquele orgulho e aquele amor pelos soldados.

"Se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio..."

Queria fazer o teste. Queria repetir todo o cenário e descobrir se ainda tenho coração para aquilo tudo. é lindo o que uma criança é capaz de sentir e o que um adulto é capaz de manter se não for  seriamente atrapalhado.


Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá, para aquele passado arborizado, para só mais uma vez me sentir brasileira-com-muito-orgulho.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

23.01.67 - Uma enchente muito antiga


(Clique na imagem para vê-la ampliada e assim tornar possível  a sua leitura.)

Hoje essa reportagem faz exatamente 44 anos. Ver esse jornal depois de tanto tempo me emocionou bastante.  Minha mãe talvez nem tenha visto...  bem, aqui vai um pouco da minha história:

Perdi meu pai em uma das enchentes do Rio de Janeiro, em janeiro. Este é o jornal que noticia a data em que ele morreu. Lembrem esse nome: Bartholomeu da Silva Corrêa. 

Ele fazia, de ônibus (empresa Única), o trajeto Rio-São Paulo quando, devido às chuvas,  houve o deslizamento de parte de um morro na Serra das Araras (km 55) . O desmoronamento inundou a rodovia, arrastou e soterrou na lama carros, caminhões e ônibus, inclusive o ônibus onde meu pai estava. Foi um horror. Disseram que havia carretas viradas "de cabeça pra baixo" das quais só se via as pontas das rodas. Era muita, muita lama.

Minha mãe peregrinou muitos dias no local e no IML na tentativa inútil de reconhecer o corpo do meu pai. Ela disse que chegou a ver um homem com uma roupa parecida com a dele e porte físico também parecido,  só que este homem tinha dente de ouro e meu pai não tinha dente de ouro (na época era moda encapar pelo menos um dente com uma folha de ouro.).  Ela sempre contava o quanto era horrível e difícil ter que ver, por tantos dias, aquele monte de gente morta enfileirada. Era um espetáculo horrendo. Defuntos com a barriga enorme, cheios de lama, expostos. 

Dos trinta e sete viajantes do ônibus, trinta e seis foram encontrados - mortos. Meu pai tanto poderia estar entre esses mortos enfileirados (veja a foto) quanto poderia ser o trigésimo sétimo que jamais foi encontrado.



Sempre guardei dentro de mim a esperança de que um dia ele iria aparecer de novo dizendo" Não morri! Finalmente consegui voltar pra casa!"  Gastei anos imaginando e editando de mil formas essa cena,  que jamais aconteceu.  Não dizem que a vida imita a arte? Pois é, porque seria absurdo ele aparecer um dia, vivinho da silva, vindo me dar um grande abraço?  Nesse mundão doido, tudo pode acontecer.

"- Mas se ele não morreu, porque não voltou?"  Sim, você deve estar querendo me jogar essa pergunta como quem lança uma bola de basquete nos peitos do jogador. Tenho a dizer o seguinte: ele pode ter perdido a memória de vez ou temporariamente. Se foi temporariamente, pode ter receado voltar pra casa e não encontrar mais o mesmo contexto. Poderia ter receado encontrar minha mãe com outro homem, sei lá. Filme é filme.

De uma forma ou de outra tenho uma coisa curiosa a contar:  lembro que certa vez a minha saudosa madrinha, dona Althema, chegou comigo com os olhos marejados, meio pálida, com uma expressão estranha no rosto e me disse muito emocionada que naquele momento ela estava tendo uma visão! Ela estava "vendo" o meu pai e ele não estava morto. Ele estava sem um braço, o qual teria sido perdido no acidente, e por isso, dizia ela, ele não queria voltar pra casa;  porque estava se sentindo um inválido.

Achei que ela estava pirando mas ao mesmo tempo imaginei que poderia ser verdade. Quem sabe? Ele era mesmo esquisitão e uma atitude dessa não seria de todo improvável. Minha mãe contava que ele se recusava a comprar um carro, embora pudesse. Ele sempre lhe dizia que jamais queria ter um carro porque temia demais que um dia houvesse um acidente por sua culpa; ele dizia que jamais se perdoaria se um dia perdesse ou machucasse um filho, que ele não tinha estrutura emocional para suportar uma coisa dessa.

Bem, uma pessoa que pensa assim pode muito bem não voltar pra casa porque não tem braço, vocês não acham?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mochila fosforescente

Se eu pudesse voltar ao passado...

De vez em quando a gente pensa isso, não é? Você já pensou.  Mas será que voltar é algo desejável mesmo?  Ou você só quer algumas cenas escolhidas?

Claro que você só quer algumas cenas escolhidas. Conheço você!  Todos temos ceninhas de cinema salpicadas em nossa vida chocha. É elas que queremos e não o todo. Deus sacou isso, bateu pé ("Ou leva todo o pacote ou não leva nada!")  e por fim tirou a marcha ré da carroça da nossa vida. Lascou-se.

Tudo bem, mas se você tivesse ré, voltaria ao passado?  Já sei o que vai me perguntar:  "- Passado? Mas de qual passado você está falando?"    Boa pergunta. Você é esperto.

Considere que não há um único "passadão" para nos referirmos.  Mesmo as piores novelas são divididas em capítulos. Sendo assim, há um monte de "passadinhos" em nossa tosca prateleira.  E esses "passadinhos" estão classificados e acondicionados em vidros separados: o do Passado Remoto, Passado Antigo e Passado Recente. Qual dessas velharias lhe seduz?

O passado antigo esmaece enquanto o recente é fresco e vivo. Desse ouço até vozes e cheiros. Parece estar ao alcance da minha mão. É convidativo, acolhedore e aparentemente acessível. Só aparentemente.

O presente, quando se torna em passado torna-se impenetrável como uma rocha.

Sabe, não há fantasia mais doce do que acreditar que podemos retornar a cenários antigos para retomar o fio da meada e viver feliz para sempre, dessa feita sem mancada.

Quando estou naqueles dias pratico a nociva atividade de consolar-me com essa idéia de voltar a fita. Felizmente passa rápido porque alguém lá no fundo canta a pedra: "O passado petrificou! Ninguém entra, ninguém sai de lá!"

Mas se pudesse eu voltaria? Hmmm...

Raciocinemos: voltar ao passado sem a cabeça e as informações do presente, não teria graça. Faltaria a consciência dessa volta, então não seria "voltar lá e curtir de novo",  mas seria apenas repetir a mesmíssima história. VOCÊ QUER?

Seria como ver novamente o mesmo filme, com os personagens não sabendo que aquilo tudo é repetido, sem saber o que aconteceu ou vai acontecer. Aí todo mundo faz novamente as mesmas coisas erradas. Não dá.

E a segunda opção? Voltar ao passado com a cabeça e as informações do presente?  Também não dá. Eu não sou mais a mesma. Seria como colocar o personagem de uma novela em outra novela. Olha a confusão!  Além do mais o presente está todo desconjuntado; falta pano de um lado e sobra de outro. Hoje há novas alegrias, novas mágoas, novos personagens, novas conclusões, novos sentimentos. E ainda por cima falta um monte de persnagem da história.  Como retomar a minissérie nessas condições?

Nada de hoje cabe no que passou. Voltar ao ontem com a cabeça do hoje? Impraticável.  Ao voltar, mentalmente me vejo carregada de novas histórias que não caberiam naquele enredo. Fica absurdo, uma coisa assim como... como uma mochila fosforescente colada em minhas costas em um cenário do século XIX. Não dá.

Uma reconstrução nada mais seria do que uma imitação deprimente do filme original. Não há passado para o qual voltar. É tolice pensar que ele está nos esperando. Não está. Cada dia o nosso passado fica mais diferente de nós mesmos. Se voltássemos ele não nos reconheceria, nem nós a ele.

Mesmo assim há dias em que, teimosamente, gosto de pensar que posso. Ah aquelas cenas!  Há cenas dignas de um filme também em meu passado e são essas cenas tendenciosas que nos puxam. Não deveríamos nos impressionar. Se chegássemos lá, constataríamos que a coisa não é bem assim.  Ah como a gente esquece da mediocridade do resto...

Seria bom voltar a ser simples e apaixonada, jovem e cheia de idéias, com mil vontades e disposição imbatível e sem celulites. Só que

Não posso
Não sei
Não consigo.

Tudo o que eu tenho é o hoje e o que hoje eu sou (e que deixarei de ser daqui a pouco). - "E isso não é bom?"  Sei lá.  Mais pra frente, se eu sentir vontade de voltar, é sinal de que foi.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cópias velhas

Há quem pense que viver cada dia como se fosse o último é ser irresponsável e inconsequente. Não. Não é meter o pé na jaca, querer tudo de uma vez, desesperar e se encher de dívidas.   Viver cada dia como se fosse o último é:

1-  Prestar muita atenção ao seu redor. Ame os minutos, colha-os com os olhos. Mire as pessoas e repare em tudo o que elas tem de lindo. Relacione-se. Descubra a alma de quem está perto, mostre-se, preste atenção!  Que nada escape à sua sensibilidade. Isso é degustar o momento. Prestar muita atenção a ele é "fotografar com o coração".

2- Tire muitas fotos. Não as poupe. Registre até bocejo e coceira no pé. Em sua mente não cabe tudo, então guarde os risos, o salto quebrado, a gola virada, o suor escorrendo, os abraços, gargalhadas, a troca de olhares. Tranforme o efêmero em "eterno"  com sua máquina fotográfica mágica.

3-   Quando o momento passar, estique-o através de relembranças. Vá dormir remastigando a sua alegria, sua felicidade, as pessoas que ama. Deixe-as repetir em sua mente as mesmíssimas piadas. Elas estão loucas para contar de novo, acredite. Permita que seus risos voltem a ecoar pela sala da sua cabeça.  Elas querem reviver! Esse é o sonho de cada defunto. Sim, aquele pessoal da foto não existe mais. O que existem são réplicas mais velhas.  À noite, na cama, é o melhor lugar para você sublinhar o que se passou.

Eu me odiaria pra sempre se não tivesse fotografado esse momento aí de cima. Não se repetirá. Pensar nisso seria quase desesperador se não fosse a esperança de que outras coisas boas também continuarão a acontecer. Claro que acontecerão! Se você souber com certeza que nada de legal voltará a contecer pra mim, pode me dar um tiro.  Hehehe - brincadeirinha! Largue essa arma! Não confio em seu julgamente.

Pois é: ainda que façamos outra festa semelhante, é absolutamente improvavel que as mesmas pessoas compareçam. Não, não comparecerão. Em primeiro lugar porque é como eu já disse: todos esses daí já não são mais. Ficaram mais velhos e tudo o que temos hoje é uma cópia razoável do que já foram. Tem gente até que já mudou o penteado! Uns emagreceram, outros engordaram...   Mesmo que eles não fossem apenas réplicas gastas de si mesmos eu garanto: juntar essa galera de novo não é impossível mas é complicado.

Não dói pensar nisso? Dói sim.  Mas ha, não quero esquentar a cabeça com isso hoje.

Se não quero  esquentar a cabeça com isso hoje, porque estou postando esse texto? Muito simples: porque esquentei a cabeça com isso ontem, quando redigi  esse texto. Ontem esquentei a cabeça - hoje a refresquei. O texto está no ar porque quero agora esquentar a SUA cabeça.

Calma, calma! A vida se renova. Que venha o novo dia carregando seu cesto de cores e odores. Venham novos dias! Amanhã posso estar mais magra, com a pele mais tratada, com novos amigos, com menos fraquezas, com mais leitores...   Espero pelo amanhã. Mas quero vivê-lo consciente de que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.

(Admito: essa frase é manjada pra caramba! Mas quebrou o maior galho como finalização de texto.)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Inesquecível

Juntando com outras coisas, essa música foi o ápice e rebentou meu coração de criança aos 8 anos de idade. Fiquei profundamente tocada, com muita vontade e vergonha de chorar.

Parecia que eu estava vendo Jesus Cristo ali na minha frente, de braços estendidos esperando para me abraçar, para me receber. Era apenas ele e eu e mais ninguém. É sempre assim: de cara com Jesus a solidão é total e o universo cai fora.

Ele me amava, me amava muito, muito mesmo e isso me comovia imensamente porque por mais que eu ouvisse a respeito, sentir é muito diferente. Ele me dizia com os olhos que me amava, amava muito e me queria para si. Ele me olhava nos olhos. Eu não o via, claro, mas o percebia claramente.

Foi um lance muito forte e inesquecível. Caramba, e a preleção nem era dirigida à minha faixa etária! Mas... mas eu não resisti a tanto amor. De alguma forma eu sabia, eu sabia de forma até perturbadora que ele estava ali, ali, ali na frente, sorrindo com os olhos - difícil de explicar - e dirigindo a mim uma aceitação tão plena e sem questionamentos que desarmaria qualquer Rambo. E naquela noite, pela primeira vez ele não era uma icógnita mas uma pessoa, o Deus de que eu tanto ouvia falar e que me encharcava agora de amor. Estranho. Na teoria não é assim, tão emocionante.

Eu queia correr e beijar seus pés mas claro, seria delírio pois era um lance mental/espiritual; não o enxergava de fato. Ele perguntava (dentro de minha mente) se eu ficaria impassível; como responderia ao seu amor? "Morri na cruz por ti; que fazes tu por mim?" Não, não falava em serviço, falava em amor correspondido. "Cristina, você vai ficar aí parada ou vai me abraçar? Vai se entregar a mim? Você me ama também? Meu amor te comove? Eu te amo muito! Você é especial para mim, Cristina! Vou cuidar de você para sempre, para sempre! Eu sou teu Deus e teu Pai, Jesus de Nazaré."

E ele estava ali, parecia-me, ao lado direito do pastor que, a essas alturas, eu nem sabia mais o que favala. Jesus esperava a resposta do meu coração. Esperava que eu lhe devolvesse o sorriso, lhe dissesse sim com o meu coração, que me deixase abraçar e ser recebida por ele. Sim, sim sim! Claro que fiz isso!

Não lembrei mais de nada, não vi mais ninguem ao meu lado, não sei informar o tema da pregação. Só lembro desta música que cantaram.

Quer dizer que todas aquelas lições que a gente aprende na Escola Bíblica... Claro que são verdadeiras mas... Meu Deus, isso é muito mais! Ele é vivo, transborda de amor e faz contato! Isso transcende a qualquer teoria! Que loucura!

(Só os "loucos" entrarão no reino dos céus..." rsrsrsr)


domingo, 15 de novembro de 2009

Sem palavras...


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Acredite se quiser

Deparei-me com essa gravura e parei. Como adivinharam? Muita coincidência!

Cara! Tive que rir. Rir de mim mesma e meu passado atarantado. Bateu assim um misto de saudade, e ternura cômica. E agradável sentimento de dever cumprido.

Acreditem se quiserem mas passei exatamente por isso que vocês estão vendo. Tem quem ache que tenho cara de dondoca mas as coisas SÃO SÃO BEM ASSIM! Dentro de mim jaz uma doméstica e babá.

Pois sim, vivi uma cena praticamente idêntica muitos anos (confesso) atrás. As únicas diferenças: nas mãos, além do bebê e da colher de pau, eu não equilibrava uma vassoura, mas um guarda-chuvas. Isso mesmo: um guarda-chuvas.

Era manhã, eu estava no maior sufôco preparando o almoço, o bebê (não lembro qual dos quatro) não parava de chorar e a comida tinha que ficar pronta, custasse o que custasse, para o marido que vinha do trabalho e tinha hora pra retornar. Chovia copiosamente e havia uma bendita goteira justamente perto do fogão, onde eu segurava meu lindo bebezinho. Não podia deixá-lo aos berros pois ele estava com fome (queria peito). O que fazer? Segurei o guarda-chuvas com o mesmo braço com que carregava o chorãozinho e com a outra mão mexia a panela.

Cena antológica. A outra diferença em relação à gravura é que eu era novinha, gatinha, tudo no lugar. Não estava acabadona como essa senhora aí, viu!

Gostoso lembrar. (Gente, como é que deu tudo certo?)
Valeu a luta. Valeu TUDO.

Obrigada Deus!

terça-feira, 2 de junho de 2009

Nada fácil


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Bom, mas bom mesmo...


O que é bom, mas bom mesmo pra você?

A resposta depende muito do dia. Hoje por exemplo estou achando que bom, mas bom mesmo é ser moleque, mas desses moleques bem jogados mesmo, "dos tempos de antigamente".

Sabe aqueles que iam para a escola, faziam o dever de casa e estavam livres para sempre? Pois é. Ô vidão! Colocavam um shorte e iam jogar bolinha de gude, soltar pipa, ajeitar o carrinho de rolimã... emporcalhar-se a tarde toda, em suma.

Obviamente nunca fiz nada disso porque nasci menina... Tinha inveja dos meninos mas eu dava meu jeito lendo contos de fadas, brincando com bonecas, viajando na maionese da minha Second Life mental.

Mas bom mesmo era ser moleque, sempre tive certeza disso. Até os pés cortados tinham seu charme e história pois falavam de algo do qual eu jamais seria chamada a participar. Os meninos voltavam suados e horríveis pra casa, com o joelho esfolado. Disso eu não tinha inveja porque não ficaria bem na hora de cruzar minhas perninhas finas.

Hoje em dia não se tem mais "moleque de família". O que se vê é criança de rua ou menino estressadinho. Vão para a escola e voltam incumbidos de trabalhos escolares rocambolescos que infernizam, quer dizer, envolvem a família toda. Depois tem o judô, o inglês, as aulas reforço e o raio que o parta.

Seja lá o que for que os moleques da foto estão fazendo, e de onde estão descendo, é certo que são uns privilegiados. A cena é rara e para poucos. Conheço poucos (na verdade, nenhum...) lugares de onde se possa descer assim. Deve ser tão, mas tão, mas tão divertido que é terminantemente proibido para crianças de boa família.

Aliás o que é "boa família" mesmo???

Digo a vocês, não sem um certo desgosto, que nunca fui moleque nem moleca. Fiquei no meio: fui meleca. Daí a inveja dos meninos da foto.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

The Sound of Music


Outro ponto fraco:

Toda a santa vez que assisto A Noviça Rebelde eu choro. Assim, de pingar mesmo. Nem drama é. Mas acho que esse fenômeno tem uma explicação.

"The Sound of Music" (o verdadeiro nome) foi o primeiro filme que assisti no cinema e também o único com meu pai. Não muito tempo depois ele morreu. Acabou virando a trilha sonora do meu amor por ele.

Meu pai, que falava inglês, se apaixonou pela trilha sonora do filme e pela poesia que havia nas músicas. Comprou então o "disco" (vinil) que tocava na "vitrola" dia e noite. Nós ouvíamos o tempo inteiro sem enjoar. Adorávamos.

Sabe o lance da família feliz propaganda de margarina? Pois era assim.

Pra mim tudo é comovente no filme, a começar da abertura: belíssima. A fotografia é de tirar o fôlego. Quando você já está babando aparece a Julie Andrews na sua melhor forma, viçosa como uma flor do campo cantando ... Tão cheia de vida, tão deslumbrada com aquela exuberância toda ao seu redor , ofegante, os olhos brilhantes e um sorriso lindo como se tivesse descoberto o mundo naquela hora. Ela consegue passar isso para gente. Já começo a lagrimar aí.

Não sei separar o que é de fato belo e o que está enviesado em minhas lembranças familiares. Isso é um novelo que não me interessa desenrolar. Só sei que tenho o CD e o DVD. Vez por outra coloco aqui em casa escondido de todo mundo e me debulho em lábrimas sozinha, só pra não perder o jeito.

Sabe, meu sonho de menina era casar como casou Maria. Queria um vestido igualzinho ao dela. Queria que a música de entrada no meu casamento fosse a mesma. Desejei ardentemente isso. Com o tempo descobri que sou tendente a desejar algumas coisas nestes termos: ardentemente. Não é bom, mas é 100% Cristina.

Bem, sonhos são sonhos... Foi tudo tão diferente! O vestido era até emprestado. Mas eu estava realmente feliz.

Talvez tenha sido a partir da cena da entrada de Maria na igreja que eu tenha me apaixonado por órgãos de tubos. Sempre me emociono quando ouço um instrumento desse ao vivo. Eles tem um som poderoso, grandiloquente. Parece que entra na alma da gente, aí vamos ficando transparentes como a música e com a mesma capacidade de nos elevarmos acima do chão. Sei lá, algo assim. Sou piradinha mesmo. E é como se só existisse música, nuvens e anjinhos barrocos no mundo.

Nunca saberei ao certo se este filme é tudo isso que eu estou falando ou se isso é apenas o subproduto de uns neurônios do passado, perdidos no tempo e no espaço, desorientados coitados! que meio zonzos vieram se refugiar na gaveta errada da memória.

Pode ser que o que percebo do filme esteja só em minha cabeça, impregnada pelas impressões antigas de uma infância musical e tranquila, com irmãos, pai e mãe e cheiro de sopa vindo da cozinha.

Eu até queria que você assistisse só pra me dizer onde termina o filme e começa a Cristina.

Veja aqui mais detalhes e fotos. Vale a pena.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

MEMÓRIAS - 01

Desde cedo os homens contavam com a minha incansável admiração. A figura masculina sempre mexeu muito comigo - no sentido mais inocente do termo.

Desde pequena eu já professava algumas idéias feministas. As pessoas sabiam disso e provocavam meus discursos: sim, homem e mulher tem direitos iguais e devem ser igualmente respeitados. Mas ao mesmo tempo que dizia isso com muita convicção, enxergava os homens como seres especiais; muito, mas muito mais fascinante do que as aguadas mulheres.

Caramba! Eu já era contraditória desde então!

Por mais que as mulheres fossem sempre simpáticas comigo (colegas, amigas da mamãe, tias...) e me tratassem com sorrisos, atenção, presentes e carinhos, tudo o que elas provocavam em mim era uma certa irritação. A minha vontade era dizer-lhes: "Não me toquem pelo amor de Deus!" Mas não dizia, cláro. Ficava só calada e muito séria, olhando meio “de banda”.
A verdade é que as mulheres nunca me despertaram nem um décimo da empolgação que um simples sorriso masculino provocava. Para mim as coisas mais lindas do mundo eram a voz e o sorriso masculino. E os músculos, sem dúvida. E tudo o mais.

Dos afagos femininos eu pensava: “coisa mais sem graça!” Já para os homens não: eu abria um enorme sorriso, me derretia toda, ficava por perto, torcia para que me dessem atenção e que me colocassem no colo. Ah, tão simpáticos os amigos do papai!

Em minhas análises eu olhava para meu pai, primos, irmãos, amigos da família, vizinhos... e depois os comparava com as mulheres. Concluía então que eles eram muito mais interessantes, fortes, desejáveis, bonitos e agradáveis do que as mulheres. Não precisavam de artifício algum, bastava que existissem.

Então imaginava como seria maravilhoso se uma voz grossa e aveludada um dia dissesse, bem no pé do meu ouvido, que eu era linda, que me amava e queria casar comigo - igual nos contos de fada. Ah... Eu suspirava!

Ter um homem com certeza seria a glória. Um dia eu haveria de ter um só pra mim! Não o dividiria com ninguém.

Detalhe: eu não contava ainda nem dez anos de idade. Não sabia absolutamente nada sobre sexo. A questão é: para que cargas d´água será eu queria um homem?

Acho que era só para ficar olhando, olhando, olhando...
Cristina Faraon

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Insônia do bem


Estava tudo combinado: Rita e eu sairíamos para colocar as fofocas em dia. Essa semana teria que dar certo de qualquer jeito, uma vez que ela vai viajar de férias.


Ela telefonou ontem a tarde dizendo que no final do dia podéríamos nos encontrar para o happy hour.


Tudo certo. Certíssimo.


Aí a Sandra ligou perguntando o que eu iria fazer a noite. Expliquei e ela disse que talvez aparecesse. Tudo bem, seríamos três.


Fui buscar a Rita no trabalho dela. Quando estava estacionando o carro no "Boteco da Computer" observei pelo vidro que o Victor estava lá. Coincidência... Deveria estar com a namorada. Aí quando fui entrando encontrei com o Nelson. Cúmulo da coincidência. Bem, não seria mais uma noite de conversar femininas mas seria uma noite legal.


Subi as escadas e deparei-me com um monte de amigos e parentes com as mesas "juntadas". Perguntei para a Rita que raios aquele povo todo estava fazendo ali. Estranho, né?


Não, não era meu aniversário.


Foi aí que a Rita, perdendo a paciência, me puxou pelo braço e obrigou-me a ler um banner onde estava escrito que aquela era a noite de lançamento do livro Rio Coragem - de minha autoria! Oh!


Devo ter ficado alguns segundos com cara de "oh!" Tomara que não tenham filmado.


Então depois de alguns segundo, nos quais meus neurônios pararam de dar de encontro uns nos outros e tomaram suas formações costumeiras ela me fez vez as outras pessoas convidadas, entre elas o amigo Marcos Quinan, escritor e compositor que me deu a maior força no livro.


Fiquei tão feliz que pulei no pescoço dele e o abracei efusivamente. Tomara que o povo tenha entendido que aquele era um momento especialíssimo e eu estava abobalhada de alegria e surpresa.


Abracei meio mundo de gente, beijei, ri, tirei fotos, autografei...


Isso mesmo. O livro era um lançamento virtual mas me fizeram a surpresa de mandar imprimir e encadernar vários exemplares, o que tornou possivel os autógrafos. Os exemplares esgotaram-se, felizmente. Se forem feitos mais, já poderei chamar de "segunda edição". Uau!


Foi maravilhoso. Recitaram meus poemas e o amigo e músico Eduardo Dias - agora parceiro - musicou um deles e apresentou no evento. O Marcos Quinan também musicou um poema meu, mas não foi apresentado na ocasião. Aguardem!


Voltando para casa não consegui dormir. Rolei muito tempo na cama. Foi quando entendi que meus neurônios resolveram fazer serão porque receberam muito serviço extra e não queriam deixar nada para o dia seguinte.


Pensamentos, lembranças, poesias e textos pululavam em minha mente.


Feliz insônia.
Brigadaê, galera!

sábado, 23 de junho de 2007

Junho de 83

Não pensei que aquela sensação fosse possível. Não se limitavam a meras lembranças não. Foram sentimentos intensos, como se de fato eu tivesse retrocedido anos.

Na verdade jamais cheguei a desejar, como outras pessoas, ser novamente criança. Essa vontade nunca tive por diversas razões. Só que quando entrei naquela sala tudo me emocionou.

Lá não havia nada que pudesse ser considerado bonito: era uma sala de madeira com a pintura gasta. O chão igualmente rústico. A mesa da professora era improvisada por outras duas mesinhas menores juntas, cheias de livros. Um ventilador de teto, cadeiras de fórmica azul claro com braço para escrita e o mais interessante: na sala toda um cheiro inexplicável de criança. Exatamente isso.

O cheiro foi o que mais me impressionou e emocionou também. Não me refiro a colônia com cheirinho de bebê. Era muito mais que isso: cheiro de inocência, de gente limpa do pó do tempo, de vida explodindo, de sorriso sincero, de flor abrindo, de dia amanhecendo, capim fresco, pão quentinho, gotinhas de suor na testa macia; cheiro de gente que não partilha da podridão do mundo. Era O Perfume, O Cheiro.

Não sei como essas criaturinhas engraçadas e acesas conseguem deixar rastros tão profundos por onde passam. Foi então que lembrei nitidamente do que fui e não sei como ou quando deixei de ser. Até aquela data eu ainda não havia notado o tempo passar. Estava distraída demais com meus afazeres. Ainda não havia incorporado esse costume de olhar vez por outra no retrovisor da vida.

Naquele dia me assustei. Não com um novo sentimento, mas em perceber o quanto havia mudado a minha maneira de enxergar tudo ao meu redor. Em qual momento fatídico aquele “espírito de criança” caiu fora? Como consegui afugentá-lo? Só sei que por alguns instantes “ele” voltou. Pude sentir! Não precisei fechar os olhos.

Acho que ninguém ali notou o momento mágico em que novamente fui tomada. Pelo que? Fui tomada. Senti de novo aqueles sopros do passado: o esmero em arrumar o material na pasta, a alegria do uniforme novo, a impaciência para que chegasse logo a hora de ir ao colégio, os passos largos de manhãzinha, o prazer de sentir o cheirinho dos livros e cadernos novos recém-encapados. Deu até vontade de chorar. Inesparada viagem!

Outras lembranças doídas também vieram, assim como o vento traz a poeira. Lembrei da insegurança, da timidez, da sensação de não ser aceita. Lembrei de que era desajeitada e feia mas não sofri. Cenas e cenas saltavam em minha mente como se estivessem séculos espremidas no túmulo e de repente agarrassem uma chance única de voltar à vida para serem sentidas novamente. Vi os primeiros sinais da subserviência masculina diante da beleza feminina - as meninas bonitas, os meninos iniciantes... Tudo passageiro, frágil e repetido.

Disso tudo lembrei e senti um grande carinho, de mãe para filha, por aquela menina que fui: sensível, insegura e sonhadora.

Estranhamente tive a impressão de que aquela era a minha sala de aula, aqueles bonecos e letras sorridentes estavam ali para mim. Senti muita vontade de chorar, um nó na garganta, mas ninguém entenderia essa atitude ali, numa reunião de pais e mestres. Emoção estranha, difícil de compartilhar.

Voltei a mim, vim para casa com minha enorme barriga de grávida. Pela primeira vez na vida tive saudade da minha infância.
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domingo, 30 de janeiro de 2011

Queria fazer um teste

Queria novamente vestir meu uniforme de Escola Pública com um EP bordado em azul no peito. Era motivo de orgulho.

Queria sim vestir aquela camisa branca com minha saia azul marinho, pregueada. Minha meia subiria até quase alcançar os joelhos e eu entraria em formação com os colegas. Colocaria minha pasta no chão ao lado da merendeira, pertinho do tornozelo. Então a diretora da escola iria lá para a frente e puxaria um dos hinos que aprendemos: Hino à Bandeira, Hino Nacional, Canção do Expedicionário, Hino da Independência... Qualquer um era belíssimo para mim, eu não tinha preferências.

Quando cantávamos a gente se sentia maior do que era, capaz até algum grande ato de heroísmo.

Se eu voltasse... Ah... Eu respiraria fundo debaixo daquele sol ainda morno. Respiraria já esperando a emoção infalível que me sobreviria. Eu amava os hinos. Eles me faziam acreditar que éramos um povo heróico, forte e idealista.

Não me envergonho de dizer que ainda sinto grande emoção quando ouço nossos hinos. Só que não é  a mesma emoção de antigamente, romântica e cheia de imagens ideais. É uma emoção mista de saudade (imensa!) , sentimento de perda e lamento. Uma emoção de quem vê a beleza de nossos sentimentos juvenis dobrar o rio na chalana.


"Lá vai a chalana! Bem longe se vai
Cruzando o remanso do rio Paraguai
Oh chalana, sem querer tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas vais levando o meu (nosso!)  amor!"

É possível que alguns jovens ainda se emocionem com nossos hinos. Uns poucos ainda ficariam arrepiados mas mesmo esses poucos não teriam coragem de confessar essa "falha" para os colegas.  Nós, do passado, tínhamos. Amar a pátria era bonito, não um atestado de babaquice.

Antigamente era um orgulho estudar em escola pública. No tempo dos militares. Só quem ia para escola particular eram os alunos vadios (ou burros) que pudessem pagar. Lá, qualquer bestalhão passava. Quem era bom mesmo, estudava em escola pública.


"- Não quer estudar? Vive repetindo? Então cai fora e dá a vaga para outro."  

Os bons tinham vaga certa na escola pública e estufavam o peito. Lembro de um episódio no qual minha mãe teve que ir atrás de conseguir um ATESTADO DE POBREZA para poder manter minha matrícula. Sério!

Mãe, por favor, traga aquele meu uniforme branco e azul marinho! E minhas meias três quartos. Pegue minha mão e me leve tranquilamente pelas ruas do Estácio. Cumprimente o Kid Moringueira, nosso vizinho ilustre.   Despeça-me com um beijo e me deixe entrar no pátio pois os colegas já estão em posição de sentido. Quero sentir tudo de novo, mãe! Quero ouvir o hino! Deixe eu ser criança novamente, só mais uma vez. Quero sentir de novo aquela vontade de chorar, aquele orgulho e aquele amor pelos soldados.

"Se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio..."

Queria fazer o teste. Queria repetir todo o cenário e descobrir se ainda tenho coração para aquilo tudo. é lindo o que uma criança é capaz de sentir e o que um adulto é capaz de manter se não for  seriamente atrapalhado.


Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá, para aquele passado arborizado, para só mais uma vez me sentir brasileira-com-muito-orgulho.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

23.01.67 - Uma enchente muito antiga


(Clique na imagem para vê-la ampliada e assim tornar possível  a sua leitura.)

Hoje essa reportagem faz exatamente 44 anos. Ver esse jornal depois de tanto tempo me emocionou bastante.  Minha mãe talvez nem tenha visto...  bem, aqui vai um pouco da minha história:

Perdi meu pai em uma das enchentes do Rio de Janeiro, em janeiro. Este é o jornal que noticia a data em que ele morreu. Lembrem esse nome: Bartholomeu da Silva Corrêa. 

Ele fazia, de ônibus (empresa Única), o trajeto Rio-São Paulo quando, devido às chuvas,  houve o deslizamento de parte de um morro na Serra das Araras (km 55) . O desmoronamento inundou a rodovia, arrastou e soterrou na lama carros, caminhões e ônibus, inclusive o ônibus onde meu pai estava. Foi um horror. Disseram que havia carretas viradas "de cabeça pra baixo" das quais só se via as pontas das rodas. Era muita, muita lama.

Minha mãe peregrinou muitos dias no local e no IML na tentativa inútil de reconhecer o corpo do meu pai. Ela disse que chegou a ver um homem com uma roupa parecida com a dele e porte físico também parecido,  só que este homem tinha dente de ouro e meu pai não tinha dente de ouro (na época era moda encapar pelo menos um dente com uma folha de ouro.).  Ela sempre contava o quanto era horrível e difícil ter que ver, por tantos dias, aquele monte de gente morta enfileirada. Era um espetáculo horrendo. Defuntos com a barriga enorme, cheios de lama, expostos. 

Dos trinta e sete viajantes do ônibus, trinta e seis foram encontrados - mortos. Meu pai tanto poderia estar entre esses mortos enfileirados (veja a foto) quanto poderia ser o trigésimo sétimo que jamais foi encontrado.



Sempre guardei dentro de mim a esperança de que um dia ele iria aparecer de novo dizendo" Não morri! Finalmente consegui voltar pra casa!"  Gastei anos imaginando e editando de mil formas essa cena,  que jamais aconteceu.  Não dizem que a vida imita a arte? Pois é, porque seria absurdo ele aparecer um dia, vivinho da silva, vindo me dar um grande abraço?  Nesse mundão doido, tudo pode acontecer.

"- Mas se ele não morreu, porque não voltou?"  Sim, você deve estar querendo me jogar essa pergunta como quem lança uma bola de basquete nos peitos do jogador. Tenho a dizer o seguinte: ele pode ter perdido a memória de vez ou temporariamente. Se foi temporariamente, pode ter receado voltar pra casa e não encontrar mais o mesmo contexto. Poderia ter receado encontrar minha mãe com outro homem, sei lá. Filme é filme.

De uma forma ou de outra tenho uma coisa curiosa a contar:  lembro que certa vez a minha saudosa madrinha, dona Althema, chegou comigo com os olhos marejados, meio pálida, com uma expressão estranha no rosto e me disse muito emocionada que naquele momento ela estava tendo uma visão! Ela estava "vendo" o meu pai e ele não estava morto. Ele estava sem um braço, o qual teria sido perdido no acidente, e por isso, dizia ela, ele não queria voltar pra casa;  porque estava se sentindo um inválido.

Achei que ela estava pirando mas ao mesmo tempo imaginei que poderia ser verdade. Quem sabe? Ele era mesmo esquisitão e uma atitude dessa não seria de todo improvável. Minha mãe contava que ele se recusava a comprar um carro, embora pudesse. Ele sempre lhe dizia que jamais queria ter um carro porque temia demais que um dia houvesse um acidente por sua culpa; ele dizia que jamais se perdoaria se um dia perdesse ou machucasse um filho, que ele não tinha estrutura emocional para suportar uma coisa dessa.

Bem, uma pessoa que pensa assim pode muito bem não voltar pra casa porque não tem braço, vocês não acham?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mochila fosforescente

Se eu pudesse voltar ao passado...

De vez em quando a gente pensa isso, não é? Você já pensou.  Mas será que voltar é algo desejável mesmo?  Ou você só quer algumas cenas escolhidas?

Claro que você só quer algumas cenas escolhidas. Conheço você!  Todos temos ceninhas de cinema salpicadas em nossa vida chocha. É elas que queremos e não o todo. Deus sacou isso, bateu pé ("Ou leva todo o pacote ou não leva nada!")  e por fim tirou a marcha ré da carroça da nossa vida. Lascou-se.

Tudo bem, mas se você tivesse ré, voltaria ao passado?  Já sei o que vai me perguntar:  "- Passado? Mas de qual passado você está falando?"    Boa pergunta. Você é esperto.

Considere que não há um único "passadão" para nos referirmos.  Mesmo as piores novelas são divididas em capítulos. Sendo assim, há um monte de "passadinhos" em nossa tosca prateleira.  E esses "passadinhos" estão classificados e acondicionados em vidros separados: o do Passado Remoto, Passado Antigo e Passado Recente. Qual dessas velharias lhe seduz?

O passado antigo esmaece enquanto o recente é fresco e vivo. Desse ouço até vozes e cheiros. Parece estar ao alcance da minha mão. É convidativo, acolhedore e aparentemente acessível. Só aparentemente.

O presente, quando se torna em passado torna-se impenetrável como uma rocha.

Sabe, não há fantasia mais doce do que acreditar que podemos retornar a cenários antigos para retomar o fio da meada e viver feliz para sempre, dessa feita sem mancada.

Quando estou naqueles dias pratico a nociva atividade de consolar-me com essa idéia de voltar a fita. Felizmente passa rápido porque alguém lá no fundo canta a pedra: "O passado petrificou! Ninguém entra, ninguém sai de lá!"

Mas se pudesse eu voltaria? Hmmm...

Raciocinemos: voltar ao passado sem a cabeça e as informações do presente, não teria graça. Faltaria a consciência dessa volta, então não seria "voltar lá e curtir de novo",  mas seria apenas repetir a mesmíssima história. VOCÊ QUER?

Seria como ver novamente o mesmo filme, com os personagens não sabendo que aquilo tudo é repetido, sem saber o que aconteceu ou vai acontecer. Aí todo mundo faz novamente as mesmas coisas erradas. Não dá.

E a segunda opção? Voltar ao passado com a cabeça e as informações do presente?  Também não dá. Eu não sou mais a mesma. Seria como colocar o personagem de uma novela em outra novela. Olha a confusão!  Além do mais o presente está todo desconjuntado; falta pano de um lado e sobra de outro. Hoje há novas alegrias, novas mágoas, novos personagens, novas conclusões, novos sentimentos. E ainda por cima falta um monte de persnagem da história.  Como retomar a minissérie nessas condições?

Nada de hoje cabe no que passou. Voltar ao ontem com a cabeça do hoje? Impraticável.  Ao voltar, mentalmente me vejo carregada de novas histórias que não caberiam naquele enredo. Fica absurdo, uma coisa assim como... como uma mochila fosforescente colada em minhas costas em um cenário do século XIX. Não dá.

Uma reconstrução nada mais seria do que uma imitação deprimente do filme original. Não há passado para o qual voltar. É tolice pensar que ele está nos esperando. Não está. Cada dia o nosso passado fica mais diferente de nós mesmos. Se voltássemos ele não nos reconheceria, nem nós a ele.

Mesmo assim há dias em que, teimosamente, gosto de pensar que posso. Ah aquelas cenas!  Há cenas dignas de um filme também em meu passado e são essas cenas tendenciosas que nos puxam. Não deveríamos nos impressionar. Se chegássemos lá, constataríamos que a coisa não é bem assim.  Ah como a gente esquece da mediocridade do resto...

Seria bom voltar a ser simples e apaixonada, jovem e cheia de idéias, com mil vontades e disposição imbatível e sem celulites. Só que

Não posso
Não sei
Não consigo.

Tudo o que eu tenho é o hoje e o que hoje eu sou (e que deixarei de ser daqui a pouco). - "E isso não é bom?"  Sei lá.  Mais pra frente, se eu sentir vontade de voltar, é sinal de que foi.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cópias velhas

Há quem pense que viver cada dia como se fosse o último é ser irresponsável e inconsequente. Não. Não é meter o pé na jaca, querer tudo de uma vez, desesperar e se encher de dívidas.   Viver cada dia como se fosse o último é:

1-  Prestar muita atenção ao seu redor. Ame os minutos, colha-os com os olhos. Mire as pessoas e repare em tudo o que elas tem de lindo. Relacione-se. Descubra a alma de quem está perto, mostre-se, preste atenção!  Que nada escape à sua sensibilidade. Isso é degustar o momento. Prestar muita atenção a ele é "fotografar com o coração".

2- Tire muitas fotos. Não as poupe. Registre até bocejo e coceira no pé. Em sua mente não cabe tudo, então guarde os risos, o salto quebrado, a gola virada, o suor escorrendo, os abraços, gargalhadas, a troca de olhares. Tranforme o efêmero em "eterno"  com sua máquina fotográfica mágica.

3-   Quando o momento passar, estique-o através de relembranças. Vá dormir remastigando a sua alegria, sua felicidade, as pessoas que ama. Deixe-as repetir em sua mente as mesmíssimas piadas. Elas estão loucas para contar de novo, acredite. Permita que seus risos voltem a ecoar pela sala da sua cabeça.  Elas querem reviver! Esse é o sonho de cada defunto. Sim, aquele pessoal da foto não existe mais. O que existem são réplicas mais velhas.  À noite, na cama, é o melhor lugar para você sublinhar o que se passou.

Eu me odiaria pra sempre se não tivesse fotografado esse momento aí de cima. Não se repetirá. Pensar nisso seria quase desesperador se não fosse a esperança de que outras coisas boas também continuarão a acontecer. Claro que acontecerão! Se você souber com certeza que nada de legal voltará a contecer pra mim, pode me dar um tiro.  Hehehe - brincadeirinha! Largue essa arma! Não confio em seu julgamente.

Pois é: ainda que façamos outra festa semelhante, é absolutamente improvavel que as mesmas pessoas compareçam. Não, não comparecerão. Em primeiro lugar porque é como eu já disse: todos esses daí já não são mais. Ficaram mais velhos e tudo o que temos hoje é uma cópia razoável do que já foram. Tem gente até que já mudou o penteado! Uns emagreceram, outros engordaram...   Mesmo que eles não fossem apenas réplicas gastas de si mesmos eu garanto: juntar essa galera de novo não é impossível mas é complicado.

Não dói pensar nisso? Dói sim.  Mas ha, não quero esquentar a cabeça com isso hoje.

Se não quero  esquentar a cabeça com isso hoje, porque estou postando esse texto? Muito simples: porque esquentei a cabeça com isso ontem, quando redigi  esse texto. Ontem esquentei a cabeça - hoje a refresquei. O texto está no ar porque quero agora esquentar a SUA cabeça.

Calma, calma! A vida se renova. Que venha o novo dia carregando seu cesto de cores e odores. Venham novos dias! Amanhã posso estar mais magra, com a pele mais tratada, com novos amigos, com menos fraquezas, com mais leitores...   Espero pelo amanhã. Mas quero vivê-lo consciente de que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.

(Admito: essa frase é manjada pra caramba! Mas quebrou o maior galho como finalização de texto.)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Inesquecível

Juntando com outras coisas, essa música foi o ápice e rebentou meu coração de criança aos 8 anos de idade. Fiquei profundamente tocada, com muita vontade e vergonha de chorar.

Parecia que eu estava vendo Jesus Cristo ali na minha frente, de braços estendidos esperando para me abraçar, para me receber. Era apenas ele e eu e mais ninguém. É sempre assim: de cara com Jesus a solidão é total e o universo cai fora.

Ele me amava, me amava muito, muito mesmo e isso me comovia imensamente porque por mais que eu ouvisse a respeito, sentir é muito diferente. Ele me dizia com os olhos que me amava, amava muito e me queria para si. Ele me olhava nos olhos. Eu não o via, claro, mas o percebia claramente.

Foi um lance muito forte e inesquecível. Caramba, e a preleção nem era dirigida à minha faixa etária! Mas... mas eu não resisti a tanto amor. De alguma forma eu sabia, eu sabia de forma até perturbadora que ele estava ali, ali, ali na frente, sorrindo com os olhos - difícil de explicar - e dirigindo a mim uma aceitação tão plena e sem questionamentos que desarmaria qualquer Rambo. E naquela noite, pela primeira vez ele não era uma icógnita mas uma pessoa, o Deus de que eu tanto ouvia falar e que me encharcava agora de amor. Estranho. Na teoria não é assim, tão emocionante.

Eu queia correr e beijar seus pés mas claro, seria delírio pois era um lance mental/espiritual; não o enxergava de fato. Ele perguntava (dentro de minha mente) se eu ficaria impassível; como responderia ao seu amor? "Morri na cruz por ti; que fazes tu por mim?" Não, não falava em serviço, falava em amor correspondido. "Cristina, você vai ficar aí parada ou vai me abraçar? Vai se entregar a mim? Você me ama também? Meu amor te comove? Eu te amo muito! Você é especial para mim, Cristina! Vou cuidar de você para sempre, para sempre! Eu sou teu Deus e teu Pai, Jesus de Nazaré."

E ele estava ali, parecia-me, ao lado direito do pastor que, a essas alturas, eu nem sabia mais o que favala. Jesus esperava a resposta do meu coração. Esperava que eu lhe devolvesse o sorriso, lhe dissesse sim com o meu coração, que me deixase abraçar e ser recebida por ele. Sim, sim sim! Claro que fiz isso!

Não lembrei mais de nada, não vi mais ninguem ao meu lado, não sei informar o tema da pregação. Só lembro desta música que cantaram.

Quer dizer que todas aquelas lições que a gente aprende na Escola Bíblica... Claro que são verdadeiras mas... Meu Deus, isso é muito mais! Ele é vivo, transborda de amor e faz contato! Isso transcende a qualquer teoria! Que loucura!

(Só os "loucos" entrarão no reino dos céus..." rsrsrsr)


domingo, 15 de novembro de 2009

Sem palavras...


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Acredite se quiser

Deparei-me com essa gravura e parei. Como adivinharam? Muita coincidência!

Cara! Tive que rir. Rir de mim mesma e meu passado atarantado. Bateu assim um misto de saudade, e ternura cômica. E agradável sentimento de dever cumprido.

Acreditem se quiserem mas passei exatamente por isso que vocês estão vendo. Tem quem ache que tenho cara de dondoca mas as coisas SÃO SÃO BEM ASSIM! Dentro de mim jaz uma doméstica e babá.

Pois sim, vivi uma cena praticamente idêntica muitos anos (confesso) atrás. As únicas diferenças: nas mãos, além do bebê e da colher de pau, eu não equilibrava uma vassoura, mas um guarda-chuvas. Isso mesmo: um guarda-chuvas.

Era manhã, eu estava no maior sufôco preparando o almoço, o bebê (não lembro qual dos quatro) não parava de chorar e a comida tinha que ficar pronta, custasse o que custasse, para o marido que vinha do trabalho e tinha hora pra retornar. Chovia copiosamente e havia uma bendita goteira justamente perto do fogão, onde eu segurava meu lindo bebezinho. Não podia deixá-lo aos berros pois ele estava com fome (queria peito). O que fazer? Segurei o guarda-chuvas com o mesmo braço com que carregava o chorãozinho e com a outra mão mexia a panela.

Cena antológica. A outra diferença em relação à gravura é que eu era novinha, gatinha, tudo no lugar. Não estava acabadona como essa senhora aí, viu!

Gostoso lembrar. (Gente, como é que deu tudo certo?)
Valeu a luta. Valeu TUDO.

Obrigada Deus!

terça-feira, 2 de junho de 2009

Nada fácil


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Bom, mas bom mesmo...


O que é bom, mas bom mesmo pra você?

A resposta depende muito do dia. Hoje por exemplo estou achando que bom, mas bom mesmo é ser moleque, mas desses moleques bem jogados mesmo, "dos tempos de antigamente".

Sabe aqueles que iam para a escola, faziam o dever de casa e estavam livres para sempre? Pois é. Ô vidão! Colocavam um shorte e iam jogar bolinha de gude, soltar pipa, ajeitar o carrinho de rolimã... emporcalhar-se a tarde toda, em suma.

Obviamente nunca fiz nada disso porque nasci menina... Tinha inveja dos meninos mas eu dava meu jeito lendo contos de fadas, brincando com bonecas, viajando na maionese da minha Second Life mental.

Mas bom mesmo era ser moleque, sempre tive certeza disso. Até os pés cortados tinham seu charme e história pois falavam de algo do qual eu jamais seria chamada a participar. Os meninos voltavam suados e horríveis pra casa, com o joelho esfolado. Disso eu não tinha inveja porque não ficaria bem na hora de cruzar minhas perninhas finas.

Hoje em dia não se tem mais "moleque de família". O que se vê é criança de rua ou menino estressadinho. Vão para a escola e voltam incumbidos de trabalhos escolares rocambolescos que infernizam, quer dizer, envolvem a família toda. Depois tem o judô, o inglês, as aulas reforço e o raio que o parta.

Seja lá o que for que os moleques da foto estão fazendo, e de onde estão descendo, é certo que são uns privilegiados. A cena é rara e para poucos. Conheço poucos (na verdade, nenhum...) lugares de onde se possa descer assim. Deve ser tão, mas tão, mas tão divertido que é terminantemente proibido para crianças de boa família.

Aliás o que é "boa família" mesmo???

Digo a vocês, não sem um certo desgosto, que nunca fui moleque nem moleca. Fiquei no meio: fui meleca. Daí a inveja dos meninos da foto.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

The Sound of Music


Outro ponto fraco:

Toda a santa vez que assisto A Noviça Rebelde eu choro. Assim, de pingar mesmo. Nem drama é. Mas acho que esse fenômeno tem uma explicação.

"The Sound of Music" (o verdadeiro nome) foi o primeiro filme que assisti no cinema e também o único com meu pai. Não muito tempo depois ele morreu. Acabou virando a trilha sonora do meu amor por ele.

Meu pai, que falava inglês, se apaixonou pela trilha sonora do filme e pela poesia que havia nas músicas. Comprou então o "disco" (vinil) que tocava na "vitrola" dia e noite. Nós ouvíamos o tempo inteiro sem enjoar. Adorávamos.

Sabe o lance da família feliz propaganda de margarina? Pois era assim.

Pra mim tudo é comovente no filme, a começar da abertura: belíssima. A fotografia é de tirar o fôlego. Quando você já está babando aparece a Julie Andrews na sua melhor forma, viçosa como uma flor do campo cantando ... Tão cheia de vida, tão deslumbrada com aquela exuberância toda ao seu redor , ofegante, os olhos brilhantes e um sorriso lindo como se tivesse descoberto o mundo naquela hora. Ela consegue passar isso para gente. Já começo a lagrimar aí.

Não sei separar o que é de fato belo e o que está enviesado em minhas lembranças familiares. Isso é um novelo que não me interessa desenrolar. Só sei que tenho o CD e o DVD. Vez por outra coloco aqui em casa escondido de todo mundo e me debulho em lábrimas sozinha, só pra não perder o jeito.

Sabe, meu sonho de menina era casar como casou Maria. Queria um vestido igualzinho ao dela. Queria que a música de entrada no meu casamento fosse a mesma. Desejei ardentemente isso. Com o tempo descobri que sou tendente a desejar algumas coisas nestes termos: ardentemente. Não é bom, mas é 100% Cristina.

Bem, sonhos são sonhos... Foi tudo tão diferente! O vestido era até emprestado. Mas eu estava realmente feliz.

Talvez tenha sido a partir da cena da entrada de Maria na igreja que eu tenha me apaixonado por órgãos de tubos. Sempre me emociono quando ouço um instrumento desse ao vivo. Eles tem um som poderoso, grandiloquente. Parece que entra na alma da gente, aí vamos ficando transparentes como a música e com a mesma capacidade de nos elevarmos acima do chão. Sei lá, algo assim. Sou piradinha mesmo. E é como se só existisse música, nuvens e anjinhos barrocos no mundo.

Nunca saberei ao certo se este filme é tudo isso que eu estou falando ou se isso é apenas o subproduto de uns neurônios do passado, perdidos no tempo e no espaço, desorientados coitados! que meio zonzos vieram se refugiar na gaveta errada da memória.

Pode ser que o que percebo do filme esteja só em minha cabeça, impregnada pelas impressões antigas de uma infância musical e tranquila, com irmãos, pai e mãe e cheiro de sopa vindo da cozinha.

Eu até queria que você assistisse só pra me dizer onde termina o filme e começa a Cristina.

Veja aqui mais detalhes e fotos. Vale a pena.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

MEMÓRIAS - 01

Desde cedo os homens contavam com a minha incansável admiração. A figura masculina sempre mexeu muito comigo - no sentido mais inocente do termo.

Desde pequena eu já professava algumas idéias feministas. As pessoas sabiam disso e provocavam meus discursos: sim, homem e mulher tem direitos iguais e devem ser igualmente respeitados. Mas ao mesmo tempo que dizia isso com muita convicção, enxergava os homens como seres especiais; muito, mas muito mais fascinante do que as aguadas mulheres.

Caramba! Eu já era contraditória desde então!

Por mais que as mulheres fossem sempre simpáticas comigo (colegas, amigas da mamãe, tias...) e me tratassem com sorrisos, atenção, presentes e carinhos, tudo o que elas provocavam em mim era uma certa irritação. A minha vontade era dizer-lhes: "Não me toquem pelo amor de Deus!" Mas não dizia, cláro. Ficava só calada e muito séria, olhando meio “de banda”.
A verdade é que as mulheres nunca me despertaram nem um décimo da empolgação que um simples sorriso masculino provocava. Para mim as coisas mais lindas do mundo eram a voz e o sorriso masculino. E os músculos, sem dúvida. E tudo o mais.

Dos afagos femininos eu pensava: “coisa mais sem graça!” Já para os homens não: eu abria um enorme sorriso, me derretia toda, ficava por perto, torcia para que me dessem atenção e que me colocassem no colo. Ah, tão simpáticos os amigos do papai!

Em minhas análises eu olhava para meu pai, primos, irmãos, amigos da família, vizinhos... e depois os comparava com as mulheres. Concluía então que eles eram muito mais interessantes, fortes, desejáveis, bonitos e agradáveis do que as mulheres. Não precisavam de artifício algum, bastava que existissem.

Então imaginava como seria maravilhoso se uma voz grossa e aveludada um dia dissesse, bem no pé do meu ouvido, que eu era linda, que me amava e queria casar comigo - igual nos contos de fada. Ah... Eu suspirava!

Ter um homem com certeza seria a glória. Um dia eu haveria de ter um só pra mim! Não o dividiria com ninguém.

Detalhe: eu não contava ainda nem dez anos de idade. Não sabia absolutamente nada sobre sexo. A questão é: para que cargas d´água será eu queria um homem?

Acho que era só para ficar olhando, olhando, olhando...
Cristina Faraon

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Insônia do bem


Estava tudo combinado: Rita e eu sairíamos para colocar as fofocas em dia. Essa semana teria que dar certo de qualquer jeito, uma vez que ela vai viajar de férias.


Ela telefonou ontem a tarde dizendo que no final do dia podéríamos nos encontrar para o happy hour.


Tudo certo. Certíssimo.


Aí a Sandra ligou perguntando o que eu iria fazer a noite. Expliquei e ela disse que talvez aparecesse. Tudo bem, seríamos três.


Fui buscar a Rita no trabalho dela. Quando estava estacionando o carro no "Boteco da Computer" observei pelo vidro que o Victor estava lá. Coincidência... Deveria estar com a namorada. Aí quando fui entrando encontrei com o Nelson. Cúmulo da coincidência. Bem, não seria mais uma noite de conversar femininas mas seria uma noite legal.


Subi as escadas e deparei-me com um monte de amigos e parentes com as mesas "juntadas". Perguntei para a Rita que raios aquele povo todo estava fazendo ali. Estranho, né?


Não, não era meu aniversário.


Foi aí que a Rita, perdendo a paciência, me puxou pelo braço e obrigou-me a ler um banner onde estava escrito que aquela era a noite de lançamento do livro Rio Coragem - de minha autoria! Oh!


Devo ter ficado alguns segundos com cara de "oh!" Tomara que não tenham filmado.


Então depois de alguns segundo, nos quais meus neurônios pararam de dar de encontro uns nos outros e tomaram suas formações costumeiras ela me fez vez as outras pessoas convidadas, entre elas o amigo Marcos Quinan, escritor e compositor que me deu a maior força no livro.


Fiquei tão feliz que pulei no pescoço dele e o abracei efusivamente. Tomara que o povo tenha entendido que aquele era um momento especialíssimo e eu estava abobalhada de alegria e surpresa.


Abracei meio mundo de gente, beijei, ri, tirei fotos, autografei...


Isso mesmo. O livro era um lançamento virtual mas me fizeram a surpresa de mandar imprimir e encadernar vários exemplares, o que tornou possivel os autógrafos. Os exemplares esgotaram-se, felizmente. Se forem feitos mais, já poderei chamar de "segunda edição". Uau!


Foi maravilhoso. Recitaram meus poemas e o amigo e músico Eduardo Dias - agora parceiro - musicou um deles e apresentou no evento. O Marcos Quinan também musicou um poema meu, mas não foi apresentado na ocasião. Aguardem!


Voltando para casa não consegui dormir. Rolei muito tempo na cama. Foi quando entendi que meus neurônios resolveram fazer serão porque receberam muito serviço extra e não queriam deixar nada para o dia seguinte.


Pensamentos, lembranças, poesias e textos pululavam em minha mente.


Feliz insônia.
Brigadaê, galera!

sábado, 23 de junho de 2007

Junho de 83

Não pensei que aquela sensação fosse possível. Não se limitavam a meras lembranças não. Foram sentimentos intensos, como se de fato eu tivesse retrocedido anos.

Na verdade jamais cheguei a desejar, como outras pessoas, ser novamente criança. Essa vontade nunca tive por diversas razões. Só que quando entrei naquela sala tudo me emocionou.

Lá não havia nada que pudesse ser considerado bonito: era uma sala de madeira com a pintura gasta. O chão igualmente rústico. A mesa da professora era improvisada por outras duas mesinhas menores juntas, cheias de livros. Um ventilador de teto, cadeiras de fórmica azul claro com braço para escrita e o mais interessante: na sala toda um cheiro inexplicável de criança. Exatamente isso.

O cheiro foi o que mais me impressionou e emocionou também. Não me refiro a colônia com cheirinho de bebê. Era muito mais que isso: cheiro de inocência, de gente limpa do pó do tempo, de vida explodindo, de sorriso sincero, de flor abrindo, de dia amanhecendo, capim fresco, pão quentinho, gotinhas de suor na testa macia; cheiro de gente que não partilha da podridão do mundo. Era O Perfume, O Cheiro.

Não sei como essas criaturinhas engraçadas e acesas conseguem deixar rastros tão profundos por onde passam. Foi então que lembrei nitidamente do que fui e não sei como ou quando deixei de ser. Até aquela data eu ainda não havia notado o tempo passar. Estava distraída demais com meus afazeres. Ainda não havia incorporado esse costume de olhar vez por outra no retrovisor da vida.

Naquele dia me assustei. Não com um novo sentimento, mas em perceber o quanto havia mudado a minha maneira de enxergar tudo ao meu redor. Em qual momento fatídico aquele “espírito de criança” caiu fora? Como consegui afugentá-lo? Só sei que por alguns instantes “ele” voltou. Pude sentir! Não precisei fechar os olhos.

Acho que ninguém ali notou o momento mágico em que novamente fui tomada. Pelo que? Fui tomada. Senti de novo aqueles sopros do passado: o esmero em arrumar o material na pasta, a alegria do uniforme novo, a impaciência para que chegasse logo a hora de ir ao colégio, os passos largos de manhãzinha, o prazer de sentir o cheirinho dos livros e cadernos novos recém-encapados. Deu até vontade de chorar. Inesparada viagem!

Outras lembranças doídas também vieram, assim como o vento traz a poeira. Lembrei da insegurança, da timidez, da sensação de não ser aceita. Lembrei de que era desajeitada e feia mas não sofri. Cenas e cenas saltavam em minha mente como se estivessem séculos espremidas no túmulo e de repente agarrassem uma chance única de voltar à vida para serem sentidas novamente. Vi os primeiros sinais da subserviência masculina diante da beleza feminina - as meninas bonitas, os meninos iniciantes... Tudo passageiro, frágil e repetido.

Disso tudo lembrei e senti um grande carinho, de mãe para filha, por aquela menina que fui: sensível, insegura e sonhadora.

Estranhamente tive a impressão de que aquela era a minha sala de aula, aqueles bonecos e letras sorridentes estavam ali para mim. Senti muita vontade de chorar, um nó na garganta, mas ninguém entenderia essa atitude ali, numa reunião de pais e mestres. Emoção estranha, difícil de compartilhar.

Voltei a mim, vim para casa com minha enorme barriga de grávida. Pela primeira vez na vida tive saudade da minha infância.