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quinta-feira, 5 de maio de 2011

O mais lindo poema sobre a maternidade

Deliciem-se com Augusto dos Anjos:


Mater


Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!

E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
— Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —

Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuít de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer, há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias...
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!






VOCABULÁRIO:

Sparta – Esparta (cidade da Grécia antiga).
Biscuít – Porcelana fina.
Venusto – Muito formoso.
Gêmulas – Pequenas gemas (aquilo que, brotando, pode originar novo indivíduo).
Pomas – Aqui, seios, mamas.
Sicômoros – Falsos-plátanos (árvore de folhas grandes que pode alcançar até 30 metros de altura). 


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pablo Neruda

(Hoje estou com Neruda na veia)

"Oh maligna, já terás achado a carta, já terás chorado de fúria / e terás insultado a memória de minha mãe, / chamando-a de cadela suja e mãe de cachorros, / já terás tomado sozinha, solitária, o chá do entardecer / a espiar os meus velhos sapatos vazios para sempre (...)
Maligna, em verdade, que noite tão grande, que terra tão só! / Cheguei mais uma vez aos dormitórios solitários, / a almoçar comida fria nos restaurantes, e uma vez ainda / atiro no chão as calças e as camisas, / não há cabides no meu quarto, nem retrato de ninguém nas paredes. / Quanta sombra da que existe em minha alma não daria para recobrar-te, / e que ameaçadores me parecem os nomes dos meses, / e a palavra inverno tem um som de tambor lúgubre."


quinta-feira, 24 de março de 2011

À boca do poeta

Hoje não quero nada meu
Quero tudo emprestado

Quero o desfalecimento dos amantes
As letras do Vinícius
A voz profunda, a rouquidão
Os cabelos longos como trilhos
E pesados
E que vão...

Quero a leveza da bailarina
Quando se lança lânguida
E falarei pela boca de um poeta
Melhor que eu
E destemido como o príncipe dos contos.

Quero a doçura da criança
Quando ela pede o impossível
E tanto se empenha
Em um desejo sem esperança

Abro mão dos meus arabescos
E letras e rimas
Porque não quero nada meu
Quero ver-me no outro
Pela boca do outro
Pelo brilho dos seus dentes
Respiraçao e palavras.

Meu querido poeta
Abre a tua boca em divinhações
E mostra a verdade comum de todos os homens.

Se tens olhos úmidos
E palavras exatas
Se tens um soluço livre como gaivota
E tens pés ligeiros
E a loucura necessária
E se não exitas, tens beijos trêmulos
E se sabes tocar,
Empresta-mos
Por hoje


Cristina Faraon

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sinais











Vejo você bem longe
Do outro lado do rio
Não claramente
Não quero falar-te mas quero contato
Envio-te sinais veementes e secretos

Envio-te meus mais intensos pensamentos
Doloridas saudades
Coisas pulsantes e sem nome
Aflições sufocadas
Não percebes?

Mando-te gaviões e gaivotas
E escuros pássaros mudos
Mas eles não te encontram
Não te tocam
Não se chocam contra teu peito quente

Mando-te sinais veementes
Que chegariam a Andrômeda
Que chegariam a Deus!
Que Ele me valha
Enquanto sangro

A água corre muda e funda
E forma  redemoinhos contorcidos

Distância é a mais certeira definição de morte
Mas ela será vencida
Quando também eu atravessar
Numa embarcação branca de ossos
Que preparo com desvelo

Toda distância é morte
Todo rio será vencido.

Concentro-me
E envio-te corvos
E pensamentos vermelhos
Sentimentos emaranhados
E dores de filha
Mas não me olhas, não dás sinal!
Então corto meus pés e os lanço
Em desespero mando também joelhos e pernas
Na esperança de que te achem
Que me vejas neles
Que te lembres!

Pois vai também a cabeça
Que cai pesada, some
E ressurge resoluta e encharcada
Minutos... horas...
Aí vão meus olhos
Que flutuam pasmos
Sem ter onde agarrar
Dou-te tufos de cabelos
Muito unidos e emaranhados

Ninhos meus
Nascedouros de medos e amores
Jogo-te minhas unhas cravadas nas vísceras
Que te pasmarão
Que te agredirão pela sua feiúra
Elas percorrem a correnteza em dores
Deixando um rastro, um véu,
Um cheiro.

Mando-te mãos e cérebro
- Que tudo se perca!
E o punhal com que me decepei vai junto
Seja ele a testemunha da intensidade
De tudo isso que não vês.

O rio arrasta seu véu
Como uma noiva em transe
Meus sinais são buquê
Eu fico
Não sigo
Irei mais tarde
Quando não aguentar mais

Agora acompanho com os olhos
Apreensiva
Esse estranha procissão
E a coleta que farás.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Vale das sombras


Dá-me tua mão Senhor, porque é chegada a minha hora
E sinto que me esvai, como sangramento, o que ainda me tornaria reconhecível
Mas mesmo assim, mais leve que um pensamento,
Meus pés marcam a estrada
Faz frio.

Certamente tudo é incerto
Exceto um futuro inevitável que me espreita
Estou em um lugar para onde não me dirigiSinto cheiro de gente

Isso aumenta minha solidão
Pois não há ninguém.

Parar é insano
Sinto-me impelida  para a frente
Há uma convicção de ir, mas não entendo
Nem vejo, nem sei o que esperar.

Dá-me tua mão, Senhor
Pois os meus... já se foram
Desvaneceram os afagos
Doem-me os rins.

Mas talvez clareie o dia
E explenda uma manhã inesperada
Uma manhã que já existe mas aguarda por mim - quem sabe!
Encoberta e sorridente
Como uma surpresa de aniversário.

Dá-me tua mão, Senhor
Até que a manhã me resgate

Penso agora
Que essa manhã talvez não exista
Ou demore-se...
Ou, sendo breve demais
Não espante o frio.
Mas quem sabe a tarde, que já foi cinza,
Mostre sua cara azul e muda
Como o centro das rochas


Dá-me a tua mão, pois perdi a idade

E a ninguém possuo
O vento me é contrário
Então confundo-me.

Tão solitário é viajar sem as bagagens
Sem álbuns ou relíquias
Sem uma partitura sequer para decifrar

É solitário emergir da própria história
Para a dura isenção da verdade.

Aconchego-me em mim mesma
Dá-me tua mão, Senhor
E que a paz me socorra
Dos poros da terra.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sigo!


Ao passado não voltar
Outra canção pra compor
Sem bebês para cuidar
Sem chorar nenhum amor.

Sigo!

Abrindo caminho a facão
Inventando valentia
Com Deus me estendendo a mão
...e um balde de água fria

Sem bagagem volumosa
Sem apego ao meu jardim
Sem uma poção milagrosa
Que me alivie de mim
Sem ter neura, sem ter peso,
Sem precisarem de mim

Sigo só olhando em frente
Pois atrás... deu no que deu
E nem tinha tanta gente
Torcendo no Coliseu!

Passos largos na ladeira
Lembranças embaralhadas
Umas fotos na algibeira
Uns bons sonhos na largada

Sigo em busca.. de quê mesmo?
O bom mesmo é a surpresa!
Mas não estou andando a esmo:
Sigo Aquela Luz acesa.

Amo você docemente
E me amo pra valer
Poesia comovente?
Enjoei de cometer.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Cheeeeeegaaaaa!

Não quero mais saber!
Não quero mais saber!
Não quero mais falar de política
Cansei
É todo dia uma má história
É toda hora uma má decisão
Uma "nova compreensão do Direito"
Uma arma na cabeça
Uma canetada no coração
Um jornalista amordaçado
Um escândalo que não escandaliza
Um Judiciário suspeito
Compra e venda
Prostituição
O tempo todo um direito pendurado
Quase caindo
Uma mentira, uma calúnia
Boca de urna
Boca no inferno
ABDUZAM-ME!
Deve haver uma zona neutra nesse mudo
Para refúgio das almas aflitas
Se eu puder fazer alguma coisa
Além de votar debalde
Avisem-me por favor
Se eu não posso fazer nada
Mas você pode
Conte comigo
Mas se não há ninguém
Se não há um líder
Se está tudo dominado
Por favor deixem-me em paz

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O quê basta?


"E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida..."

(Álvaro de Campos)

domingo, 26 de setembro de 2010

MARIELZA TISCATE

Caramba, amiga! Pare com isso! Assim você nos tira o sono. Alguns "se" são assustadores.

MARIELZA TISCATE

“Se”

E se acabar o dia, a noite, o riso,
O prazer, a luz,
Estrelas
Amigos, estradas?

Se acabar a paz,
A luta, o beijo
O sono, o sonho
A flor, o vinho
Se acabar o fim e o meio?

Se o relógio parar
Se o tempo sumir
O espaço seguir
Para o nada?

Se tudo isso não for
O que eu pensava
Se o contrário for a regra
Minha idéia um gracejo
Se a memória me trair
Na hora da virada?


Enquanto não for lá ver
Todo “se” é nada
Nada faz sentido se estou parada
Não toco a pele dos momentos
Não bebo o cálice das horas
A água, o sangue
Gemidos, suspiros e gritos

Se me nego o suor
E não entro no vulcão
Meus dias serão “se”
E a resposta será “não”

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Alphonsus de Guimarães

Fosse uma chama, crepitaria
sob meus dedos, na solidão.
Nada mais quero, nada queria.
As noites chegam, os dias vão.

Fosse uma chama, breve arderia,
brasa de sonho, na escuridão.
Já nada quero da luz do dia...
Queima uma estrela na minha mão.

Mas nada quero da luz da estrela...
(Chegam as noites, os dias vão.)
Por que sonhá-la, se vais perdê-la,
alma perdida na solidão?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Trova Minha

Ainda estou atônita cercada de relíquias
De coisas que eram vivas mas vão fossilizando
São tristes como... o quê?  Lembranças são orquídeas
Que mesmo sem querer a gente vai pisando.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Transgressão

Levantei da cama cedo
Como se ouvise algum som
Olhei para o dia com medo
Mas fingi que ia ser bom
Tomei o café da manhã
Como se preferisse adoçante
Almocei uma maçã
Pensando em ficar elegante

Comi alface sem graça
Rejeitei bacon crocante
Sorri de mentira na praça
Com o coração soluçante

Parecia um sonho maluco
Onde nada combinava
Tomei um copo de suco
Para ver se aliviava
E veio uma pressão no peito
Que nem o suco deu jeito.

Abracei quem me abriu os braços
Pois deles não pude fugir
Mas perdi os doces laços
De quem nunca mais pôde vir
Ajudei quem não amava
Fingi alegria na festa
No enterro, na mente cantava
Modinha nada funesta
Dei atenção mentirosa
A assunto sem sabor
E calei teimosamente
Às coisas que falam de dor

Senti uma pressão no peito
Por tanta contrariedade
Mas disse: "Isso não tem jeito!
Vivemos em sociedade!"

Odiei o calor do sol
E a chuva me pegou
Pensei: deve ser pecado
Reclamar do que Deus criou
Desejei o que não sei explicar
Expliquei o que nunca entendi
Cansei de me pôr a pensar
Nas incoerências daqui,
Desse mundo desbotado

E suas histórias singelas
Com capítulos misturados
E ideais que a gente anela.


Parecia um sonho maluco
Onde nada combinava
Tomei um copo de pinga
Para ver se aliviava
Mas veio a pressão no peito
Que nem pinga aliviava.

Não sei mais a diferença
Entre ser sincera e ou má
Fingi ter então uma crença
Pra minha alma acarinhar:
Ocupar-se com o alheio
É uma coisa elevada
E não tem nada mais feio
Que uma alma isolada.

Então...
Fingi que não fui atingida
Pelo tempo tão tenaz
Nem com a falsidade tingida
Com as cores do Satanás
Deixei de perguntar
Por aqueles que eu amava
Mas exclamei "como vai?"
A quem nem me interessava

Mas senti pressão no peito
Quando olhei a tarde fria
E admiti pra mim mesma
Que nada disso eu queria.

Corri sem querer chegar
Levantei fora de hora
Fui salva pela transgressão
Daquela última hora:
De tanto pensar deitada
Nas coisas que faria de pé
Caí de noso, cansada,
Pensando em como a vida é
E sonhei sonho tão louco 
Tão cheio de transgressão
Com desaforos, com soco
Em quem merecia prisão
Vivi amores malucos
Todos bem correspondidos
Havia romances e coitos
Que não eram interrompidos

Um sonho sincero e humano!
Lavei minha alma dormindo
Me apeguei àquele momento
De magia, e muito lindo

 
Sonho louco e transgressor
Com liberdade total
De consertar o mundo
E acabar com todo o mal
E rejeitar programa chato
De caráter social.
Quis dormir mais umas horas
Pra curtir aqueles fatos
E voltar a ser senhora
Em sociedade de ratos

Acordei aliviada
Pois sonhei tudo o que quis
Me senti até cansada
Mas bem que eu queria um bis
E tão sinceros eram os sonhos
Que nem posso te contar
No que daria esse mundo
Se os pudesse executar.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

GUIMARÃES ROSA - O SONO DAS ÁGUAS

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão,
nos olhos d’água,
nos grotões fundos.

E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.

E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...

(Copiei do blog Abaribó)

sábado, 3 de julho de 2010

As Estâncias - Alphonsus de Guimarães


- O amor tem vozes misteriosas
No coração implume...
- Como são cheirosas as primeiras rosas,
E os primeiros beijos como têm perfume!

- O amor tem prantos de abandono
No coração que morre...
- As folhas tombam quando vem o outono,
E ninguém as socorre!


- O amor tem noites, noites inteiras,
De agonias e de letargos...
- Que tristeza têm as rosas derradeiras,
E os últimos beijos como são amargos!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Equalize - Pitty

Legal a letra. Gostei. Grave aí a poesia.

(Composição: Peu Sousa / Pitty)

Às vezes se eu me distraio
Se eu não me vigio um instante
Me transporto pra perto de você
Já vi que não posso ficar tão solta
Me vem logo aquele cheiro
Que passa de você pra mim
Num fluxo perfeito

Enquanto você conversa e me beija
Ao mesmo tempo eu vejo
As suas cores no seu olho, tão de perto
Me balanço devagar
Como quando você me embala
O ritmo rola fácil
Parece que foi ensaiado

E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é
Eu vou equalizar você
Numa freqüência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Que fica me dizendo coisas tão malucas
E que quase me mata de rir
Quando tenta me convencer
Que eu só fiquei aqui
Porque nós dois somos iguais

Até parece que você já tinha
O meu manual de instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque quando você me abraça
O mundo gira devagar

E o tempo é só meu
E ninguém registra a cena
De repente vira um filme
Todo em câmera lenta
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é

Eu vou equalizar você
Numa freqüência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

sábado, 12 de junho de 2010

Se tiver um novo amor...

Se tiver um novo amor
Lave melhor os cabelos
Escove melhor os dentes
Não digas tudo o que sentes
Pra não arrepender depois.
Dê presentes bem mais caros
E "pitis" muito mais raros
Saia do feijão-com-arroz!

Se tiver um novo amor
Sorria com mais candura
Mate baratas com mais bravura
Beije o dedão dos pés
Faça tudo mais certinho
Brigue até com mais carinho
E largue os amigos manés

Seja melhor dessa vez
E enfrente com mais altivez
As conversas de cobrança
Tenha cerveja gelada
Carne-seca apimentada
Faça as pazes com a balança

Que o retrovisor da vida
Não te atormente por nada
Pois pior do que a ferida
É repetir a mancada

Vê se acerta dessa vez!
Esqueça seu lerdo passado
Porque Deus está do lado
De quem recomeça do zero
Beije mais vezes de língua
E que a raiva morra à míngua
- Largue de ser severo!

No verão, dá-lhe refresco
No inverno, o bom calor
Vê se acerta dessa vez:
Roupa nova e altivez!
Se tiver um novo amor.

Cristina Faraon

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tudo e Todos











Todo lugar é lindo quando se é livre
Todo lugar é perigoso quando se tem medo
Toda lembrança dói quando a alma adoeceu
Tudo parece possível quando a gente é jovem

Todo amor é o último quando é o primeiro
Todo amor é o primeiro quando é sincero
Todo ser vivo é bonito quando olhado de perto
Toda pessoa é feia quando vista sem amor

Nada é verdadeDizem os mestres
Mas tudo subsiste teimosamenet
E exige decifração
Porque não pode existir
Sem luz.

Cristina Faraon



segunda-feira, 19 de abril de 2010

INTERVALOS

Já não cabem mais declarações
Na verdade não cabe mais nada
Toda explicação é despropositada
Todo comentário é inconveniente
Não há mais que se falar
Em conserto ou em “será”
É estranho o ponto em que chegamos
No qual todos os comentários 
Caem como pedras no vidro

Dobramos  esquinas, cada um a sua
Rasgamos o tapete vermelho
Que nos levava a um destino comum
Mudamos a rota
Numa guinada mortal
Os anjos se escandalizaram
Com pureza desinformada
“- Absurdo dos absurdos!”
Que, no entanto, aconteceu...

... e continua acontecendo
A cada dia, a cada hora
Como goteira funesta
Que chora no fim da festa

Nosso afastamento
É progressivo e presente
Já que “passado”
É o que parou de acontecer.

Preferia que tivesses me deixado
Assim eu poderia, com propriedade
Perguntar “por quê?”

Perguntaria ao  céu, às aves,
Às feras e às crianças
Ninguém me responderia
Mas  entenderiam minha perplexidade
E eu ganharia abraços


Preferia que tivesses me deixado
Assim eu poderia imaginar motivos à noite
E ir dormindo  aos poucos, suavemente,
Enquanto tentasse desvendar
Nossa intrincada equação

Eu teria pena de mim mesma, ou ódio
Só para ter o prazer 
De perdoar-me  depois
E então levantar a cabeça
Totalmente consolada.

Será sempre uma anomalia
Uma dor, um suspiro,
A povoar os intervalos da minha felicidade
Quando a lembrança me assaltar
Levarei as mãos ao rosto
Em um ato involuntário
E perdoável

Então
Na pausa da felicidade
Farei reverente silêncio
Pra poder me recompor
E descobrir novamente
Que não há nada de novo
Debaixo do meu sol
Tudo são espumas...
Espumas de ondas passadas

“Durma em paz, alma minha!”

O passado
Não é uma árvore que ficou para trás
Na beira da estrada
Penso que seja uma ave  
Que nos acompanha grasnando
Desajeitadamente
As músicas que cantávamos.

sábado, 20 de março de 2010

Sambinha do amor que fica


SAMBINHA DO AMOR QUE FICA

O amor que fica
É mesmo o amor que fica
Porque o amor que vai
É frouxo laço
E abre espaço
Que nos distrai.

E nessa pausa
Estrago causa.
De nada vale
Uma afeição
Amargurada,
Entrecortada,
Na contramão?

E contra isso
Ninguém replica.
De que me serve
O intermitente?
Esse não quero
Só o que fica
Porque só esse
Cativa a gente.

No sol de fogo
Ou na garoa
O amor que fica
Longe não voa.

Disso me encanto!
Em seu cantil
Traz a poção
Traz o carinho
Que agrilhoa
- Que coisa boa!
Devagarzinho.

(Do livro Rio Coragem - Cristina Faraon)

segunda-feira, 8 de março de 2010

De Clarice Lispector

Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.

E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

O mais lindo poema sobre a maternidade

Deliciem-se com Augusto dos Anjos:


Mater


Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!

E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
— Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —

Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuít de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer, há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias...
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!






VOCABULÁRIO:

Sparta – Esparta (cidade da Grécia antiga).
Biscuít – Porcelana fina.
Venusto – Muito formoso.
Gêmulas – Pequenas gemas (aquilo que, brotando, pode originar novo indivíduo).
Pomas – Aqui, seios, mamas.
Sicômoros – Falsos-plátanos (árvore de folhas grandes que pode alcançar até 30 metros de altura). 


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pablo Neruda

(Hoje estou com Neruda na veia)

"Oh maligna, já terás achado a carta, já terás chorado de fúria / e terás insultado a memória de minha mãe, / chamando-a de cadela suja e mãe de cachorros, / já terás tomado sozinha, solitária, o chá do entardecer / a espiar os meus velhos sapatos vazios para sempre (...)
Maligna, em verdade, que noite tão grande, que terra tão só! / Cheguei mais uma vez aos dormitórios solitários, / a almoçar comida fria nos restaurantes, e uma vez ainda / atiro no chão as calças e as camisas, / não há cabides no meu quarto, nem retrato de ninguém nas paredes. / Quanta sombra da que existe em minha alma não daria para recobrar-te, / e que ameaçadores me parecem os nomes dos meses, / e a palavra inverno tem um som de tambor lúgubre."


quinta-feira, 24 de março de 2011

À boca do poeta

Hoje não quero nada meu
Quero tudo emprestado

Quero o desfalecimento dos amantes
As letras do Vinícius
A voz profunda, a rouquidão
Os cabelos longos como trilhos
E pesados
E que vão...

Quero a leveza da bailarina
Quando se lança lânguida
E falarei pela boca de um poeta
Melhor que eu
E destemido como o príncipe dos contos.

Quero a doçura da criança
Quando ela pede o impossível
E tanto se empenha
Em um desejo sem esperança

Abro mão dos meus arabescos
E letras e rimas
Porque não quero nada meu
Quero ver-me no outro
Pela boca do outro
Pelo brilho dos seus dentes
Respiraçao e palavras.

Meu querido poeta
Abre a tua boca em divinhações
E mostra a verdade comum de todos os homens.

Se tens olhos úmidos
E palavras exatas
Se tens um soluço livre como gaivota
E tens pés ligeiros
E a loucura necessária
E se não exitas, tens beijos trêmulos
E se sabes tocar,
Empresta-mos
Por hoje


Cristina Faraon

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sinais











Vejo você bem longe
Do outro lado do rio
Não claramente
Não quero falar-te mas quero contato
Envio-te sinais veementes e secretos

Envio-te meus mais intensos pensamentos
Doloridas saudades
Coisas pulsantes e sem nome
Aflições sufocadas
Não percebes?

Mando-te gaviões e gaivotas
E escuros pássaros mudos
Mas eles não te encontram
Não te tocam
Não se chocam contra teu peito quente

Mando-te sinais veementes
Que chegariam a Andrômeda
Que chegariam a Deus!
Que Ele me valha
Enquanto sangro

A água corre muda e funda
E forma  redemoinhos contorcidos

Distância é a mais certeira definição de morte
Mas ela será vencida
Quando também eu atravessar
Numa embarcação branca de ossos
Que preparo com desvelo

Toda distância é morte
Todo rio será vencido.

Concentro-me
E envio-te corvos
E pensamentos vermelhos
Sentimentos emaranhados
E dores de filha
Mas não me olhas, não dás sinal!
Então corto meus pés e os lanço
Em desespero mando também joelhos e pernas
Na esperança de que te achem
Que me vejas neles
Que te lembres!

Pois vai também a cabeça
Que cai pesada, some
E ressurge resoluta e encharcada
Minutos... horas...
Aí vão meus olhos
Que flutuam pasmos
Sem ter onde agarrar
Dou-te tufos de cabelos
Muito unidos e emaranhados

Ninhos meus
Nascedouros de medos e amores
Jogo-te minhas unhas cravadas nas vísceras
Que te pasmarão
Que te agredirão pela sua feiúra
Elas percorrem a correnteza em dores
Deixando um rastro, um véu,
Um cheiro.

Mando-te mãos e cérebro
- Que tudo se perca!
E o punhal com que me decepei vai junto
Seja ele a testemunha da intensidade
De tudo isso que não vês.

O rio arrasta seu véu
Como uma noiva em transe
Meus sinais são buquê
Eu fico
Não sigo
Irei mais tarde
Quando não aguentar mais

Agora acompanho com os olhos
Apreensiva
Esse estranha procissão
E a coleta que farás.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Vale das sombras


Dá-me tua mão Senhor, porque é chegada a minha hora
E sinto que me esvai, como sangramento, o que ainda me tornaria reconhecível
Mas mesmo assim, mais leve que um pensamento,
Meus pés marcam a estrada
Faz frio.

Certamente tudo é incerto
Exceto um futuro inevitável que me espreita
Estou em um lugar para onde não me dirigiSinto cheiro de gente

Isso aumenta minha solidão
Pois não há ninguém.

Parar é insano
Sinto-me impelida  para a frente
Há uma convicção de ir, mas não entendo
Nem vejo, nem sei o que esperar.

Dá-me tua mão, Senhor
Pois os meus... já se foram
Desvaneceram os afagos
Doem-me os rins.

Mas talvez clareie o dia
E explenda uma manhã inesperada
Uma manhã que já existe mas aguarda por mim - quem sabe!
Encoberta e sorridente
Como uma surpresa de aniversário.

Dá-me tua mão, Senhor
Até que a manhã me resgate

Penso agora
Que essa manhã talvez não exista
Ou demore-se...
Ou, sendo breve demais
Não espante o frio.
Mas quem sabe a tarde, que já foi cinza,
Mostre sua cara azul e muda
Como o centro das rochas


Dá-me a tua mão, pois perdi a idade

E a ninguém possuo
O vento me é contrário
Então confundo-me.

Tão solitário é viajar sem as bagagens
Sem álbuns ou relíquias
Sem uma partitura sequer para decifrar

É solitário emergir da própria história
Para a dura isenção da verdade.

Aconchego-me em mim mesma
Dá-me tua mão, Senhor
E que a paz me socorra
Dos poros da terra.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sigo!


Ao passado não voltar
Outra canção pra compor
Sem bebês para cuidar
Sem chorar nenhum amor.

Sigo!

Abrindo caminho a facão
Inventando valentia
Com Deus me estendendo a mão
...e um balde de água fria

Sem bagagem volumosa
Sem apego ao meu jardim
Sem uma poção milagrosa
Que me alivie de mim
Sem ter neura, sem ter peso,
Sem precisarem de mim

Sigo só olhando em frente
Pois atrás... deu no que deu
E nem tinha tanta gente
Torcendo no Coliseu!

Passos largos na ladeira
Lembranças embaralhadas
Umas fotos na algibeira
Uns bons sonhos na largada

Sigo em busca.. de quê mesmo?
O bom mesmo é a surpresa!
Mas não estou andando a esmo:
Sigo Aquela Luz acesa.

Amo você docemente
E me amo pra valer
Poesia comovente?
Enjoei de cometer.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Cheeeeeegaaaaa!

Não quero mais saber!
Não quero mais saber!
Não quero mais falar de política
Cansei
É todo dia uma má história
É toda hora uma má decisão
Uma "nova compreensão do Direito"
Uma arma na cabeça
Uma canetada no coração
Um jornalista amordaçado
Um escândalo que não escandaliza
Um Judiciário suspeito
Compra e venda
Prostituição
O tempo todo um direito pendurado
Quase caindo
Uma mentira, uma calúnia
Boca de urna
Boca no inferno
ABDUZAM-ME!
Deve haver uma zona neutra nesse mudo
Para refúgio das almas aflitas
Se eu puder fazer alguma coisa
Além de votar debalde
Avisem-me por favor
Se eu não posso fazer nada
Mas você pode
Conte comigo
Mas se não há ninguém
Se não há um líder
Se está tudo dominado
Por favor deixem-me em paz

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O quê basta?


"E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida..."

(Álvaro de Campos)

domingo, 26 de setembro de 2010

MARIELZA TISCATE

Caramba, amiga! Pare com isso! Assim você nos tira o sono. Alguns "se" são assustadores.

MARIELZA TISCATE

“Se”

E se acabar o dia, a noite, o riso,
O prazer, a luz,
Estrelas
Amigos, estradas?

Se acabar a paz,
A luta, o beijo
O sono, o sonho
A flor, o vinho
Se acabar o fim e o meio?

Se o relógio parar
Se o tempo sumir
O espaço seguir
Para o nada?

Se tudo isso não for
O que eu pensava
Se o contrário for a regra
Minha idéia um gracejo
Se a memória me trair
Na hora da virada?


Enquanto não for lá ver
Todo “se” é nada
Nada faz sentido se estou parada
Não toco a pele dos momentos
Não bebo o cálice das horas
A água, o sangue
Gemidos, suspiros e gritos

Se me nego o suor
E não entro no vulcão
Meus dias serão “se”
E a resposta será “não”

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Alphonsus de Guimarães

Fosse uma chama, crepitaria
sob meus dedos, na solidão.
Nada mais quero, nada queria.
As noites chegam, os dias vão.

Fosse uma chama, breve arderia,
brasa de sonho, na escuridão.
Já nada quero da luz do dia...
Queima uma estrela na minha mão.

Mas nada quero da luz da estrela...
(Chegam as noites, os dias vão.)
Por que sonhá-la, se vais perdê-la,
alma perdida na solidão?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Trova Minha

Ainda estou atônita cercada de relíquias
De coisas que eram vivas mas vão fossilizando
São tristes como... o quê?  Lembranças são orquídeas
Que mesmo sem querer a gente vai pisando.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Transgressão

Levantei da cama cedo
Como se ouvise algum som
Olhei para o dia com medo
Mas fingi que ia ser bom
Tomei o café da manhã
Como se preferisse adoçante
Almocei uma maçã
Pensando em ficar elegante

Comi alface sem graça
Rejeitei bacon crocante
Sorri de mentira na praça
Com o coração soluçante

Parecia um sonho maluco
Onde nada combinava
Tomei um copo de suco
Para ver se aliviava
E veio uma pressão no peito
Que nem o suco deu jeito.

Abracei quem me abriu os braços
Pois deles não pude fugir
Mas perdi os doces laços
De quem nunca mais pôde vir
Ajudei quem não amava
Fingi alegria na festa
No enterro, na mente cantava
Modinha nada funesta
Dei atenção mentirosa
A assunto sem sabor
E calei teimosamente
Às coisas que falam de dor

Senti uma pressão no peito
Por tanta contrariedade
Mas disse: "Isso não tem jeito!
Vivemos em sociedade!"

Odiei o calor do sol
E a chuva me pegou
Pensei: deve ser pecado
Reclamar do que Deus criou
Desejei o que não sei explicar
Expliquei o que nunca entendi
Cansei de me pôr a pensar
Nas incoerências daqui,
Desse mundo desbotado

E suas histórias singelas
Com capítulos misturados
E ideais que a gente anela.


Parecia um sonho maluco
Onde nada combinava
Tomei um copo de pinga
Para ver se aliviava
Mas veio a pressão no peito
Que nem pinga aliviava.

Não sei mais a diferença
Entre ser sincera e ou má
Fingi ter então uma crença
Pra minha alma acarinhar:
Ocupar-se com o alheio
É uma coisa elevada
E não tem nada mais feio
Que uma alma isolada.

Então...
Fingi que não fui atingida
Pelo tempo tão tenaz
Nem com a falsidade tingida
Com as cores do Satanás
Deixei de perguntar
Por aqueles que eu amava
Mas exclamei "como vai?"
A quem nem me interessava

Mas senti pressão no peito
Quando olhei a tarde fria
E admiti pra mim mesma
Que nada disso eu queria.

Corri sem querer chegar
Levantei fora de hora
Fui salva pela transgressão
Daquela última hora:
De tanto pensar deitada
Nas coisas que faria de pé
Caí de noso, cansada,
Pensando em como a vida é
E sonhei sonho tão louco 
Tão cheio de transgressão
Com desaforos, com soco
Em quem merecia prisão
Vivi amores malucos
Todos bem correspondidos
Havia romances e coitos
Que não eram interrompidos

Um sonho sincero e humano!
Lavei minha alma dormindo
Me apeguei àquele momento
De magia, e muito lindo

 
Sonho louco e transgressor
Com liberdade total
De consertar o mundo
E acabar com todo o mal
E rejeitar programa chato
De caráter social.
Quis dormir mais umas horas
Pra curtir aqueles fatos
E voltar a ser senhora
Em sociedade de ratos

Acordei aliviada
Pois sonhei tudo o que quis
Me senti até cansada
Mas bem que eu queria um bis
E tão sinceros eram os sonhos
Que nem posso te contar
No que daria esse mundo
Se os pudesse executar.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

GUIMARÃES ROSA - O SONO DAS ÁGUAS

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão,
nos olhos d’água,
nos grotões fundos.

E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.

E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...

(Copiei do blog Abaribó)

sábado, 3 de julho de 2010

As Estâncias - Alphonsus de Guimarães


- O amor tem vozes misteriosas
No coração implume...
- Como são cheirosas as primeiras rosas,
E os primeiros beijos como têm perfume!

- O amor tem prantos de abandono
No coração que morre...
- As folhas tombam quando vem o outono,
E ninguém as socorre!


- O amor tem noites, noites inteiras,
De agonias e de letargos...
- Que tristeza têm as rosas derradeiras,
E os últimos beijos como são amargos!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Equalize - Pitty

Legal a letra. Gostei. Grave aí a poesia.

(Composição: Peu Sousa / Pitty)

Às vezes se eu me distraio
Se eu não me vigio um instante
Me transporto pra perto de você
Já vi que não posso ficar tão solta
Me vem logo aquele cheiro
Que passa de você pra mim
Num fluxo perfeito

Enquanto você conversa e me beija
Ao mesmo tempo eu vejo
As suas cores no seu olho, tão de perto
Me balanço devagar
Como quando você me embala
O ritmo rola fácil
Parece que foi ensaiado

E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é
Eu vou equalizar você
Numa freqüência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Que fica me dizendo coisas tão malucas
E que quase me mata de rir
Quando tenta me convencer
Que eu só fiquei aqui
Porque nós dois somos iguais

Até parece que você já tinha
O meu manual de instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque quando você me abraça
O mundo gira devagar

E o tempo é só meu
E ninguém registra a cena
De repente vira um filme
Todo em câmera lenta
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é

Eu vou equalizar você
Numa freqüência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

sábado, 12 de junho de 2010

Se tiver um novo amor...

Se tiver um novo amor
Lave melhor os cabelos
Escove melhor os dentes
Não digas tudo o que sentes
Pra não arrepender depois.
Dê presentes bem mais caros
E "pitis" muito mais raros
Saia do feijão-com-arroz!

Se tiver um novo amor
Sorria com mais candura
Mate baratas com mais bravura
Beije o dedão dos pés
Faça tudo mais certinho
Brigue até com mais carinho
E largue os amigos manés

Seja melhor dessa vez
E enfrente com mais altivez
As conversas de cobrança
Tenha cerveja gelada
Carne-seca apimentada
Faça as pazes com a balança

Que o retrovisor da vida
Não te atormente por nada
Pois pior do que a ferida
É repetir a mancada

Vê se acerta dessa vez!
Esqueça seu lerdo passado
Porque Deus está do lado
De quem recomeça do zero
Beije mais vezes de língua
E que a raiva morra à míngua
- Largue de ser severo!

No verão, dá-lhe refresco
No inverno, o bom calor
Vê se acerta dessa vez:
Roupa nova e altivez!
Se tiver um novo amor.

Cristina Faraon

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tudo e Todos











Todo lugar é lindo quando se é livre
Todo lugar é perigoso quando se tem medo
Toda lembrança dói quando a alma adoeceu
Tudo parece possível quando a gente é jovem

Todo amor é o último quando é o primeiro
Todo amor é o primeiro quando é sincero
Todo ser vivo é bonito quando olhado de perto
Toda pessoa é feia quando vista sem amor

Nada é verdadeDizem os mestres
Mas tudo subsiste teimosamenet
E exige decifração
Porque não pode existir
Sem luz.

Cristina Faraon



segunda-feira, 19 de abril de 2010

INTERVALOS

Já não cabem mais declarações
Na verdade não cabe mais nada
Toda explicação é despropositada
Todo comentário é inconveniente
Não há mais que se falar
Em conserto ou em “será”
É estranho o ponto em que chegamos
No qual todos os comentários 
Caem como pedras no vidro

Dobramos  esquinas, cada um a sua
Rasgamos o tapete vermelho
Que nos levava a um destino comum
Mudamos a rota
Numa guinada mortal
Os anjos se escandalizaram
Com pureza desinformada
“- Absurdo dos absurdos!”
Que, no entanto, aconteceu...

... e continua acontecendo
A cada dia, a cada hora
Como goteira funesta
Que chora no fim da festa

Nosso afastamento
É progressivo e presente
Já que “passado”
É o que parou de acontecer.

Preferia que tivesses me deixado
Assim eu poderia, com propriedade
Perguntar “por quê?”

Perguntaria ao  céu, às aves,
Às feras e às crianças
Ninguém me responderia
Mas  entenderiam minha perplexidade
E eu ganharia abraços


Preferia que tivesses me deixado
Assim eu poderia imaginar motivos à noite
E ir dormindo  aos poucos, suavemente,
Enquanto tentasse desvendar
Nossa intrincada equação

Eu teria pena de mim mesma, ou ódio
Só para ter o prazer 
De perdoar-me  depois
E então levantar a cabeça
Totalmente consolada.

Será sempre uma anomalia
Uma dor, um suspiro,
A povoar os intervalos da minha felicidade
Quando a lembrança me assaltar
Levarei as mãos ao rosto
Em um ato involuntário
E perdoável

Então
Na pausa da felicidade
Farei reverente silêncio
Pra poder me recompor
E descobrir novamente
Que não há nada de novo
Debaixo do meu sol
Tudo são espumas...
Espumas de ondas passadas

“Durma em paz, alma minha!”

O passado
Não é uma árvore que ficou para trás
Na beira da estrada
Penso que seja uma ave  
Que nos acompanha grasnando
Desajeitadamente
As músicas que cantávamos.

sábado, 20 de março de 2010

Sambinha do amor que fica


SAMBINHA DO AMOR QUE FICA

O amor que fica
É mesmo o amor que fica
Porque o amor que vai
É frouxo laço
E abre espaço
Que nos distrai.

E nessa pausa
Estrago causa.
De nada vale
Uma afeição
Amargurada,
Entrecortada,
Na contramão?

E contra isso
Ninguém replica.
De que me serve
O intermitente?
Esse não quero
Só o que fica
Porque só esse
Cativa a gente.

No sol de fogo
Ou na garoa
O amor que fica
Longe não voa.

Disso me encanto!
Em seu cantil
Traz a poção
Traz o carinho
Que agrilhoa
- Que coisa boa!
Devagarzinho.

(Do livro Rio Coragem - Cristina Faraon)

segunda-feira, 8 de março de 2010

De Clarice Lispector

Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.

E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.