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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ele simplesmente não está a fim de você


Faz tempo que li esse livro. Eu estava de bobeira no aeroporto. Meu vôo ia demorar. Dei aquela passadinha básica na livraria e resolvi comprar "Ele simplesmente não está a fim de você". Adorei.

Foi escrito por Greg Behnrendt, consultor e um dos escritores da série Sex and the City e por Liz Turcillo, produtora da mesma série, deu origem ao filme Ele Não Está Tão A Fim De Você, com Jennifer Aniston, Drew Barrymore, Scarlett Johansson, Jennifer Connelly, Ginnifer Goodwinde, Ben Affleck e Justin Long.

Nada a ver com auto ajuda para solteiras desesperadas. Uma leitura gostosa e útil, INFINITAMENTE mais interessante que o filme (leia o meu comentário a respeito do filme).

Eu preferia que o livro não fosse tão útil e que suas dicas estivessem todas ultrapassadas e os assuntos já fartamente superados pelas mulheres do nosso tempo. Não é o caso. Todos os dias vemos amigas nossas pisando nas mesmas bolas, sofrendo pelas mesmas cegueiras, com expectativas infundadas em relacionamentos que jamais acontecerão. Adiam a desilusão dando para si mesmas desculpas esfarrapadas só para fazer de conta que têm ou terão um relacionamento com aquele sujeito que não tá a fim, só não tem coragem de dizer na lata.

Este livro acaba com ilusões; é um tratamento de choque. Aquela que não acordar depois da sua leitura tem mais é que morrer mesmo.

O resumo é: jamais presuma que um cara não telefona porque perdeu seu número ou não lhe convida para sair porque é tímido, não se envolve porque sofreu demais no último relacionamento, nao é atencioso por falta de tempo, não se separa da esposa porque ainda não é o melhor momento. Isso tudo é mentira e careditar nisso é pura babaquice. A verdade é que ele simplesmente não está a fim de você. Homem quando quer, vai atrás. Pode estar doente, com mãe morrendo e o prédio em chamas.

Li, gostei e dei de presente para a minha sobrinha. Acho de darei ainda para algumas amigas...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Amores sensuais - Confissões


" Vim para Cartago e logo fui cercado pelo ruidoso fervilhar dos amores sensuais... Desejando amar, procurava um objeto para esse amor, e detestava a segurança, as situações isentas de risco.

Tinha dentro de mim uma fome de alimento interior - fome de ti, ó Deus. Mas não sentia essa fome porque não me apeteciam os alimentos incorruptíveis, não por estar saciado, mas porque, quanto mais vazio, mais enfastiado me sentia...

Era para mim mais doce amar e ser amado se eu pudesse gozar do corpo da pessoa amada. Assim eu manchava as fontes da amizade com a sordidez da concupiscência e turbava a pureza delas com a espuma infernal das paixões. Não obstante eu ser feio e indigno, apresentava-me, num excesso de vaidade, como pessoa elegante e refinada. Mergulhei então no amor em que desejava ser envolvido.

Deus, misericórdia minha, como foste bom em derramar tanto fel sobre meus prazeres! Fui amado e cheguei ocultamente às cadeias do prazer, mas na alegria, eu me via amarrado por laços de sofrimento, castigado pelo ferro em brasa do ciúme, das suspeitas, dos temores, das cóleras e das contendas..."

(Trecho de "Confissões", de Santo Agostinho)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O Povo de Belo Monte

"Uma coisa é reunir multidões para ouvir uma pregação, fazer um protesto, uma manifestação política ou qualquer coisa sobre o que quer que seja... até para cobrar um dízimo... basta ter carisma. Mas, outra é manter um arruado funcionando, juntando os desiguais; reunindo a moeda imperial com a republicana e a dela própria; merecendo crédito na redondeza, possuindo organização própria, administração civil e religiosa, duas escolas e até cadeia que chamavam poeirão, por estar sempre vazia. Será que não seria mais lógico aprender com esses fazedores? Gente que teve a capacidade de matar para defender seu lugar, mais ainda de morrer por ele?" (Continue lendo...)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Capitães da Areia - Jorge Amado



A respeito do livro Capitães da Areia escreveu Milton Hatoum que “A meu ver, este romance de Jorge Amado antecipou de um modo lúcido e incisivo a vida das crianças que esmolam nas ruas das cidades brasileiras. E essa é uma das mensagens mais poderosas de Capitães da Areia. Hoje a violência urbana tem uma relação estreita com o tráfico de drogas, enquanto os meninos desta obra de ficção furtam para sobreviver. Mas , até certo ponto, as raízes do problema são as mesmas...”

Certo. Na minha opinião esta obra bem pode ser traduzida em uma única frase: “EU NÃO DISSE?”

É um livro profético; o que era terror naquela época hoje é visto como fichinha. Ele previu e acertou e esse é o grande mérito do livro e só por essa via pode ser chamado de “atual”. Mas cá pra nós, acho que ele acertou sem querer.

Também disse Milton Hatoum (no posfácio) que esta obra fora censurada e queimada em 1937 em Salvador. Deve ser pelo tanto que Jorge Amado chama violência, roubo e toda a sorte de crime de “atos de heroísmo”. Leia o livro e você verá que não estou exagerando.

Todos os crimes são tratados como atos heróicos, uma coisa a ser admirada e louvada. Dora, a garota de 13 anos que ingressou no grupo e fez questão de assaltar e fazer o diabo igual aos meninos foi quase que canonizada, “virou estrela no firmamento”! Volta Seca ingressou no grupo de Lampião, matou trocentos e ganhou na história uma moral tão grande que nem Tiradentes lhe faria sombra.

Prefiro Cidade de Deus, que mostra as coisas como são, cada um é o que é e ninguém aparece como santo. É mais real admitir que ninguém sabe onde estão as respostas.

Mas Jorge Amado não quis profetizar, quis escrever um romance. Quis inovar para a época e talvez isso significasse surpreender o leitor fazendo-o sentir ternura por quem seria impensável sentir ternura. Para isso percorreu o caminho da aflição: por um lado tinha a tarefa de nos convencer de que os meninos eram muito, mas muito malvados (se não o fizesse, a história perderia a base). Por outro lado, se a gente pegasse muita raiva dos moleques o autor perderia também o fio da sua grande idéia (que era justamente nos levar a gostar deles). E o que ele fez? Oscilou o tempo todo.

Os crimes mais violentos foram descritos geralmente através de figurantes (não na crueza do presente); as vezes eram contados seguindo-se de grande admiração pelo ato de “heroísmo”. Ou então os meninos apenas estavam reagindo a uma violência gratuita contra eles. Em suma: sempre havia uma justificativa.

Não existe possibilidade alguma de olharmos os delinqüentes de hoje e reconhecermos neles um Professor, um Gato, Sem Pernas ou Dora. Sinceramente. A gente tem que ler o livro e imaginar que a história se passou em outro planeta.

Se Jorge Amado queria nos mostrar que nem sempre os bandidos são tão maus quanto a mídia quer nos fazer crer, acho que o enfoque poderia ser outro (lembra do Lúcio Flávio?). A história poderia pender para outro lado; Amado poderia mostrar que suas contravenções foram aumentadas por puro preconceito e interesses escusos de uma imprensa tendenciosa e manipuladora etc etc etc . Tudo bem mas ele não foi por aí. Preferiu repetir mil vezes que os Capitães da Areia eram o Satanás, o cão-chupando-manga, temidos, renomados, um terror e tal e tal e ao mesmo tempo uns bebês fofinhos. Demorava-se em descrever crianças unidas por fortes laços de amizade e lealdade dormindo juntas, irmanadas sob estrelas num cenário inebriante, comovedor, ninadas pelas ondas do mar, ora na chuva, ora no sol... E de repente, como que para não nos deixar esquecer de que estamos tratando de delinqüentes terríveis, menciona algum crime dos Capitães da Areia assim, só para refrescar a memória.

O chato disso tudo é que ele fala não como um narrador mas como um admirador o tempo todo. Os espertos, valentes e destemidos Capitães da Areia. Os "batutas". Aí entram mais uns criminhos de nada, e tal... e eles voltam para o cais e entra de novo a música triste, a amizade, lealdade e bondade celestial que existe entre eles. “Eles não conhecem o pecado.”

Só mais essa, para eu passar para a outra parte da minha opinião: Pedro Bala, chefe da gangue, certa vez "estupra" uma garota. Tudo bem, até aí nada de mais, ele foi até legal porque deixou a garota virgem; doeu, machucou mas, a pedidos, foi por trás. Gente fina, né? Em outra ocasião ele tem nova oportunidade com outra garota mas segura seus instinto (e o de seus companheiros) porque esta nova vítima “não passava de uma menina” e garante a ela que ninguém ali lhe faria mal algum.

Ora, todos ali eram meninos! E as meninas (a estuprada e a poupada) eram quase da mesma idade. Tudo bem, a preservada era loira e a outra uma “negrinha”. Tá explicado.

MAS...

Sim, o livro tem seus grandes momentos. Tirante tudo o que foi acima exposto, tocou-me profundamente o drama psicológico dos personagens. Nisso Jorge Amado foi magnífico. O sofrimento sincero, a confusão dolorida do pobre padre José Pedro, a culpa lancinante e a vontade louca que Pirulito acalentava de ver a luz, servir a Deus, fazer o bem... o desespero lancinante de Sem Pernas ao se ver na iminência de abandonar aquilo que mais desejou na sua vida. Ele estava tão feliz que era de cortar o coração. A felicidade dele doía na gente. Seu desespero e desmoronamento foram as cenas mais fortes para mim.

Estes foram alguns dos momentos verdadeiros e muito bem escritos da história. Foram dramas reais, próprios de gente de carne e osso. Agora sim pude me sentir um deles, pude entendê-los e reconhecer a cara de um por um e acreditar que existiam. Porque não há nessa vida quem não se embaralhe na floresta da verdade, quem não sofra entre duas decisões “acertadas e conflitantes” e nem enlouqueça de dor sozinho no mundo. Nisso Jorge Amado arrasou. Cada personagem sozinho, como sozinhos somos todos nós, teve que debater-se em suas questões, ter seu peito dilacerado e por fim corajosamente seguiram em frente.

Os que tiveram chance seguiram em frente. Esse sim foi o verdadeiro ato heróico dos personagens e a lição preciosa do livro.

Cristina Faraon
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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ele simplesmente não está a fim de você


Faz tempo que li esse livro. Eu estava de bobeira no aeroporto. Meu vôo ia demorar. Dei aquela passadinha básica na livraria e resolvi comprar "Ele simplesmente não está a fim de você". Adorei.

Foi escrito por Greg Behnrendt, consultor e um dos escritores da série Sex and the City e por Liz Turcillo, produtora da mesma série, deu origem ao filme Ele Não Está Tão A Fim De Você, com Jennifer Aniston, Drew Barrymore, Scarlett Johansson, Jennifer Connelly, Ginnifer Goodwinde, Ben Affleck e Justin Long.

Nada a ver com auto ajuda para solteiras desesperadas. Uma leitura gostosa e útil, INFINITAMENTE mais interessante que o filme (leia o meu comentário a respeito do filme).

Eu preferia que o livro não fosse tão útil e que suas dicas estivessem todas ultrapassadas e os assuntos já fartamente superados pelas mulheres do nosso tempo. Não é o caso. Todos os dias vemos amigas nossas pisando nas mesmas bolas, sofrendo pelas mesmas cegueiras, com expectativas infundadas em relacionamentos que jamais acontecerão. Adiam a desilusão dando para si mesmas desculpas esfarrapadas só para fazer de conta que têm ou terão um relacionamento com aquele sujeito que não tá a fim, só não tem coragem de dizer na lata.

Este livro acaba com ilusões; é um tratamento de choque. Aquela que não acordar depois da sua leitura tem mais é que morrer mesmo.

O resumo é: jamais presuma que um cara não telefona porque perdeu seu número ou não lhe convida para sair porque é tímido, não se envolve porque sofreu demais no último relacionamento, nao é atencioso por falta de tempo, não se separa da esposa porque ainda não é o melhor momento. Isso tudo é mentira e careditar nisso é pura babaquice. A verdade é que ele simplesmente não está a fim de você. Homem quando quer, vai atrás. Pode estar doente, com mãe morrendo e o prédio em chamas.

Li, gostei e dei de presente para a minha sobrinha. Acho de darei ainda para algumas amigas...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Amores sensuais - Confissões


" Vim para Cartago e logo fui cercado pelo ruidoso fervilhar dos amores sensuais... Desejando amar, procurava um objeto para esse amor, e detestava a segurança, as situações isentas de risco.

Tinha dentro de mim uma fome de alimento interior - fome de ti, ó Deus. Mas não sentia essa fome porque não me apeteciam os alimentos incorruptíveis, não por estar saciado, mas porque, quanto mais vazio, mais enfastiado me sentia...

Era para mim mais doce amar e ser amado se eu pudesse gozar do corpo da pessoa amada. Assim eu manchava as fontes da amizade com a sordidez da concupiscência e turbava a pureza delas com a espuma infernal das paixões. Não obstante eu ser feio e indigno, apresentava-me, num excesso de vaidade, como pessoa elegante e refinada. Mergulhei então no amor em que desejava ser envolvido.

Deus, misericórdia minha, como foste bom em derramar tanto fel sobre meus prazeres! Fui amado e cheguei ocultamente às cadeias do prazer, mas na alegria, eu me via amarrado por laços de sofrimento, castigado pelo ferro em brasa do ciúme, das suspeitas, dos temores, das cóleras e das contendas..."

(Trecho de "Confissões", de Santo Agostinho)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O Povo de Belo Monte

"Uma coisa é reunir multidões para ouvir uma pregação, fazer um protesto, uma manifestação política ou qualquer coisa sobre o que quer que seja... até para cobrar um dízimo... basta ter carisma. Mas, outra é manter um arruado funcionando, juntando os desiguais; reunindo a moeda imperial com a republicana e a dela própria; merecendo crédito na redondeza, possuindo organização própria, administração civil e religiosa, duas escolas e até cadeia que chamavam poeirão, por estar sempre vazia. Será que não seria mais lógico aprender com esses fazedores? Gente que teve a capacidade de matar para defender seu lugar, mais ainda de morrer por ele?" (Continue lendo...)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Capitães da Areia - Jorge Amado



A respeito do livro Capitães da Areia escreveu Milton Hatoum que “A meu ver, este romance de Jorge Amado antecipou de um modo lúcido e incisivo a vida das crianças que esmolam nas ruas das cidades brasileiras. E essa é uma das mensagens mais poderosas de Capitães da Areia. Hoje a violência urbana tem uma relação estreita com o tráfico de drogas, enquanto os meninos desta obra de ficção furtam para sobreviver. Mas , até certo ponto, as raízes do problema são as mesmas...”

Certo. Na minha opinião esta obra bem pode ser traduzida em uma única frase: “EU NÃO DISSE?”

É um livro profético; o que era terror naquela época hoje é visto como fichinha. Ele previu e acertou e esse é o grande mérito do livro e só por essa via pode ser chamado de “atual”. Mas cá pra nós, acho que ele acertou sem querer.

Também disse Milton Hatoum (no posfácio) que esta obra fora censurada e queimada em 1937 em Salvador. Deve ser pelo tanto que Jorge Amado chama violência, roubo e toda a sorte de crime de “atos de heroísmo”. Leia o livro e você verá que não estou exagerando.

Todos os crimes são tratados como atos heróicos, uma coisa a ser admirada e louvada. Dora, a garota de 13 anos que ingressou no grupo e fez questão de assaltar e fazer o diabo igual aos meninos foi quase que canonizada, “virou estrela no firmamento”! Volta Seca ingressou no grupo de Lampião, matou trocentos e ganhou na história uma moral tão grande que nem Tiradentes lhe faria sombra.

Prefiro Cidade de Deus, que mostra as coisas como são, cada um é o que é e ninguém aparece como santo. É mais real admitir que ninguém sabe onde estão as respostas.

Mas Jorge Amado não quis profetizar, quis escrever um romance. Quis inovar para a época e talvez isso significasse surpreender o leitor fazendo-o sentir ternura por quem seria impensável sentir ternura. Para isso percorreu o caminho da aflição: por um lado tinha a tarefa de nos convencer de que os meninos eram muito, mas muito malvados (se não o fizesse, a história perderia a base). Por outro lado, se a gente pegasse muita raiva dos moleques o autor perderia também o fio da sua grande idéia (que era justamente nos levar a gostar deles). E o que ele fez? Oscilou o tempo todo.

Os crimes mais violentos foram descritos geralmente através de figurantes (não na crueza do presente); as vezes eram contados seguindo-se de grande admiração pelo ato de “heroísmo”. Ou então os meninos apenas estavam reagindo a uma violência gratuita contra eles. Em suma: sempre havia uma justificativa.

Não existe possibilidade alguma de olharmos os delinqüentes de hoje e reconhecermos neles um Professor, um Gato, Sem Pernas ou Dora. Sinceramente. A gente tem que ler o livro e imaginar que a história se passou em outro planeta.

Se Jorge Amado queria nos mostrar que nem sempre os bandidos são tão maus quanto a mídia quer nos fazer crer, acho que o enfoque poderia ser outro (lembra do Lúcio Flávio?). A história poderia pender para outro lado; Amado poderia mostrar que suas contravenções foram aumentadas por puro preconceito e interesses escusos de uma imprensa tendenciosa e manipuladora etc etc etc . Tudo bem mas ele não foi por aí. Preferiu repetir mil vezes que os Capitães da Areia eram o Satanás, o cão-chupando-manga, temidos, renomados, um terror e tal e tal e ao mesmo tempo uns bebês fofinhos. Demorava-se em descrever crianças unidas por fortes laços de amizade e lealdade dormindo juntas, irmanadas sob estrelas num cenário inebriante, comovedor, ninadas pelas ondas do mar, ora na chuva, ora no sol... E de repente, como que para não nos deixar esquecer de que estamos tratando de delinqüentes terríveis, menciona algum crime dos Capitães da Areia assim, só para refrescar a memória.

O chato disso tudo é que ele fala não como um narrador mas como um admirador o tempo todo. Os espertos, valentes e destemidos Capitães da Areia. Os "batutas". Aí entram mais uns criminhos de nada, e tal... e eles voltam para o cais e entra de novo a música triste, a amizade, lealdade e bondade celestial que existe entre eles. “Eles não conhecem o pecado.”

Só mais essa, para eu passar para a outra parte da minha opinião: Pedro Bala, chefe da gangue, certa vez "estupra" uma garota. Tudo bem, até aí nada de mais, ele foi até legal porque deixou a garota virgem; doeu, machucou mas, a pedidos, foi por trás. Gente fina, né? Em outra ocasião ele tem nova oportunidade com outra garota mas segura seus instinto (e o de seus companheiros) porque esta nova vítima “não passava de uma menina” e garante a ela que ninguém ali lhe faria mal algum.

Ora, todos ali eram meninos! E as meninas (a estuprada e a poupada) eram quase da mesma idade. Tudo bem, a preservada era loira e a outra uma “negrinha”. Tá explicado.

MAS...

Sim, o livro tem seus grandes momentos. Tirante tudo o que foi acima exposto, tocou-me profundamente o drama psicológico dos personagens. Nisso Jorge Amado foi magnífico. O sofrimento sincero, a confusão dolorida do pobre padre José Pedro, a culpa lancinante e a vontade louca que Pirulito acalentava de ver a luz, servir a Deus, fazer o bem... o desespero lancinante de Sem Pernas ao se ver na iminência de abandonar aquilo que mais desejou na sua vida. Ele estava tão feliz que era de cortar o coração. A felicidade dele doía na gente. Seu desespero e desmoronamento foram as cenas mais fortes para mim.

Estes foram alguns dos momentos verdadeiros e muito bem escritos da história. Foram dramas reais, próprios de gente de carne e osso. Agora sim pude me sentir um deles, pude entendê-los e reconhecer a cara de um por um e acreditar que existiam. Porque não há nessa vida quem não se embaralhe na floresta da verdade, quem não sofra entre duas decisões “acertadas e conflitantes” e nem enlouqueça de dor sozinho no mundo. Nisso Jorge Amado arrasou. Cada personagem sozinho, como sozinhos somos todos nós, teve que debater-se em suas questões, ter seu peito dilacerado e por fim corajosamente seguiram em frente.

Os que tiveram chance seguiram em frente. Esse sim foi o verdadeiro ato heróico dos personagens e a lição preciosa do livro.

Cristina Faraon