Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O cãozinho Azul

Uma historinha pra contar para a Clarinha quando ela crescer.

O cãozinho azul nasceu branquinho branquinho, como qualquer coisa branquinha-branquinha que você conheça. Recém-nascido, em meio aos olhares sádicos das crianças, forraram sua "manjedoura" com trapinhos e pedaços de papel crepon azul, já que era um menininho. Também para dar um ar mais festivo à ocasião.

Às crianças foi ordenado que não o tocassem e que se o ímpeto fosse por demais intenso, pelo menos canalizassem sua maldade original para a Barbie velha que a maninha não queria mais. Como sabemos, Barbies velhas deixam de ser frescas e topam qualquer parada.

O cãozinho branco, mole e úmido como uma meleca, logo aprendeu a revolver-se na "manjedoura". De tanto fazê-lo o azul do papel crepon mudou-se para os seus pêlos, o que foi anunciado como misteriosa mutação. Só que a mutação não passou incólume pelo scanner da dona Maroca, babá severa e experiente, que desfez a aura de mistério esfregando na cara dos pasmos espectadores  os restos do crepon totalmente desmilinguido.

Ao contrário do que era de se esperar, com o passar dos dias a cor não se desfez, pelo contrário: atracou-se ao cãozinho indefeso como teimosa entidade, uma espécie de encosto que resolveu habitar aquele corpinho, só que pelo lado de fora. Ninguém se animou a exorcizá-la, então ficou.

Nenhum outro nome seria mais acertado - resolveram - do que simplesmente "Azul". Assim veio ao mundo, para deslumbramento da família Lima, o cãozinho Azul.

Foi essa a história que lhe contaram e recontaram dezenas de vezes ao longo de sua vidinha. Era curioso quanto às suas origens, como toda criança adotada. Não falaram em pai nem em mãe pois, espertamente talvez, quando chegavam no ponto em que contavam como ele se tornara azul, sua curiosidade por outros detalhes se esvaía completamente. Então ele se deslumbrava com sua peculiaridade como sendo um indicador de nobreza.

Milagre ou falta de banho? Ninguém sabe ao certo. O mistério permaneceu e todas as vezes que ele refazia a pergunta a história era recontada com uma pontinha a mais aqui e ali, de forma a ser sempre nova. Assim, o "detalhe" pai e mãe ia ficando pra depois. Se ele continuasse perguntando, decerto acrescentariam que ele caira do céu.

Ninguém quer ver um cãozinho infeliz. E que mal há, me digam, em fazê-lo acreditar que era diferente e especial? Afinal não era mesmo verdade?

"Que lindo cãozinho sou eu! Relíquia da família Lima! Invejado por todos e muito simpático. Totalmente azul como ninguém mais no mundo. Talvez algum marciano... mas aqui na Terra não tem pra ninguém. Vou ter 20 filhotes, com todas as cores do arco-íris acrescentadas de suas nuances, para não repetir." E assim passavam-se os sóis e as luas.

Se formos ser bem sinceros, Azul não possuía dons especiais: não sabia imitar gato, não se fingia de morto, não "quase falava" nem pulava argolas incandescentes. Era um cão, digamos, basicão - sem trocadinho. Mas também não era cobrado nesse sentido. Ao observar os dons de seus amigos ele concluía com seus botões:  "E  quem precisa aprender truques se tem os pêlos azuis?  Isso deve bastar!" - pensava ele. E pensava bem, porque bastava.

Sua vida transcorria simples e divertida, sem novidades ou emoções aflitivas. Daí, talvez, sua saúde e bom humor. Porque se não sabia fazer truques, pelo menos sabia sorrir, e sorria! Para os transeuntes, para os vizinhos, para as crianças quando acordavam, para todos.

Certa vez, passeando com seu dono, Azul notou que outros cães eram igualmente afortunados. Recebiam carinho e atenção, passeavam regularmente, comiam bem todos os dias e ganhavam cafunés.  Pior do que isso: ele mesmo não chamava a atenção dos outros cães. Eles o cumprimentavam com educação: Bom dia! Boa tarde! Boa noite! - mas não lhe direcionavam nenhum olhar especialmente curioso. Mas como? Ele era ímpar!

Certa vez uma cadelinha lhe lançou olhares insistentes que o fizeram colocar-se estrategicamente sob o sol para realçar a cor e ganhar um brilho extra. Fez todas as poses mas notou, meio encucado, que não era para seus lindos pêlos que ela estava olhando. Era uma paquera comum entre cães comuns e isso começou a lhe preocupar. Ele sabia que não existia no mundo outro cão como ele, afortunadamente, explendidamente, curiosamente e indiscutivelmente azul. Mas ela lhe olhou como olhou para o Desmóscrates, cão da casa ao lado. O mesmo olhar da semana passada.

Crise existencial. Adolescência, talvez? Não sei. Não sei a idade de Azul. Só sei que ele chegou a perder o sono.

Mais um dia pela frente... Com fundas olheiras saiu com seu dono para um passeio. Linda manhã... que poderia ter demorado mais a raiar... Sono atrasado.

Pois sim: naquela manhã "especialmente comum" seu dono deparou-se com um amigo que não via há tempos. Foi uma surpresa mútua com abraços, vários tapas nas costas (por quê os humanos fazem isso, meu Deus?!)  e flashes de recordações de lá e de cá. Ele observava aquela alegre esquisicite e considerava, meio amargurado, o fato de que não possuía lembranças assim. Pelo menos nenhuma que valesse tantos tapas.

Por fim, esvaindo-se os assuntos, seu dono lembrou-se de exibi-lo, sorridente, ao amigo. O amigo, em um gesto previsível e polido, fez-lhe um cafuné e lhe sorriu com um olhar como o de quem acaba de ver algo indiscutivelmente... razoável.

Razoável?  Ele não era um cão "razoável" mas o explêndido e raro cão azul, único na cidade e quem sabe no mundo!

Pelo jeito o tal amigo não vira nada de esplêndido nele, pois lançara-lhe um olhar nada mais do que morno. Um cafuné, um sorriso comum e um olhar morno para um cão razoável. Ele não merecia uma desfeita dessa...

Resolveu colocar tudo em pratos limpos. Ao chegar em casa seus latidos eram de quem exige uma explicação. Algo estava errado e agora era hora de descobrir.

Confronto!  A família viu-se em polvorosa tentando acalmá-lo. Ele andava em círculos pelo tapete falando, digo, latindo coisas desconexas sem parar, cabeça baixa, emendando uma frase (frase? ) na outra. A princípio pensavam que ele queria saber quem eram seus pais. Depois notaram que não era esse o "xis" da questão: ele queria saber o que havia de errado consigo, que sempre foi tratado em casa como raridade mas, no mundo, não passava de um Zé Ruela.

Disfarçadamente todos correram a esconder os espelhos da casa. Cada um foi para um lado. Seu dono fazia pose em frente ao maior espelho da casa. A porta do quanto, com outro espelho enorme, foi estrategicamente trancada enquanto discutiam. Havia algo estranho ali.

Pediu explicações, implorou, jogou-se no chão com as patas pra cima, fez que ia ter um derrame, cambaleou, soluçou de frente para a parede, tentou o suicídio prendendo a respiração, fez de tudo. Cada parte do teatro era dramatizado em um canto da sala. A última "montagem" foi justamente a que carregava uma maior força dramática: era a hora da revelação. Seu último arroubo foi em frente à cristaleira (quem ninguém lembrou de esconder) cara a cara consigo mesmo. Sim, no espelho da cristaleira.

Até então ele só reparara nas prateleiras da cristaleira e isso quando o sol incidia sobre as taças límpidas e os pequenos mimos lapidados. Aquele brilho, a luz decomposta... Era só o que olhava até então, mas dessa vez foi diferente - oh Céus!  E o quê ele viu?

Viu um cachorrinho baixinho, poucos pêlos, olhos arregalados, orelhas caídas, rabinho pouco sedutor (fino e curto)... Comum. Dolorosamente comum. E com dentes amarelados. E de óculos. De óculos? Nenhum de seus companheiros usava tal artefato. Um cão de óculos. Patético.

Pelo menos era azul. Pelo menos isto restou - pensou ele. Então resolveu tirar os óculos - azuis - para checar a cor dos olhos. Vaidade... Maldita vaidade!

O fato é que ele ficou sem saber a cor de seus olhos porque tudo o que pôde enxergar no  espelho da malfadada cristaleira era um cão baixinho de poucos pêlos, olhos arregalados, orelhas caídas, cauda mínima, dentes amarelados, sem óculos e... ENCARDIDO.

Oh dor! Oh desilusão! Então ele não era azul? Era branco, e o pior dos brancos. Não o branco neve. Não o branco marfim, não o branco azulado, mas o branco encardido.

Ali ficou, pasmo e duro como um monumento, em estado de choque. As patinhas duras esticadas para cima. Ridículo. Naquele estado mais parecia uma barata morta.

Pegaram-no e o colocaram em seu leito, em meio a muita discussão, troca de acusações e críticas mútuas: "Não se deve esconder assim as coisas de um bichinho! A culpa é sua! A verdade viria a tona mais cedo ou mais tarde! Como não pensamos nisso? Agora é tarde. Eu bem disse que não deveriam ter dado banho nele! A culpa é sua, com suas histórias rocambolescas! Chamem um médico!"

Emagreceu. Não quis falar latir pra ninguém. Chorou. Teve crise nervosa quando tentavam lhe inculcar que ele era muito especial e raro, ainda que não azul, ainda que lindamente encardidinho. Nada. Recusou até osso de rabada. Por fim, morreu.

Com uma semana, não suportando a "dor" da perda, seus donos compraram outro cão. Um pouco mais alto, um pouco mais alvo, um pouco mais peludo, que sabia se fingir de morto e - para piorar - que se olhava no espelho e sabia muito bem quem ele era.

Chato, né?

Consolo: o Céu é azul.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Eu devo isso a ela



Essa é a foto mais incrível da minha vida!

Claro que não parece por isso vou contar o lance. Cara, tocante.



Passeio, praia... foto é inevitável. E ali estava eu em uma cena do tipo "mais previsível impossível" querendo fotografar a praia ao fundo e a mim mesma em primeiro plano, claro.



Postei-me fazendo cara de turista e a pose nem ainda estava completa, notem. Ia jogar a viseira longe, lustrar o sorriso, fazer onda, mas notem que a expressão do meu rosto é a de quem não entende porque o pessoal todo me olhava e gesticulava. Bastava que eu olhasse para trás mas só fiz isso depois.




Olhei só depois, como disse, mas me contaram o antes. Ela, a árvore, não estava lá quando resolvi fotografar. Achegou-se a nós posteriormente- acredite! - com a desenvoltura de um polvo do fundo do mar com seus tentáculos. Um lance muito louco!


O movimento das raízes davam a impressão de ondas, de serpentes, de qualquer coisa assim. Foi rápido. Ela "andava" meio de lado como caranguejo, num movimento tão estranho e rápido que o pessoal só não saiu em disparada porque todos nós sabemos que as árvores não fazem mal a ninguém, muito pelo contrário.



Nenhum mal me fez, embora na foto pareça que ela pretendia enlaçar-me. Não. Apenas queria dizer algo, parecia assim meio aflita.



Qualquer história humana ficou banal diante daquilo. Por mais intensos que sejamos nenhum de nós contaria nada com um gesticular tão sentido e apaixonado como aquela linda árvore fazia. De fato dizia algo, mas o quê?



Depois que ela encontrou se lugar atrás de mim e em frente à câmera, acalmou-se. Continuou fazendo mais alguns gestos (que depois entendemos como suplicantes) mas se aquietou para a "filmagem". Pobrezinha! A gente sacou que ela acreditava tratar-se de uma filmagem! Certamente queria deixar registrado algo relevante. Talvez sobre queimadas ou desmatamento - essas coisas do Jornal Nacional. Pelo menos foi o que nos ocorreu.



Eu não conheço a linguagem dos sinais utilizada pelos humanos, imagina a das árvores! Tratava-se mesmo de uma mensagem? Um pedido de socorro? Ou só a "dança dos não famosos" para aparecer pelo menos no You Tube? Não, era algo importante. Por que ela se apressou, postou-se atrás de mim e depois deixou-se "filmar" enquanto gesticulava daquele jeito comovente?



Jamais saberemos. Quem estava comigo levou o maior susto. Eu só olhei pra trás depois da foto(porque elas não fazem barulho enquanto andam.)



Bem, pelo menos estou contando pra vocês e postando o caso em meu blog. Por algum motivo acho que devo isso a ela.


Por via das dúvidas fica aqui alguns alerta que a gente achou que a árvore poderia ter querido dizer. Ou que a gente diria se fosse árvore:


NÃO QUEIMEM AS FLORESTAS!

NÃO CORTEM AS ÁRVORES!

CIGARRO DÁ CÂNCER!

SE FOR BEBER NÃO DIRIJA!

USE CAMISINHA!

NÃO REELEJA O PT!


terça-feira, 17 de março de 2009

Meu dia de fúria - Um conto


Amanheci numa dessas amanhecidas azedas, atravessadas. Tomei banho, me perfumei e me vesti da melhor maneira que pude pra ver se a coisa melhorava. O velho truque da gente se produzir para levantar o astral. Quem é mulher entende.

Entrei no carro, saí. Tudo normal - tão normal que ainda não fora possível perceber se de fato a produção operara algum efeito benéfico sobre meu estado de espírito.

Eu tava na minha, linha reta, não mexi com ninguém. Não sabia se me sentia bem ou mal mas isso não é crime. Dirigia rigorosamente dentro das leis do trânsito o meu carrinho popular não muito limpo - o que também não é crime, não me olhe atravessado! Tocava no rádio uma música razoável que não vem ao caso. O que aconteceu não é culpa da música.

Trânsito chato: pára, vai, pára, vai. Numa dessas paradas mais longas se aproxima um mal encarado. Encarei o mal encarado meio entediada, como quem vê um bezouro voando do outro lado do vidro.

Ultimamente ando meio cansada de desgraças. Quando a gente não ouve falar, liga a televisão e vê. Quando vai ao cinema, pode ser o filme que for: tem sempre cenas de miseráveis aos borbotões. Hoje, como acordei com o ovo (?!) atravessado, resolvi ser indiferente a tudo, desse no que desse. A indiferença é o melhor escudo. Se não era, naquele dia seria e dane-se.

Danar-me-ia.

O farrapento com cara de poucos amigos aproximou-se do meu carro, bateu no vidro para que eu o baixasse. Olhos arregalados, magro como ele só. A essas alturas eu já estava tão mal encarada quanto ele, apesar da Natura, Avon e Boticário.

A verdade é a seguinte: faz tempo que eu andava querendo mesmo que algo drástico me sobreviesse. Ééééé isso meeeeesmo, pode me chamar de doida. Tava cansada de tudo, de todos, de mim mesma principalmente. Só queria um pretexto pra chutar o pau da barraca. Tava naquela de torcer para o garçon derramar sopa no meu vestido, pro porteiro fechar o portão com o meu carro no meio, para a atendente do consultório ter esquecido de anotar meu nome na agenda - qualquer coisa pra botar fogo no circo. Queria mais é que pisassem no meu calo!

Não sei explicar e você não sabe entender, então chega de teorias porque afinal de contas estamos no meio da história e explicar muito acaba quebrando o clima.

Só sei que naquela hora eu podia escolher entre gritar, desmaiar - acelerar não dava - ou submeter-me às ordens daquele ladrãozinho de merda mas achei todas essas opções meio comuns, muito previsíveis. O fato é que o "comum" e o "previsível" eram justamente os elementos que haviam me colocado naquele estado anti-zen. Sendo assim, já sem pensar em nada e adorando isso, resolvi provocar Deus e o destino. Se o Altíssimo fazia muita questão de manter-me viva, que desse um jeito naquela situação porque ninguém me segurava: eu resovi despirocar de vez!

Não baixei o vidro. Saí da p**** do carro repentinamente, o que assustou o cara, que era mais baixo do que eu. Perguntei, espumando ódio, o que ele queria. Foi o tempo de ele se recompor e recuperar a valentia. Exigiu minha bolsa. Não vi revólver, então disse que não ia dar p*** nenhuma e fiz menção de voltar pro carro. Ele me segurou pela blusa e sei lá de onde apareceu uma faca. E sei lá de onde apareceu mais ódio e uma valentia de gladiador. Não sei em quem eu me fiava mas achei inebriante esse novo comportamento destemido. Era boooomm!

Empurrei o cara, ele caiu. Adorei. Mas o lazarento parecia que era de borracha porque saltou de volta e se pôs de pé antes que eu voltasse para o carro pra me trancar em segurança. Rapidinho ele me furou várias vezes. A primeira facada foi no pescoço, com certeza. A segunda no ombro e o resto não sei. Não fiquei contando. Sei que ainda consegui lhe arranhar a cara. Acho que acertei um soco em algum lugar mas foi meio sem força.

Daí pra frente é tudo misturado. No limiar da vida, tempo não conta. Lembro de algumas frases, alguns momentos específicos e pausas entre uma coisa e outra.

Eu desconfiei que estava morrendo quando abri os olhos e vi em volta de mim um monte de gente com o olhar consternado. Eu deveria estar horrível. Vi depois alguns rostos conhecidos. Não sei mais se eu ainda estava no local do crime mas olhei para cima (que não sei se era teto ou se era céu) procurando algum sinal, uma luz, uma aparição, sei lá. Não riam! Eu tava morrendo, gente! Tinha todo o direito de esperar um lance sobrenatural. Nunca se sabe.

Bem, não vi nada. Minha pieguice me pareceu sumamente engraçada naquele momento e ri de mim mesma. Alguns se comoveram com o meu olhar elevado às alturas e o sorriso piedoso. "Ela está indo... Deve estar vendo anjos... Oh Senhor!"

Comecei a sentir dor - não muita, mas o suficiente para deixar de achar qualquer coisa engraçada. Mexiam em mim. Não sei se me examinavam, se me transportavam... Por que cavei aquela situação? Queria morrer deveras? Deveria? Doeria? No que daria?

Ouvi a voz da minha irmã, aflita. Ela não sabia se eu ainda estava viva. Nessas horas nem a gente mesma tem lá muita certeza porque desmaia várias vezes, fica tonta, é uma esculhambação. Mas o humor ainda habitava meu corpo. Percebi isso pela idéia que tive quando ela me perguntou como eu estava, se eu podia ouvi-la ou ve-la.

Nesse momento, num "esforço de reportagem" abri os olhos. Vocês não sabem como isso dá trabalho quando se tem pouco sangue no corpo mas ela merecia o sacrifício. Abri os olhos e não resisti à tentação: achei que teria forças para uma piadinha e que riríamos juntas. Enfim, abri os olhos e balbuciei, entre dores e ânsias de riso: "Eis... eis que vejo ... os céus ... abertos...e...o... Filho do Homem... assentado ... no tron... "

Foi demais para mim. Ri. E mori. Porque rir requer um esforço monumental, principalmente para os esfaqueados. Ela não riu comigo. Brincadeirinha mais sem graça!

Mal gosto... Mas ao final das contas observei que foi de imensa valia a piadinha infame. Foi o tema do enterro, dos cânticos, a inspiração do pastor e a placa em minha lápide. Parti como uma bem-aventurada que viu os céus abertos e isso foi um consolo para a minha família.

Mas tem mais! Eu não estava de todo fora do contexto quando disse o que disse. É certo que naquela hora não vi coisa nenhuma, nem anjo nem luz, nadica de nada, mas depois...

Hum! Nem te conto! Você não iria acreditar. Até porque depois de toda essa palhaçada acho que fiquei meio sem credibilidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Jesus Luz & Madonna - Um conto


Claro que havia expectativas em relação a ela. Se eu dissesse o contrário a mentira seria mais tola do que a verdade de dizer que tive crises de ansiedade no primeiro ensaio que soube que ela estaria presente. Nem precisava porque sequer cheguei perto. De longe ela nada mais é do que o que se vê em fotos e telas. Surpresa nenhuma.
Um dia ela chegou perto e falou comigo. Assim, sem mais nem menos.

Conversamos rapidamente na frente de todo mundo. Depois fui ao seu camarim. Acho que ninguém viu mas também não me demorei.




Como é Madonna de perto? Ela é como eu pensei que fosse. Fisicamente não houve surpresa alguma. A surpresa foi por conta de eu descobrir que jamais havia pensado nela de outra forma que não fosse fisicamente. Não parecia ser nem mais jovem nem mais velha, mais bonita ou menos bonita, gorda ou magra. Era como eu achava que fosse por fora e isso quase me surpreendeu porque de um modo geral os popstar nunca são como pensamos.



Ela há muito passou do tempo de se importar em ser vista sem maquiagem. Estava ali, alvíssima e segura como a lua. O que vi em minha frente? Vi a lua surpreendentemente maternal como jamais pensei que fosse. É assim que ela é: clara e forte, imperturbável ao ser longamente fitada. O olhar permanece azul e profundo e nesse momento balancei.


Tocou em meu braço e dei-me conta de que me perguntava algo sobre a festa, sobre o pós-show. Gostou do meu braço, olhou-me. Tive vontade de abraçá-la e na despedida abracei. Me senti pequeno e aconchegado. Foi rápido mas adorei seu cheiro. Queria sentir mais.

Como um carinha como eu poderia ser enxergado como pessoa por uma mulher como ela? Como chegar naquele coração? Mas... para quê chegar naquele coração?

Nossas vidas são pontilhadas de instantes, alguns muito especiais e todos eles têm a vocação da efemeridade. Conhecedores da sua volatilidade, afligimo-nos. O que é eterno não precisa ser pontuado porque cobre uma vida toda mas os instantes especiais desaparecem como fadas travessas, duendes, aparições. Precisamos segurá-los bem firme e olhar em seus olhos por mais tempo antes que sumam para sempre



Madonna... ela é delicada. E o mais surpreendente: tem um quê de maternal até então impensável. Não sei se é no jeito de falar, de olhar... não sei explicar. Tem um aconchego assim, de mãe mesmo, que chama a gente para o meio dos seios com uma autoridade irresistível. Seu olhos são profundos, quase melosos e contrastam com a figura autoritária que a gente vê no palco. Soube muito de sua vida tão somente olhando dentro deles. Oceano.

Quero levar-lhe alguma coisa hoje a noite. Um pequeno momento eterno. Para ela poderá ser banal mas para mim não.










É cansativo mas as exigências de um mega show, ao contrário do que pensam, me ajudam demais em momentos como esse. Uma separação... Muito melhor não pensar nisso. Essa semana mais do que nunca vou me dedicar aos ensaios, a cada detalhe do que for preciso. Quero dormir exausta sempre. Só preciso dormir bem na véspera da apresentação.



Hoje conheci um rapaz - um modelo. Lindo como tantos outros. Senti que ele não se aproximaria se eu não tomasse a iniciativa. Foi o que fiz. Por que fiz? Porque estou tensa, porque estou cansada, porque posso, porque ele é lindo e jovem e cheio de vontade de crescer.



Conversamos rapidamente em meu camarim. Banalidade: nome, você conhece os EUA? Aceita uma cerveja? Gostei do jeito que me olhou. Geralmente esses meninos colocam-se na posição de mercadoria. Esse apenas me fitava e sorria de um jeito despretensioso, como se estivesse tranquilo com a idéia já certa de que não havia como nascer dali alguma coisa maior, um relacionamento. Olhava-me apenas atento a princípio. Depois, pareceu-me, já com crescente simpatia. Em alguns momentos pareceu-me lamentar que não palmilhássemos as mesmas estradas na vida, só aquele breve cruzamento.



Novo, muito novo para ter notado tão de pronto que jamais me apegaria a ele. E no entanto ele é lindo, tão lindo quanto pode ser uma pantera que escolha livremente deitar em seu tapete e partir para a selva tão logo deseje. Infinitamente mais livre do que eu.



Jovem e quente e duro. Claro que o desejei. Claro que seria meu. E claro, ele iria gostar sim.



Estivemos juntos outras poucas vezes, brevemente, antes de estarmos a sós.

Não é justo olhar um homem como um animal de estimaçao mas eu assim o vi. Mas me redimo porque esse olhar sobre ele não foi gerado no sentido caprichoso do termo mas da melhor maneira que se possa entendê-lo: na paixão que nos desperta a idéia da beleza selvagem capturada e usufruida dia e noite sob os olhos, ao alcance da mão. Quem nunca desejou apanhar um tigre, tê-lo, brincar com ele?

Ele não esperava nada de mim. Gostei disso também. Eu não esperava que ele conseguisse me comover - mas conseguiu.



Quando por fim descansei em seu torax enorme ele me falou, como todos falam, de suas primeiras impressões a meu respeito. Ri de sua ingenuidade ao contar que se surpreendeu ao encontrar em mim um "ar maternal" marcante e bonito. Que homem diria isso a uma mulher mais velha sem pedir desculpas logo em seguida? Mas ele disse, e com tanta graça e sinceridade que comoveu. Ele viu em mim o que penso ter de mais importante, o que mais prezo. Foi o maior elogio que um homem poderia me dar.

Levantou-se e vasculhou os bolsos de seu jeans. Voltou com um minúsculo pacote de presente. Não me entregou. Ele mesmo abriu e de lá tirou uma finíssima corrente de ouro com uma pequena imagem da Madona com a qual circundou meu pescoço. Nesse movimento senti seu hálito novamente. Essa imagem já possuía um significado enorme e lagrimei. Ando especialmente emotiva esses dias.



Estaremos juntos no Ano Novo. Não se trata de um romance. Não se trata de nada que não seja um hoje no qual preciso estar com alguém que não faça planos nem peça "presentes" para estar comigo; que não meça as palavras e que daí acabe dizendo sem querer coisas que me acalente o coração. Alguém que veja em mim a mãe que tanto prezo, que pensei que ninguém mais visse. Por fim, que entenda que preciso descansar minha cabeça em um peito assim... como um barco moreno perdido no oceano azul.



Cristina Faraon







sábado, 20 de setembro de 2008

Olhos de Fogo

Acho que esta sou eu com meu vestido amarelo de verão. Foi na década de 30 e nem sei como meu pai permitiu que eu saisse assim, para ser tão demoradamente observada por você.

Debaixo do chapéu meus cabelos negros e limpos não se deixam observar nem serem tocados sequer pelo vento. Pensei que um dia o verias solto em nossa alcova de casados... Naquela manhã ele apenas se enroscava, tranquilo guardião da minha nuca.

Creia que esta fui eu quando tinha a pele alva e preservava cuidadosamente o caminho dos meus olhos. Sim, te olhava vez por outra. Interpretava uma timidez que não tinha e que no entanto era o meu principal adorno.

Posei pra ti em uma rara manhã. As manhãs contigo eram raras. O sol se movia com vigor para o centro do céu. Meu vestido de crepe levou consigo areia quando levantei e o vento cochichou-te o meu perfume.

Essa era eu com minhas pernas fortes e coxas virgens.

Se meu pai permitisse eu posaria pra você mais vezes e em muitas outras cores. O tempo seria sempre eterno como nos quadros, como na mágica dos teus pincéis. Vez por outra verias meus dentes brancos. Deixaria que me olhasses mas não focaria teus olhos de fogo.

Queria ser a esposa que sonhaste, o sague azul, o corpo imaculado guardado em camisolas de algodão, leves como pele de ovo... e em meu quadril perfeito seriam forjados teus filhos e eu não morreria no parto.

Se eu não fosse a mulata que sou, voltaria a ser marfim de 1930. Deixar-me-ia pintar assim, fingindo ser livre e com uma sensualidade vivaz escorrendo pelo sorriso. Em meu silêncio pareceria a ti que ali mesmo poderia se tua se tão somente me tomasses pela mão.

Em algum recanto de mim sou assim. No olhar que não te lanço, no sorriso contido e nas maneiras suaves sinalizo tudo o que pressentimos que sou. Sinalizo para você, Olhos de Fogo, tudo o que nós sabemos que posso te dar se tão somente me tomares pela mão.

Cristina Faraon

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

É show!


Vou tomar banho, me perfumar e passar creme no rosto. Amanhã de manhã vai acontecer novamente aquele evento luminoso no qual a estrela sou eu.

Não estou aqui para me gabar mas admita: não é todo mundo que provoca um ajuntamento organizado e sorridente por onde passa. Eu provoco.

Todos os dias o meu percurso pela Almirante Barroso é um a-con-te-ci-men-to. Claro que já me perguntei o motivo. Não sou má pessoa mas também ainda não fiz nada que merecesse essa reação do público. Mas vou reclamar? Claro que não. Um dia entenderei o que me faz parecer tão nobre. Enquanto não entendo, relaxo e gozo.

Ah amigos, é tão bom ser querida e admirada! Digo isso porque o que mais poderia explicar a emocionada saudação que recebo das árvores todas as manhãs quando passo pela Almirante Barroso? Como explicar os aplausos, os acenos emocionados, a discreta agitação que cresce a partir de quando aponto no Entroncamento?

Qualquer um que esteja por perto no momento da minha passagem verá as árvores se perfilarem e me saudarem emocionadas, vestidinhas de verde, com as folhas lustrosas sem nenhuma poeirinha. Quanto carinho! Algumas vem em turma, outras me acenam mais solitárias mas todas acordam cedo para me recepcionar. Cantam, assoviam, fazem chique-chique enquanto agiram lindamente os galhos à minha passagem. Só não pulam mesmo porque não dá.

Que belo momento...

Tento entender os motivos delas só depois. Na hora "agá" não me detenho nessas questões. Por que desconfiar de gestos de amizade? As árvores gostam de mim e pronto. Tudo o que tenho que fazer é não desapontá-las. Quando me acenam e aplaudem diminuo a velociade e retribuo com o sorriso mais simpático que consigo. É o suficiente. Amanhã estarão lá de novo, cheias de vida.

Já reparei que no Tribunal há três dessas simpáticas árvores, uniformizadas. Elas são mais contidas, claro. Não levantam os braços nem fazem barulho mas o leve aceno, sem muito alarde, já me deixa alegre. Não podem fazer mais do que isso provavelmente por estarem de serviço.

Observo também aquelas que nao podem ir para perto da pista, como as outras. Sei lá como é a hierarquia entre elas mas estas também são tão meigas! Não deixam de comparecer por nada desse mundo. Ficam disputando espaço umas com as outras, debruçadas sobre os muros da avenida, apertadas, me esperando passar. Não há espaço nem para me acenar, tadinhas. Elas apenas arregalam um sorriso verde e brilhoso. Claro que gostariam de chegar mais perto mas mesmo de longe noto como me fitam, tão fofas! As do Bosque Rodrigues Alves são assim. Acho engraçada a briga para chegarem perto. Deveriam deixa-las sair de vez em quando...

Não desfazendo das árvores de serviço nem das contidas pelos muros (segundo escalão) registro aqui meu especial apreço àquelas mais expansivas que sorriem festivas, agitam bandeirinhas à minha passagem, jogam folhas e assoviam. São a alma da festa, certamente. Quando vou me aproximando elas cutucam umas às outras avisando "lá vem, lá vem ela!" Sem elas o evento não seria o que é.

Ainda vou descobrir quem organiza essa festa. Sabe, isso me põe pra cima! Até esqueço os problemas. As árvores da Almirante são super alto astral.

Tenho que admitir: existe uns dez por cento delas que são, digamos assim, menos expansivas. São as mais altas e mais e quietas. Não há vento que as animem. Não sei se isso tem a ver com a idade. Geralmente elas se colocam perfiladas próximo à Doutor Freitas. Bonitonas. Parecem - ou querem parecer - mais nobres.

Sabe, não fico ressentida. Temos que respeitar os diferentes temperamentos, não é? O que importa é a atitude: elas estão lá, firmes e fortes. Não fazem auê mas baixam o olhar quando passo, permitem-se um discretíssimo sorriso e pronto. Pra mim é o suficiente. O simples fato de estarem lá já significa muito.

Todos os dias pela manhã é Sete de Setembro e eu, sozinha, sou a Parada.

Vá para lá amanhã, pra me ver passar! Você vai ver que animação. De repente, vendo você comigo pode até ser que elas lhe joguem umas folhinhas também.

Leve máquina.

Cristina Faraon

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Por que não escrevo um romance

Minha personagem é muito indecisa. Não consegue resolver nem qual será a primeira coisa que fará quando levantar da cama com a cara quadriculada. Ela quer viver, quer demais, mas por isso mesmo, entre tantas opções, deixa-se estar por mais tempo na cama e não levanta. E as horas passam e retorna a noite. Desse jeito ela não está merecendo habitar nenhum livro.


Hoje o dia amanheceu com cara de fim-do-mundo, com cara assim de que se uma posição não for tomada agora, talvez não haja outra chance. Pensando nisso e vendo o cinza fatal pela janela, animou-se um pouco mais. "E se hoje fosse o fim? Nâo, hoje não, mas semana que vem? O que valeria a pena fazer, mesmo por mais louco que fosse?"

Nada! é a resposta. Se vai acabar, nada mais importa. E pensando bem, se de qualquer forma, faça o que eu fizer o mundo vai continuar, importa menos ainda... (Continue lendo)


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

BO-9547

Chuva séria é coisa forte. Ou melhor: chuva forte é coisa séria. E nem estou me referindo às inundações.

Voltemos nossas mentes especulativas para o imenso transtorno causado pela chuva na vida, por exemplo, dos passarinhos. Não me refiro às grandes aves cheias de moral que já estrelaram em documentários de TV a cabo. Estou falando desses passarinhos de bairro que a gente vê todo dia, marronzinhos, meio sem graça.

Esses dias estive pensando sobre isso e me senti profundamente tocada com a situação deles em dia de chuva. Claro que esse meu momento sensível passou rapidinho, mas ainda deu tempo de escrever esse texto.

Não me parece correto imaginar que esses bichinhos inofensivos sejam mais valentes do que nós, então afirmar que eles têm muito medo de chuva e trovoada é falar a verdade. Se você tiver em mente que ninho não tem teto, fica bem mais fácil aquilatar o sufoco deles quando pensam na possibilidade de seus filhotes serem arrebatados - e arrebentados - durante as intempéries.

“- Cadê aquele passarinho que estava aqui?
- Ensopou-se na chuva, depois veio um pé de vento e chutou o pobre pra longe e ele esborrachou-se naquela cerca. Não sabia voar. Olhe, ainda tem uns pedaços dele ali pendurados.”

Não te dói o coração?

Chuva... Chuva é mulher indócil e caprichosa. Ela não mede conseqüências nem se arrepende de seus arroubos. Tendo chance ela sacaneia mesmo e quem quiser que se arranje.

Pobres passarinhos... Além de tudo são solitários. São sim! Em minha acurada visão cada família forma um mundinho particular e eles se viram dentro desse nucleozinho emplumado e frágil. Não há vizinhos que os socorram e o gato da vizinha... melhor nem falar. Os filhotinhos... são tão pequenos, arrepiados e desconhecedores das realidades da vida! Todo o prazer de suas existências resume-se em comer minhocas. E ninguém garante que ao crescer outros gozos os aguardem. Sabe, não consigo imaginar um casal de passarinhos... Deixa pra lá.

Outra categoria que também sofre nas mãos caprichosas da natureza são os nossos amigos do andar de baixo. Não me refiro aos defuntos, mas às formigas.

Sempre cri que entre elas o deus-nos-acuda é sempre maior. Pense bem na aflição que é ter seu buraco cheio de água. Ainda não descobri se elas possuem algum sistema impermeabilizante lá por baixo - refiro-me às suas moradias, fique claro. Como será que conseguem continuar morando no mesmo lugar depois de um toró?

Com o passar do tempo e grande dose de empirismo fui compreendendo melhor as coisas. Não posso mesmo comparar as formigas aos pássaros. Não são lá muito parecidos e nem me refiro ao aspecto físico mas muito mais ao temperamento. Claro que já estudei isso! Você acha que eu colocaria em risco o meu nome ao discorrer sobre algo sem base científica? (Não responda).

Mesmo passando aparentemente por maior dificuldade, concluí que ainda assim as formigas são mais ágeis para contornar seus problemas com a chuva. Claro, pense bem: só pelo fato de serem menos neuróticas já levam vantagem. Todos nós sabemos que uma mente tranqüila encontra solução para tudo. Já os passarinhos, ai ai... São nervosos, assustados, qualquer coisinha vira um drama! Em dia de chuva é impossível dialogar com um deles. Nem tente. Por essas e por outras, desconfio de que todo passarinho tem gastrite - ao contrário das formigas. Formiga não tem gastrite - anote aí.

Elas são apressadas sim, mas não histéricas. Todas as suas atividades são sincronizadas e sem desespero. Também não fazem nada “nas coxas”, até porque não as têm. Admiro-as porque trazem sempre um plano B consigo e em qualquer calamidade as coisas já estão planejadas. Ou mais ou menos planejadas. Sendo assim, nunca saem por aí se lamentando ou puxando as anteninhas.

Já notou que dificilmente a gente pega uma formiga de calças curtas? Todas elas já sabem exatamente o que fazer se, por exemplo, a simpática BO-9547 demorar a voltar ou simplesmente sucumbir em sua missão qualquer. A substituta já estará a postos com a botina brilhando, peito tufado e pronta pra tudo. Nenhuma lágrima rolará de seus olhinhos miúdos.

Claro que elas não são insensíveis! Ficam tristinhas com a perda da companheira mas não tem esse lance de luto nem de remoer tudo de novo sete dias depois. E é como eu disse: há sempre uma substituta reluzente a postos. E isso é tão verdade que em alguns casos (digo-o a título de curiosidade) a viuvez não chega a ser percebida pelo cônjuge sobrevivente. E quando é percebida... entenda: todo mundo por lá tem mais ou menos a mesma cara, então a saudade fica meio sem ambiente e acaba desistindo de encher o saco.

Os passarinhos não: são sensíveis demais, afobados, barulhentos! Quando o companheiro morre o outro não quer mais comer, revira os olhos, arranca as penas, quer se enforcar! Um saco. Além do mais eles se preocupam demais com os filhotes, que por conta dessa super proteção não se prestam para nada. São uns inúteis. Os pais passam trocentos anos construindo ninho, mais outro tanto chocando, depois saem aloprados atrás de comida e quando chegam em “casa” está lá aquele ninho de desesperados de bico aberto como se fossem morrer de fome “daquipralí”. Patético.

Formiga faz fila: passarinho faz escândalo.

Como já dissemos, os passarinhos são muito ligados a família - pelo menos enquanto os filhotes são pequenos. Depois disso o número de divórcios é significativo. Já as formigas não estão muito aí para essa coisa de família. Eu diria até que elas não formam famílias: formam exércitos! Entre as fêmeas não se encontra nenhuma Barbie: todas carregam folha e fazem plantão. E comem de tudo.

Observe novamente a BO-9547. É uma batalhadora! Você nunca vai encontra-la lendo “Capricho” nem assistindo “Rebelde”. Ela está lá é pra guerra mesmo! Formiga e formigo tem seus uniformes praticamente iguais, ao estilo Mao Tse Tung. E não tem lance de namorico, puxa-encolhe, “só-dou-amanhã” ou “juro-que-caso”. Com elas é “pá-buf”.

Estranho é que mesmo sabendo disso tudo qualquer um de nós preferiria ter um quintal repleto de pássaros neuróticos do que invadido por formigas em ordem unida treinando para o Sete de Setembro.

As formigas ocupam menos espaço, não fazem barulho e não estragam a pintura de seu carro com cocô. Por que, céus, escolher os pássaros e não a galerinha da simpática BO-9547? Mistério. Mais fácil entender as formigas e os passarinhos do que a estranha raça humana...

Cristina Faraon

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A moça dos pés falantes


Missa de formatura de filho de amigos? Lá estava eu na belíssima Basílica de Nazaré. Fiquei emocionada. Não com a missa.

Em um momento de “santa balbúrdia” causada por cumprimentos mútuos, vi-me forçada a deixar meu lugar e dirigir-me aos últimos bancos da congregação a fim de resguardar minha integridade física. Ali, de “rabo de olho”, observei um par de pernas jovens e morenas, cruzadas e imóveis.

Era uma moça e era pobre. Demorei a conseguir ver seu rosto. Havia pessoas entre nós.Você sabe: nos últimos bancos o que a gente menos vê é missa. Minha mente, inquieta como um gato na coleira, começou a miar pra se soltar. Segurei o que pude, mas o que Deus esperava de mim? Ali, no último banco diante de uma multidão incomodada em suas roupas de festa? Eles também estavam na coleira, mas estavam fora da minha circunscrição. Não dei liberdade ao gato; ele se soltou sozinho. Aí começou.

Eu e minhas impressões... Depois viriam as certezas. É sempre assim.

Aquela moça... Certamente para ela aquela cerimônia tinha maior significado. Pelo menos em relação a minha pessoa.Vestia roupas visivelmente baratas. Nas unhas, esmalte de quinze dias pelo menos. Os cabelos também não receberam cuidados especiais para o evento. Isso tudo vi alguns minutos depois, porque até então de onde eu estava apenas conseguia enxergar parte de suas pernas cruzadas e pés. Decidi conhece-la a partir daí.

Seus pés falavam, e muito. Contaram-me da exigência de seu coração, que a arrastou até aquele lugar naquele estado. As sandálias eram empoeiradas e gastas. Eu mesma não iria nem na esquina comprar pão usando aquilo. De fato seus pés não sabiam o que era creme hidratante há bastante tempo. Eram desertos morenos que no entanto falavam, me olhavam e sorriam. Entre um “amém” e um “glória a vós, Senhor” aquela discreta inconfidência; eles falaram de sentimentos, vida difícil, carinho sem fim, noite mágica. Seu corpo eu não via, mas seus pés conquistaram minha afeição.

Aquela moça nunca estaria ali se não tivesse jogado pela janela do ônibus toda a sua vaidade antes de chegar. Eu disfarçava mas volta e meia a olhava novamente.Claro que foi seu coração que pediu! Os pés confirmavam que sim e diziam que o romantismo daquela formatura somado ao romantismo de sua idade foram fortes demais, a ponto de nada mais importar. Ela queria estar lá fosse como fosse e ver com seus próprios olhos, chorar sozinha, agradecer a Deus e sentir aquela felicidade opressiva que nos toma tão poucas vezes na vida.Não era a sua formatura, mas de certa forma aquele parecia ser o seu grande momento. Ela estava ali por alguém. Quem? Um irmão? A prima? O pai? Namorado? A melhor amiga? Quem sabe? Eles não me disseram.

A princípio acreditei que sua coragem de deixar-se ver tão despojada viria do fato de ser bonita. Claro, porque uma mulher jovem e bonita sabe tem perdão para quase tudo; qualquer saco de batatas ficaria bem ou não seria percebido, pois a pele necessariamente impecável se imporia acima de tudo. Sim, ela sabia disso porque toda mulher nasce sabendo de coisas assim.

Ah, minhas certezas...Imaginei então um rosto moreno de pele lisa e levemente suada, olhos grandes e negros, boca fresca desdenhando de batom. Nenhuma jóia. Em minha mente ela já era a personificação da saúde, selvagem e impressionante como a floresta amazônica. Cintura fina, quadris imponentes: uma flor d’água, uma índia paraense.

Nada disso. Quando pude ver seu rosto constatei que a seu favor ela só tinha a juventude e a altura, nada mais. Mas amava! Séria e feliz - como quem? Como ela, somente.

A moça dos pés falantes chorava sem parar e também sem contrair o rosto - arte que jamais consegui dominar. Só pude notar que ela chorava pelo movimento das mãos, que levou ao rosto várias vezes para tirar da rota uma, duas, várias lágrimas. Ela o fazia lentamente, sem preocupação alguma em esconder que chorava. Apenas não queria estar com o rosto molhado. Ela era alta e nesse momento me pareceu mais alta ainda. Mais que todos.

Não era a única pessoa feliz ali nem a única emocionada. Mas só ela saiu de casa, pegou um ônibus com aquela roupa e aquelas sandálias surradas e pôs-se ali, na Basílica de Nazaré, com a cabeça erguida de quem sabe que tem todo o direito de estar lá. Ela simplesmente não poderia ter deixado de ir. Pelas lágrimas e pelos pés vi que aquele momento era tudo pra ela.

É certo que não chorei, mas não a esqueci tampouco.

Cristina Faraon

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O laranjinha


O mar pode ser comparado a um tipo de céu assim como o céu é um oceano sem fim. As aves são seus peixes. Escamas e penas são só detalhes.

Sempre achei que os peixes fossem as aves do mar. No caso dos peixes pequenos e coloridos, sem dúvida que são as borboletas do mar.

Mas não falaremos hoje sobre as borboletas mas aqui vai uma dica: elas são apenas flores que não conseguem ficar paradas.

Voltemos aos peixes. Regra número um: é terminantemente proibido comer peixes coloridos. Certa vez comi um. Sem querer - registre-se.

Foi no ano que fugi para a Praia Secreta. Nem procure no mapa porque não consta. Em lá chegando segui de canoa para uma pequena ilha não muito distante. O som mais alto que se ouvia por lá era o “creu-créu” das aves. Ninguém merece ouvir “creu-créu” o dia todo, então fui nadar. Nadar é preciso.

Era como se eu mergulhasse em vidro líquido. A água não era fria nem quente. Minha alma aquática adaptou-se àquele meio rapidamente.
Nadei com uma desenvoltura incrível e quanto mais eu nadava mais energia havia para seguir adiante. Então fui mais fundo, mais longe, mais fundo e mais longe. Era tudo tão lindo que, instintivamente, prendi a respiração. A respiração, por sua vez, não queria mesmo sair. Ficou lá em suspenso, grudada em meus pulmões implorando por não ser respirada. Tudo bem. Deixemo-la. De maneira semelhante meus olhos se comportaram, recusando-se a piscar.

Bem, lá estava eu totalmente em alerta e hipnotizada com o que via. Talvez ali fosse o Reino das Águas Claras do qual falava Monteiro Lobato. E a gente pensando que o velho estava delirando. Vejam só como são as coisas...

Acho que fiquei uma "pequena eternidade" sem piscar ou respirar. Cardumes e mais cardumes rebolavam em minha frente naquele exibicionismo silencioso tão próprio dos peixes, desdenhando aplausos. Havia a tribo prateada, a preta, a dourada, a pintada, os redondinhos, os esguios... Não vi os quadrados. Certamente são tímidos.
Nenhum queria conversa comigo mas dançavam e dançavam, ensaiadíssimos! Vi também pedras, corais... e uma enorme quantidade de “troços-sem-nome” delicadamente arrumados aos lado de “coisas-sem-registro”. Tudo muito estético. Dos cantos de algumas pedras brilhosas cresciam lindos “o-que-que-é-isso!” para o deleite dos visitantes. No caso, eu.

Distraída, eu quase dava de encontro com um “ai-jesuis”. Virei de repente, ainda a tempo. Foi quando me deparei com um cardume de colorido hipnotizante. Estavam parados me olhando com uma expressão indefinível, talvez se perguntando, lá com suas guelras: “avançar ou recuar?”

Acostumada aos movimentos dançantes das criaturas aquáticas, assustei-me com aquela imobilidade. No susto cometi um erro fatal: abri a boca e “puxei o ar” como fazemos quando ficamos surpresos. Os peixes são mais discretos em seus sustos: apenas dão meia volta e tiram o cardume de campo. Pois é: foi nesse momento que engoli, sem querer, um pequeno “laranjinha”. Pelo que lembro de seu tamanho, deveria ser um adolescente cheio de vida...

Jamais me perdoei. Eles também não me perdoaram. O fundo do mar tem seus encantamentos e códigos de ética. Esses lances de “fui mal” ou tirar a bronca acendendo velas, simplesmente não funcionam por lá.

O castigo: fiquei três anos sonhando em preto e branco. Três anos!

Para que você jamais passe por isso deixo aqui esse alerta: nunca, jamais, mas nunquinha mesmo, coma um peixe da tribo colorida. E na dúvida, não coma borboletas também.

Cristina Faraon

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

"Chan Chan"


Esse é o apelido da chinezinha mais gracinha do mundo. Pelo menos para mim.

Os olhos são obviamente apertados e bem negros - como duas amêndoas de ônix. E o cabelos, beeeeem lisinhos. Por determinação superior (ou seja: minha) hoje são cortados no estilo “chanel” bem curtinho. Tipo “melindrosa”. O corte alonga o pescoço de forma graciosa e o efeito é chiquérrimo.

Boneca-souvenir.

É magra - não come muito. Sendo assim, tem perninhas finas. Só as pernas não - ela é toda fininha. A gente tem até a impressão de que pode quebrá-la facilmente, assim como quebramos o macarrão cru apara que caiba na panela de água fervente. Mas claro: ninguém faria isso com a Chan Chan!

Ela deve ter uns seis anos. Eu acho. E não conheceu os pais naturais. Viveu sua pouca vidinha em um orfanato no interior da China. Bons ventos a trouxeram.

Acho que já disse aqui que não sou muito fã de meninas pequeninas. Sempre gostei mais dos meninos. Meninas são mais legais quando já são mocinhas. Mas a Chan Chan é um caso àparte. Não fui atrás, não a escolhi. Veio trazida pela mão de uma amiga e eu me apaixonei.

Você sabe: a gente não escolhe por quem vai se apaixonar. Também não se prepara para o momento fatal. Quando vê, já era. Foi assim.

Ela estava com um vestidinho “tubinho” de gorgorão amarelo. Assim, numa primeira olhada me lembrou um abajur. Abandonei logo a idéia porque lembrei que os abajures não lambem pirulito e ela estava atracada com um e seu jeitinho era distante e satisfeito - “o mundo que se acabe!” - pude ler em seus pensamentos.

Por que estava arrepiada? Acho que esqueceram de penteá-la, porque ela não tinha a aparência de quem andou pulando por aí.

Minha amiga e eu ficamos conversando na sala. Ela me contou a história da chinesinha: que estava ali “emprestada” mas que deveria ser devolvida ao seu responsável: o Estado.

- Hmm... Precisa devolver mesmo?
- Gracinha ela, né?
- Não vai ficar com você?
- Não posso! Você sabe a minha vida como é.
- Mas não dá peninha de devolver?
- Dá. Mas é assim mesmo. Vou visita-la de vez em quando. Ficamos amigas!
- Será que ela ficaria comigo um final de semana?
- Acho que sim. “Você gostou da tia, Chan Chan?”

Ela não respondeu nada mas li seus pensamentos de novo: “prefiro meu pirulito!” Perdoei e coloquei-a sobre meu colo. Era leve como o Nepomuceno (meu cachorrinho inanimado, lavável e anti alérgico) .

Menininha de isopor e cabelo arrepiado...

Demorou um bocado até ouvirmos sua voz. Demorou também para podermos vê-la pulando e perseguindo a Lucrécia (minha gata animada, pouco lavável e altamente alérgica).

Só sei dizer que a Chan Chan foi ficando, ficando... E já tem um monte de vestidinhos no armário. E Melissas coloridas também.

Garanto que é a chinesinha mais fashion das redondezas.

(Galera, isso é só uma fantasia, tá? Vocês já deveriam estar acostumados com meu jeito assim, meio delirante.)

Cristina Faraon

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Quando acontecer


Quando você vier não será tarde demais, mas assim vai parecer.

Será em um dia-noite de céu cinzento, muito cinzento e ar pesado. Calor e frio em mistura opressiva, como febre. Frio por dentro, calor por fora e nenhuma roupa do mundo que amenize esse desconforto.

Hoje o mundo todo tem febre. A Terra está ébria.

A ninguém importa se é dia ou noite; o tempo já não se conta mais dessa maneira; os parâmetros estão desregulados - tanto o das estações quanto o da vida e morte e tudo o mais. O escuro e o claro vez por outra se chocam nessa estranha subversão de todas as coisas.

As pessoas não são confiáveis. Não porque não queiram, mas por estarem deixando de ser pessoas (no sentido mais doce do termo). E no mundo das coisas não há conceitos de moralidade. Aliás, não há conceito algum.

Os relógios não são morais. Talvez por isso estejam se transformando em deuses.
Mesmo amorais há o consenso de que são as únicas coisas confiáveis ainda existentes - embora ninguém se sinta reconfortado por isso. Como são quase deuses, todos os dias olhamos reverentemente para eles, nem que seja uma vez apenas. Ninguém sabe explicar exatamente por quê. Virou uma espécie de ritual. É estranho não fazer... e assustador quando um relógio para.

Os seres, andróginos.

As mulheres há muito deixaram de ser consideradas “caça”. Não são muito amistosas. Pisam duro e por questão de segurança mantêm-se magras.

Nossos homens-meninos são reprodutores assustados e também sozinhos. Geralmente trazem tatuados pelo corpo alguns símbolos representando força. Inutilmente.

As pessoas dormem atormentadas e sonham coisas inquietantes. Dizem que esses sonhos se devem a “memória genética”. Foi feita uma pesquisa e constatou-se que praticamente todo mundo tem sonhos recorrentes que guardam grande semelhança entre si.

As mulheres, geralmente, se vêem em invólucros úmidos, encolhidas como bebês no útero. Ouvem sons musicais profundamente emotivos e acordam chorando convulsivamente.

Os homens sonham com mulheres diferentes: roliças, meigas e comestíveis. Lembram as mulheres de hoje, mas parecem estar em etapa evolutiva anterior. Então acordam angustiados, sentindo saudades daqueles seios, coxas e carnes das fêmeas. Sentem uma falta angustiante de algo que foi posteriormente definido como aconchego.

Nos sonhos masculinos as mulheres tem um cheiro específico. Sabemos que isso não existe! Todas as pessoas tem o mesmo cheiro, independentemente da idade e do sexo.

Há também entre nós pessoas delirantes que afirmam ser isso causado por “espíritos inquietos” que se dedicam a atormentar os humanos com essas saudades inexplicáveis. Só não explicam bem o que seriam os “espíritos”. Mas todos sabemos o que é esse “inferno virtual”.

Por essas e por outras, as mulheres que ainda trazem características físicas que não evoluíram são mantidas em recolhimento como medida de egurança.

Há várias crianças gagas. Algumas são como gatos: ariscas e sobressaltadas. Muitas outras são hostis.

Bichinhos tristes.

Os bichos, todos eles, andam em bandos. Não como antigamente; os bandos de hoje evoluíram para uma coisa que forma quase que um corpo só; são absolutamente coesos e impenetráveis. Os bichos lembram as crianças as vezes... Estão sempre assustados.

A grande angústia dos humanos desse século é a total incapacidade de se proteger em bandos. Todos tem medo de todos; todos desejam ardentemente companhia e abraço ao mesmo tempo em que isso parece arriscado demais. Desejam com a alma, com o fígado, com os rins, mas não conseguem. É uma espécie de fome emocional.

Ninguém sabe onde andam as mães. As mães sumiram do mundo, dando lugar às atuais fêmeas agressivas da espécie humana. Seios secos e mãos crispadas.

Aí você aparece. Ninguém mais estava esperando.

Você é terrível, magnetizante. E assustador de tão lindo. Em nosso mundo, nada que tenha sido lindo sobreviveu. Se existe o belo absoluto, você é a personificação.

Cabelos! Por que seus cabelos são compridos e de negritude tão profunda? Seu olhar é assustador! Emana uma coisa estranha. Parece “paz” ou algo assim. Mas paz é uma coisa perigosa demais. Temos medo! Sempre que nos disseram “há paz!” catástrofes aconteceram em seguida.

A ameaça trazida pela paz é velada. É a calmaria antes da tempestade. Hoje a paz é prenúncio de morte, de lâmina fina perfurando o umbigo. Você é perturbador em sua paz e beleza estonteantes. Temos medo de você, muito medo.

Por que sorri? Por que nos olha assim e sorri?

Quem é essa criatura que sorri?

E todos fogem do seu sorriso pois uma pessoa sem medo traz consigo morte. Tem sido assim.

Mas você vem, implacável e sem armas na mão. Para onde podemos fugir?

Estamos todos armados;
Armados e sujos;
Sujos e famintos;
Famintos e amedrontados;
Amedrontados e suplicantes
E tão cansados!

O que você quer? Diga logo!

Quer nossa carcaça? Nossas mulheres? Foi você quem desconfigurou nossas mães e secou seus seios? Foi você, Criatura Sem Nome, quem domou nossos heróis e os atormentou com saudades e terrores? Você é o tal “espírito” de quem falam os velhos?

Que é você que vem de cima, que vara as nuvens, que faz tudo explodir em cores? Quem é você, que pára os nossos relógios sagrados? Por que vem acompanhado de música e arcos celestes? Por que nos comove? Não sabe que não podemos chorar? Os predadores estão a espreita!

Quem é você? Por tudo o que é mais sagrado, diga-nos seu nome! O que exige de nós? Nossas armas enferrujadas? Nossas frutas mirradas tiradas a fórceps de terras estéreis? Crianças mudas? Mulheres ressecadas?

Quem é você, que nos assusta com essa glória, esse riso, esses sons estranhos que nos fazem chorar?

Por favor, vá embora! Retire-se de nós! Volte para o seu mundo!

Nossos pesadelos agora serão outros. Vimos você, que é tudo o que nossa alma mais deseja. Você é o resumo de tudo, a explicação, a fórmula, a revelação do mistério, o princípio e o fim de todas as coisas.

Vamos sonhar com você para sempre: homens e mulheres. E a saudade do Belo Pleno nos atormentará para sempre.

Não se aproxime, não nos olhe assim. Nós temos medo de tanto amor!
Cristina Faraon


segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O outro lado da moeda


Dia desses fiz uns comentários sobre palhaços, lembra? Ao final prometi fazer revelações sobre os palhaços do mal. Pois aqui estou eu, cumprindo a promessa com o risco de minha própria vida.

Sim, eles existem e nesse exato momento acho que estou sendo observada. Digo isso porque sinto pelo menos um par de olhos cravados em minhas costas. Ui!

Se eu desaparecer sem mais nem menos vocês já sabem. Vou logo adiantando: deixo meus bens para os amigos e as dívidas para os inimigos. Justa divisão, né?

Mas vamos lá: a maldade dos palhaços dessa estirpe é patente e invisível ao mesmo tempo. Alguns poucos “agraciados” percebem o perigo ao redor, o clima pesado, mas ninguém lhes dá ouvidos. A história se repete: um pobre-diabo saca tudo, perde a paz e, mais tarde, a sanidade - mas ninguém acredita nele.

A propósito: você tem ouvido vozes ultimamente? Sente-se perseguido? Ainda não? Tudo bem.

Olhos gélidos e ensandecidos... Se você notar, prepare-se para se sentir sozinho no mundo e, de quebra, ser chamado de louco. Conforme-se em ser a voz do que clama no deserto. Crianças desaparecerão e apenas você conhecerá a verdade. E eles sabem quando alguém sabe deles. Sendo assim, eles sabem que você sabe mas você não sabe se eles sabem que você sabe. É angustiante.

Olhe bem para o palhaço mais próximo. Você nota em sua roupa uma pequena mancha cor de vinho? Claro que não é vinho, seu tonto! É sangue velho, ressecado.

E se a mancha não for cor de vinho, mas vermelho vivo? Pior ainda: é sangue novo!

Mas e se ele estiver com as roupas perfeitamente limpas, como que acabadas de sair da gaveta? Mal sinal. Deve ter acabado de estrangular alguém e ainda agora precisou trocar de roupa às pressas. Se você for verificar seu cesto de roupas sujas verá as evidências. Você tem coragem de entrar em seu esconderijo - digo, camarim - durante o espetáculo?

E se as roupas não estão recém-saídas da gaveta, não tem mancha escura nem clara? Aí é de se desconfiar de que ele ainda não realizou seu intento, mas está armando... Fique alerta!

Quando ele olha para você e vê que você está olhando para ele, ele parece tenso? Desvia o olhar? Ou sorri cínico? Parece desconfiado ou estressado? Os palhaços do mal estão sempre estressados. Só a maquiagem ri com aquele colorido grotesco. Aquelas sobrancelhas negras e tenebrosas, as unhas sujas, o chulé inconfundível...

Aquela bola vermelha no nariz é para desviar o olhar da direção dos lábios, pois os lábios os denunciam. Eles não conseguem disfarçar que por detrás da maquiagem a boca se contrai involuntariamente em um esgar estranho e assustador. Não conseguem controlar isso.

Sumiu alguma criança esses dias? Alguma solteirona “mudou-se” de repente? Uma vovó que morava sozinha foi “visitar a família” e não voltou mais? Um mendigo abandonou seu ponto? Aquele gatinho chato nunca mais miou em sua janela? E o que foi feito dos peixinhos da vizinha? Hummm...

Seu sobrinho quer ir ao circo. Ele está encantado com o “simpático” palhaço e suas brincadeiras sinistras. Não, seu sobrinho não sacou que são sinistras, só você, Mané! O pirralho chama aquele espantalho de tio, quer ir ao camarim pra ganhar um brinquedo e quer usar roupas iguais às dele. O que fazer? Desespere-se.

Vamos ser justos: o palhaço do mal não nasceu assim. Ele teve uma infância triste, sofreu abuso de todo tipo, passou fome e frio e era humilhado pelos meninos ricos. O pai bebia e era violento. A mãe era safada e apareceu morta sem mais nem menos em um terreno baldio, com roupas mínimas. Essas coisas, sabe? Se eu contar tudo você chora.

Tudo bem, ele não tem culpa de estar com a mente detonada por situações destrutivas, mas tá com pena? Leva ele pra você!

Aquela criança magrinha e sofrida tornou-se um ser irrecuperável, meu amigo! É uma alma atormentada por pesadelos e estranhas fixações. E o pior de tudo: está solto no mundo, posando de bonzinho com seu riso nervoso. É, ele não tem culpa de ter virado um monstro colorido - mas seu sobrinho não precisa pagar por isso!

Só existe uma solução: essa alma disforme precisa ser eliminada. Precisa! Essa é a sua missão na terra. Se você não fizer nada, cabeças vão rolar. Não adianta explicar para a polícia - vão acabar te mandando para um manicômio pra se alimentar de pão e água para o resto da vida e tomar choques elétricos aos finais de semana. E o pior: de pijama listrado. Não, fora de cogitação pedir ajuda. Você precisa resolver isso sozinho.

Coragem, amigo. O serviço precisa ser feito o quanto antes.

Onde você guardou mesmo aquela faca?

domingo, 8 de julho de 2007

Brincadeira das sete horas


Agora deitei e fechei os olhos. É aquela preguiça das sete horas da noite. Aquela, antes de a gente resolver tomar logo o banho. Não vou dormir. Não é hora de dormir.
Eu gostava de ficar assim, sozinha, desde quando ainda era pequena e ninguém que eu amava ainda havia morrido.

Fecho os olhos e entrego-me àquela brincadeira gostosa de "fazer de conta". É fácil. Basta ficar quietinha e se concentrar. Você manda em sua mente e ela lhe leva para onde você desejar e para a época que você quiser. Basta querer muito, mas muito mesmo. Adicione um bocado de saudade e melancolia que tudo funciona melhor.

Faz-de-conta que sou criança. Sim, sou pequena e estou deitada na cama dos meus pais. Não é hora de dormir. Ainda não jantei. Mamãe vai me chamar daqui a pouco.

(Está funcionando!)

A luz do quarto está apagada mas a da sala está acesa e clareia parte do meu corpo sobre a cama. Tomei banho há pouco. Sinto o cheiro gostoso da sopa que mamãe está fazendo. Sinto-me querida e segura. Meu vestidinho está limpo, estou penteada e a cama dos meus pais é tão cheirosa! O quarto está em ordem e sinto também o cheiro do chão recém encerado junto com o da sopa, do meu vestido, dos lençóis. Sinto um aconchego dentro de mim, uma coisa gostosa me oprimindo o peito. Quase dói. Acho que é felicidade.

Meu pai saiu agora do banho. Ele entra no quarto com uma nuvem de aromas úmidos. O vapor da água quente chega a mim quase como um carinho, quase como um ser vivo. Reconheço seu sabonete e, de olhos fechados, vejo-o enrolado na toalha. Ele me parece uma pessoa enorme. Seus cabelos escuros e cheios estão ainda ensopados. Ele está cansado do trabalho mas feliz, faminto e em paz. O mundo lá fora não existe e ele me ama. Não abro os olhos mas sei que ele é o homem mais bonito do mundo. Sua voz está dentro de mim mesmo quando calado.

Continuo assim, deitada e vendo tudo mesmo com os olhos fechados. Ouço ele abrir o vidro de colônia. Cai um talher na cozinha. Meu irmão fecha a gaveta.

Chegou uma visita que vai jantar com a gente. Minha mãe sai rapidamente da cozinha - ouço seus passos - e vai receber a visita.

É uma mulher. Sei que minha mãe vai me chamar para cumprimentá-la mas eu não quero. Quero ficar aqui, assim, sentindo o meu mundo, adivinhando onde está cada pessoa, o que estão fazendo e sentindo a paz de cada uma delas. Sei que meu irmãozinho está quase dormindo e que minha irmã brinca com as bonecas.

Daqui as pouco vão me chamar. Daqui a pouco terei de beijar a visita. Daqui a pouco iremos jantar. Mas está tão gostoso aqui, na cama do papai! Ele penteou os cabelos... escuros, molhados. Ele fala alguma coisa na sala. As pessoas estão rindo. Acho que eles estão falando das crianças - falando em nós! Acho que somos muito importantes.

Que gostoso! Quero ficar mais tempo aqui.
Que saudade! Que sopa cheirosa...

Sei que falta pouco.
Vou contar: um... dois... três... quatro...


Cristina Faraon

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Carolina


Carolina pertencia à estirpe rara das mulheres que amam pra sempre.

Ninguém eterniza um amor no peito por querer. Antes de ser virtude, isso é uma fatalidade. Acho que Carolina nem tentou se livrar do inquilino de seu peito. Nunca notei que estivesse incomodada com a dor. Ou sua esperança era invencível ou não tinha noção de muita coisa nessa vida. Não sabia nada sobre juventude, velhice, morte, passar do tempo, novo amor, prazer, aventura, filhos, oportunidade. Nenhuma dessas idéias mudou o rumo de sua vida.

Acho que o que Carolina não possuída era mesmo noção de tempo.

Minha curiosidade levou-me a ouvir as várias histórias que contavam a seu respeito. Todos acreditavam saber quem foi o rapaz que a conquistou tão irremediavelmente e depois sumiu no mundo.

Mencionaram o filho do Dr. Durval - rapaz claro, muito bonito mas franzino e sem vontade própria. Sem cabimento. Também ouvi algo a respeito de seu primo, o qual foi recebido certa vez pela família e passou o período de um ano a se curar de mal do pulmão. Eram como irmãos, dizem. Uma vez curado foi-se embora deixando-a doente de amor. Talvez, talvez. Ouvi até dizer que foi um homem casado, militar, que teria conseguido bem mais que olhares lânguidos da doce Carolina. Falaram também em um padre, um caixeiro viajante... Ninguém sabe ao certo e ela mesma jamais se deu ao trabalho de explicar. Não falava sobre seu amor. Apenas as pessoas o liam em seus olhos, seus gestos calmos e seu quase-sorriso.

Há quem diga que jamais deixou de ser virgem.

Carolina era uma morena clara de jeito cândido. Não falava muito e nunca parecia estar apressada. A expressão de seu rosto era a de uma pessoa que guardava sempre um segredo. Com a convivência essa impressão desvanecia, principalmente porque seu dia-a-dia pacato não deixava margem para fantasiarmos mistérios.

Só lembro do dia em que a conheci, mas não lembro bem de como me aproximei e nos tornamos inseparáveis. Quanto ao meu amor, origem e fim, ainda hoje desconheço.

Não sei muito do passado de Carolina, mas sei de sua alma, seus gestos calmos, do ritmo de seu coração. Éramos amigos e eu a amava. Seu coração, um mistério. Mas ela me sorria, deixava-se amar e isso bastava.

Seus cabelos eram encaracolados castanho escuros com umas mexas douradas que mais claras ficavam sob o sol. Os olhos eram de puro de mel com cílios enormes e densos. Quem a observasse ficaria preso aos seus olhos, sem dúvida. A muito custo escorregaria o olhar para o nariz e boca, os seios pequenos, os quadris de menina.

Não era volúpia, mas uma flor. Não vulcão, mas lampejos alaranjados de sol de fim de tarde, sol morrente, primeiros ventos noturnos.

Fiz de tudo: flores e favores. Promessas mil. Dei-lhe versos, músicas e meu silêncio. Com esse último a cativei. Mas nada a fazia esquecer o que houve. Nada a fazia falar. Carolina - dócil e distante, presente e inalcançável, que no entanto deixava-se abraçar.

Todas as músicas do mundo e todas as flores estavam no cheiro de seus cabelos quando ela recostava a cabeça em meu peito. Eu era capaz de ficar horas, toda uma vida deixando esse cheiro passear dentro de mim e me acariciar por dentro. Nesses momentos todas as palavras se tornavam sacrílegas. Eu era capaz de traze-la nos braços para sempre, suportar seu mistério e olhar perdido apenas para tê-la assim, com a cabeça recostada e sem ouvir meu coração.

Não fomos a mil festas, não dançamos mil quadrilhas nem pulamos mil fogueiras na época de São João. Jamais ela foi Colombina ou bruxinha de Halowen. Seu mundo era o dos sons distantes e das luzes tremeluzindo. Nada que fosse frenético a encantava, pelo contrário.

Contei sozinho as estrelas. Localizei solitário constelações escondidas naquela areia de astros do céu do interior. Cantei e contei histórias não para ela, mas para acalmar meu coração, para dar vazão a esse vulcão de mel dentro de mim - vulcão por ela inaugurado e mantido. Ela nada pedia. O som de minha voz a acalentava independentemente do que eu dissesse. Isso lhe bastava e passou a me bastar também.

A vida passou na janela. Eu vi. Eu estava ao lado de Carolina por todo esse tempo. Ela fechou a janela. Permaneci ao seu lado, ao lado de seu coração mas fora dele.

O tempo também passou, mas ela não reparou. A janela já estava fechada. Eu ouvia sons e tentava despertar sua curiosidade para a vida. Não me parecia que tanto frescor pudesse conter-se por muito mais tempo naquele corpo querido. Mas coube. Depois esvaiu-se para sempre.

Carolina viveu um eterno presente, o que a impediu de sentir seu próprio envelhecimento. Sua alma, sua dor, tudo ficou preso naquele dia sem fim. Falei em amor, falei em luar, em flores. Evoquei todos os lugares-comuns da paixão. Falhei. Deveria também ter-lhe falado no tempo, que só sabe ir.

Em algum lugar ela está agora, ainda presente, como um lindo lago, profundo como a dor do amor. Morri nesse lago. Morri longamente naquele presente eterno de Carolina. Ainda assim não lembro de jamais ter sido tão feliz.

Cristina Faraon

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Vai acontecer

Um dia você vai acordar e se levantar depressa demais, refeito demais.

Pela primeira vez vai conseguir ouvir todos os sons do mundo, tudo ao mesmo tempo, numa sinfonia alucinante.

Não há mais “barulhos”, mas sons que, estranhamente, convivem com o silêncio. Eles não são mais contrários. É como que se beijassem apaixonadamente. Fizeram as pazes!

O silêncio será quase palpável e cheio de significado. Você distinguirá perfeitamente as duas coisas e isso não lhe parecerá estranho. Aliás, aos poucos tudo vai se “desestranhando” diante de seus olhos, como um enorme novelo que se desembaraça.

Todas as perguntas que lhe inquietavam estarão respondidas de uma só vez. O entendimento total entrou em você como bola de fogo e as questões simplesmente desintegraram-se. Todas.

Tudo é agora tão obvio! Quais eram mesmo as suas angústias? Não importa, não importa mais. O certo é que a verdade está estampada, brilhante como o sol, despida de qualquer dubiedade. Tudo faz sentido.

Que dia é hoje?

Você entende com clareza porque e para quê nasceu, o motivo das guerras, das dores, das alegrias voláteis , galáxias... o escuro, o frio, o sol, a água, a morte, a saudade, o amor, a dor, o ódio, o êxtase, bondade, maldade...

Todas as coisas são apenas os braços sinuosos do mesmo rio - A Verdade.

Claro, claro... não poderia ser de outra forma! A noite segue-se ao dia e o dia à noite e tudo canta em seu próprio ritmo que, no entanto, juntando-se aos demais, forma um “tudo” do qual você é parte integrante e bela.

Agora você nota os bilhões de tons de cores dançando à sua frente. Cores novas e indescritíveis! Nuances deslumbrantes que jamais havia notado - e ainda assim o mundo continua o mesmo. O mesmíssimo mundo onde você nasceu. Tudo parece familiar e novo ao mesmo tempo. Todos os contrários coexistem de maneira inimaginável até pouco tempo atrás.

Como você não reparou nisso antes? É claro que o mar fala. Ele canta em tons graves - agora é possível ouvir. Tudo tem som.

Há som nas pedras e no orvalho, no arrastar sedoso das nuvens, no apodrecimento da fruta no chão, na ovulação das mulheres, no momento do enamoramento, na formação dos cristais, na dança dos vermes, nas decomposições, nas carnes mortas despregando dos ossos, na pétala que se desabraça da flor.

Algumas coisas falam, outras gritam e várias outras cantam. O fato é que tudo é som, luz e vibração. É possível ver e até contar todas as formas de vida que cabem em uma gota de água. Basta aproximar os olhos e tudo fica nítido, perfeitamente visível. É ´só aproximar os olhos e fixa-los em qualquer ponto, que toda a constituição do que você estiver olhando se descortina como um livro que se abre ao vento.

Por algum motivo essa beleza toda não oprime seu coração, não se transforma em nó na garganta, em pele arrepiada, tremor ou lágrima. Pela primeira vez você conheceu a beleza em estado bruto e mesmo assim não é possível perceber em si mesmo manifestação física alguma.

A princípio tudo isso é muito instigante. Impossível dizer quanto tempo você passa discernindo todas as combinações que compõe o universo ou deslumbrando-se diante de todas as formas de vida.

Tudo é forma de vida.

Aos poucos... uma sensação nova: uma saciedade jamais experimentada até então: saciedade de vida e de conhecimento. Tudo foi visto, rebuscado, percebido, analisado, entendido, decifrado. Um vento cálido passa ... através de você. E você entende o que ele diz, o que sem pressa lhe propõe.

Você é chamado a algo mais. Uma inquietação semelhante a uma nova curiosidade lhe impele a seguir adiante. Você ainda não sabe onde fica o "adiante" mas não há pressa - só pendor.

Então, saciado, você novamente olha em volta. Por algum motivo percebe e sente e sabe e vê que não faz mais parte. Precisa seguir. É inevitável seguir. Há um tipo diferente de magnetismo doce e irresistível. Você vibra pelo que, de alguma forma, sabe que vai acontecer. Sabe que é bom e está além, muito além.

Aos poucos você é tomado pela convicção de que o mundo todo se repete ... repete... repete... e assim será para sempre.

Alguma coisa mudou?

Você está destoando; não faz mais parte dessas coisas! Você precisa mesmo ir, quer muito, a ponto de começar a se inquietar.

De fato você se levantou rápido demais, leve demais...

Cristina Faraon
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O cãozinho Azul

Uma historinha pra contar para a Clarinha quando ela crescer.

O cãozinho azul nasceu branquinho branquinho, como qualquer coisa branquinha-branquinha que você conheça. Recém-nascido, em meio aos olhares sádicos das crianças, forraram sua "manjedoura" com trapinhos e pedaços de papel crepon azul, já que era um menininho. Também para dar um ar mais festivo à ocasião.

Às crianças foi ordenado que não o tocassem e que se o ímpeto fosse por demais intenso, pelo menos canalizassem sua maldade original para a Barbie velha que a maninha não queria mais. Como sabemos, Barbies velhas deixam de ser frescas e topam qualquer parada.

O cãozinho branco, mole e úmido como uma meleca, logo aprendeu a revolver-se na "manjedoura". De tanto fazê-lo o azul do papel crepon mudou-se para os seus pêlos, o que foi anunciado como misteriosa mutação. Só que a mutação não passou incólume pelo scanner da dona Maroca, babá severa e experiente, que desfez a aura de mistério esfregando na cara dos pasmos espectadores  os restos do crepon totalmente desmilinguido.

Ao contrário do que era de se esperar, com o passar dos dias a cor não se desfez, pelo contrário: atracou-se ao cãozinho indefeso como teimosa entidade, uma espécie de encosto que resolveu habitar aquele corpinho, só que pelo lado de fora. Ninguém se animou a exorcizá-la, então ficou.

Nenhum outro nome seria mais acertado - resolveram - do que simplesmente "Azul". Assim veio ao mundo, para deslumbramento da família Lima, o cãozinho Azul.

Foi essa a história que lhe contaram e recontaram dezenas de vezes ao longo de sua vidinha. Era curioso quanto às suas origens, como toda criança adotada. Não falaram em pai nem em mãe pois, espertamente talvez, quando chegavam no ponto em que contavam como ele se tornara azul, sua curiosidade por outros detalhes se esvaía completamente. Então ele se deslumbrava com sua peculiaridade como sendo um indicador de nobreza.

Milagre ou falta de banho? Ninguém sabe ao certo. O mistério permaneceu e todas as vezes que ele refazia a pergunta a história era recontada com uma pontinha a mais aqui e ali, de forma a ser sempre nova. Assim, o "detalhe" pai e mãe ia ficando pra depois. Se ele continuasse perguntando, decerto acrescentariam que ele caira do céu.

Ninguém quer ver um cãozinho infeliz. E que mal há, me digam, em fazê-lo acreditar que era diferente e especial? Afinal não era mesmo verdade?

"Que lindo cãozinho sou eu! Relíquia da família Lima! Invejado por todos e muito simpático. Totalmente azul como ninguém mais no mundo. Talvez algum marciano... mas aqui na Terra não tem pra ninguém. Vou ter 20 filhotes, com todas as cores do arco-íris acrescentadas de suas nuances, para não repetir." E assim passavam-se os sóis e as luas.

Se formos ser bem sinceros, Azul não possuía dons especiais: não sabia imitar gato, não se fingia de morto, não "quase falava" nem pulava argolas incandescentes. Era um cão, digamos, basicão - sem trocadinho. Mas também não era cobrado nesse sentido. Ao observar os dons de seus amigos ele concluía com seus botões:  "E  quem precisa aprender truques se tem os pêlos azuis?  Isso deve bastar!" - pensava ele. E pensava bem, porque bastava.

Sua vida transcorria simples e divertida, sem novidades ou emoções aflitivas. Daí, talvez, sua saúde e bom humor. Porque se não sabia fazer truques, pelo menos sabia sorrir, e sorria! Para os transeuntes, para os vizinhos, para as crianças quando acordavam, para todos.

Certa vez, passeando com seu dono, Azul notou que outros cães eram igualmente afortunados. Recebiam carinho e atenção, passeavam regularmente, comiam bem todos os dias e ganhavam cafunés.  Pior do que isso: ele mesmo não chamava a atenção dos outros cães. Eles o cumprimentavam com educação: Bom dia! Boa tarde! Boa noite! - mas não lhe direcionavam nenhum olhar especialmente curioso. Mas como? Ele era ímpar!

Certa vez uma cadelinha lhe lançou olhares insistentes que o fizeram colocar-se estrategicamente sob o sol para realçar a cor e ganhar um brilho extra. Fez todas as poses mas notou, meio encucado, que não era para seus lindos pêlos que ela estava olhando. Era uma paquera comum entre cães comuns e isso começou a lhe preocupar. Ele sabia que não existia no mundo outro cão como ele, afortunadamente, explendidamente, curiosamente e indiscutivelmente azul. Mas ela lhe olhou como olhou para o Desmóscrates, cão da casa ao lado. O mesmo olhar da semana passada.

Crise existencial. Adolescência, talvez? Não sei. Não sei a idade de Azul. Só sei que ele chegou a perder o sono.

Mais um dia pela frente... Com fundas olheiras saiu com seu dono para um passeio. Linda manhã... que poderia ter demorado mais a raiar... Sono atrasado.

Pois sim: naquela manhã "especialmente comum" seu dono deparou-se com um amigo que não via há tempos. Foi uma surpresa mútua com abraços, vários tapas nas costas (por quê os humanos fazem isso, meu Deus?!)  e flashes de recordações de lá e de cá. Ele observava aquela alegre esquisicite e considerava, meio amargurado, o fato de que não possuía lembranças assim. Pelo menos nenhuma que valesse tantos tapas.

Por fim, esvaindo-se os assuntos, seu dono lembrou-se de exibi-lo, sorridente, ao amigo. O amigo, em um gesto previsível e polido, fez-lhe um cafuné e lhe sorriu com um olhar como o de quem acaba de ver algo indiscutivelmente... razoável.

Razoável?  Ele não era um cão "razoável" mas o explêndido e raro cão azul, único na cidade e quem sabe no mundo!

Pelo jeito o tal amigo não vira nada de esplêndido nele, pois lançara-lhe um olhar nada mais do que morno. Um cafuné, um sorriso comum e um olhar morno para um cão razoável. Ele não merecia uma desfeita dessa...

Resolveu colocar tudo em pratos limpos. Ao chegar em casa seus latidos eram de quem exige uma explicação. Algo estava errado e agora era hora de descobrir.

Confronto!  A família viu-se em polvorosa tentando acalmá-lo. Ele andava em círculos pelo tapete falando, digo, latindo coisas desconexas sem parar, cabeça baixa, emendando uma frase (frase? ) na outra. A princípio pensavam que ele queria saber quem eram seus pais. Depois notaram que não era esse o "xis" da questão: ele queria saber o que havia de errado consigo, que sempre foi tratado em casa como raridade mas, no mundo, não passava de um Zé Ruela.

Disfarçadamente todos correram a esconder os espelhos da casa. Cada um foi para um lado. Seu dono fazia pose em frente ao maior espelho da casa. A porta do quanto, com outro espelho enorme, foi estrategicamente trancada enquanto discutiam. Havia algo estranho ali.

Pediu explicações, implorou, jogou-se no chão com as patas pra cima, fez que ia ter um derrame, cambaleou, soluçou de frente para a parede, tentou o suicídio prendendo a respiração, fez de tudo. Cada parte do teatro era dramatizado em um canto da sala. A última "montagem" foi justamente a que carregava uma maior força dramática: era a hora da revelação. Seu último arroubo foi em frente à cristaleira (quem ninguém lembrou de esconder) cara a cara consigo mesmo. Sim, no espelho da cristaleira.

Até então ele só reparara nas prateleiras da cristaleira e isso quando o sol incidia sobre as taças límpidas e os pequenos mimos lapidados. Aquele brilho, a luz decomposta... Era só o que olhava até então, mas dessa vez foi diferente - oh Céus!  E o quê ele viu?

Viu um cachorrinho baixinho, poucos pêlos, olhos arregalados, orelhas caídas, rabinho pouco sedutor (fino e curto)... Comum. Dolorosamente comum. E com dentes amarelados. E de óculos. De óculos? Nenhum de seus companheiros usava tal artefato. Um cão de óculos. Patético.

Pelo menos era azul. Pelo menos isto restou - pensou ele. Então resolveu tirar os óculos - azuis - para checar a cor dos olhos. Vaidade... Maldita vaidade!

O fato é que ele ficou sem saber a cor de seus olhos porque tudo o que pôde enxergar no  espelho da malfadada cristaleira era um cão baixinho de poucos pêlos, olhos arregalados, orelhas caídas, cauda mínima, dentes amarelados, sem óculos e... ENCARDIDO.

Oh dor! Oh desilusão! Então ele não era azul? Era branco, e o pior dos brancos. Não o branco neve. Não o branco marfim, não o branco azulado, mas o branco encardido.

Ali ficou, pasmo e duro como um monumento, em estado de choque. As patinhas duras esticadas para cima. Ridículo. Naquele estado mais parecia uma barata morta.

Pegaram-no e o colocaram em seu leito, em meio a muita discussão, troca de acusações e críticas mútuas: "Não se deve esconder assim as coisas de um bichinho! A culpa é sua! A verdade viria a tona mais cedo ou mais tarde! Como não pensamos nisso? Agora é tarde. Eu bem disse que não deveriam ter dado banho nele! A culpa é sua, com suas histórias rocambolescas! Chamem um médico!"

Emagreceu. Não quis falar latir pra ninguém. Chorou. Teve crise nervosa quando tentavam lhe inculcar que ele era muito especial e raro, ainda que não azul, ainda que lindamente encardidinho. Nada. Recusou até osso de rabada. Por fim, morreu.

Com uma semana, não suportando a "dor" da perda, seus donos compraram outro cão. Um pouco mais alto, um pouco mais alvo, um pouco mais peludo, que sabia se fingir de morto e - para piorar - que se olhava no espelho e sabia muito bem quem ele era.

Chato, né?

Consolo: o Céu é azul.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Eu devo isso a ela



Essa é a foto mais incrível da minha vida!

Claro que não parece por isso vou contar o lance. Cara, tocante.



Passeio, praia... foto é inevitável. E ali estava eu em uma cena do tipo "mais previsível impossível" querendo fotografar a praia ao fundo e a mim mesma em primeiro plano, claro.



Postei-me fazendo cara de turista e a pose nem ainda estava completa, notem. Ia jogar a viseira longe, lustrar o sorriso, fazer onda, mas notem que a expressão do meu rosto é a de quem não entende porque o pessoal todo me olhava e gesticulava. Bastava que eu olhasse para trás mas só fiz isso depois.




Olhei só depois, como disse, mas me contaram o antes. Ela, a árvore, não estava lá quando resolvi fotografar. Achegou-se a nós posteriormente- acredite! - com a desenvoltura de um polvo do fundo do mar com seus tentáculos. Um lance muito louco!


O movimento das raízes davam a impressão de ondas, de serpentes, de qualquer coisa assim. Foi rápido. Ela "andava" meio de lado como caranguejo, num movimento tão estranho e rápido que o pessoal só não saiu em disparada porque todos nós sabemos que as árvores não fazem mal a ninguém, muito pelo contrário.



Nenhum mal me fez, embora na foto pareça que ela pretendia enlaçar-me. Não. Apenas queria dizer algo, parecia assim meio aflita.



Qualquer história humana ficou banal diante daquilo. Por mais intensos que sejamos nenhum de nós contaria nada com um gesticular tão sentido e apaixonado como aquela linda árvore fazia. De fato dizia algo, mas o quê?



Depois que ela encontrou se lugar atrás de mim e em frente à câmera, acalmou-se. Continuou fazendo mais alguns gestos (que depois entendemos como suplicantes) mas se aquietou para a "filmagem". Pobrezinha! A gente sacou que ela acreditava tratar-se de uma filmagem! Certamente queria deixar registrado algo relevante. Talvez sobre queimadas ou desmatamento - essas coisas do Jornal Nacional. Pelo menos foi o que nos ocorreu.



Eu não conheço a linguagem dos sinais utilizada pelos humanos, imagina a das árvores! Tratava-se mesmo de uma mensagem? Um pedido de socorro? Ou só a "dança dos não famosos" para aparecer pelo menos no You Tube? Não, era algo importante. Por que ela se apressou, postou-se atrás de mim e depois deixou-se "filmar" enquanto gesticulava daquele jeito comovente?



Jamais saberemos. Quem estava comigo levou o maior susto. Eu só olhei pra trás depois da foto(porque elas não fazem barulho enquanto andam.)



Bem, pelo menos estou contando pra vocês e postando o caso em meu blog. Por algum motivo acho que devo isso a ela.


Por via das dúvidas fica aqui alguns alerta que a gente achou que a árvore poderia ter querido dizer. Ou que a gente diria se fosse árvore:


NÃO QUEIMEM AS FLORESTAS!

NÃO CORTEM AS ÁRVORES!

CIGARRO DÁ CÂNCER!

SE FOR BEBER NÃO DIRIJA!

USE CAMISINHA!

NÃO REELEJA O PT!


terça-feira, 17 de março de 2009

Meu dia de fúria - Um conto


Amanheci numa dessas amanhecidas azedas, atravessadas. Tomei banho, me perfumei e me vesti da melhor maneira que pude pra ver se a coisa melhorava. O velho truque da gente se produzir para levantar o astral. Quem é mulher entende.

Entrei no carro, saí. Tudo normal - tão normal que ainda não fora possível perceber se de fato a produção operara algum efeito benéfico sobre meu estado de espírito.

Eu tava na minha, linha reta, não mexi com ninguém. Não sabia se me sentia bem ou mal mas isso não é crime. Dirigia rigorosamente dentro das leis do trânsito o meu carrinho popular não muito limpo - o que também não é crime, não me olhe atravessado! Tocava no rádio uma música razoável que não vem ao caso. O que aconteceu não é culpa da música.

Trânsito chato: pára, vai, pára, vai. Numa dessas paradas mais longas se aproxima um mal encarado. Encarei o mal encarado meio entediada, como quem vê um bezouro voando do outro lado do vidro.

Ultimamente ando meio cansada de desgraças. Quando a gente não ouve falar, liga a televisão e vê. Quando vai ao cinema, pode ser o filme que for: tem sempre cenas de miseráveis aos borbotões. Hoje, como acordei com o ovo (?!) atravessado, resolvi ser indiferente a tudo, desse no que desse. A indiferença é o melhor escudo. Se não era, naquele dia seria e dane-se.

Danar-me-ia.

O farrapento com cara de poucos amigos aproximou-se do meu carro, bateu no vidro para que eu o baixasse. Olhos arregalados, magro como ele só. A essas alturas eu já estava tão mal encarada quanto ele, apesar da Natura, Avon e Boticário.

A verdade é a seguinte: faz tempo que eu andava querendo mesmo que algo drástico me sobreviesse. Ééééé isso meeeeesmo, pode me chamar de doida. Tava cansada de tudo, de todos, de mim mesma principalmente. Só queria um pretexto pra chutar o pau da barraca. Tava naquela de torcer para o garçon derramar sopa no meu vestido, pro porteiro fechar o portão com o meu carro no meio, para a atendente do consultório ter esquecido de anotar meu nome na agenda - qualquer coisa pra botar fogo no circo. Queria mais é que pisassem no meu calo!

Não sei explicar e você não sabe entender, então chega de teorias porque afinal de contas estamos no meio da história e explicar muito acaba quebrando o clima.

Só sei que naquela hora eu podia escolher entre gritar, desmaiar - acelerar não dava - ou submeter-me às ordens daquele ladrãozinho de merda mas achei todas essas opções meio comuns, muito previsíveis. O fato é que o "comum" e o "previsível" eram justamente os elementos que haviam me colocado naquele estado anti-zen. Sendo assim, já sem pensar em nada e adorando isso, resolvi provocar Deus e o destino. Se o Altíssimo fazia muita questão de manter-me viva, que desse um jeito naquela situação porque ninguém me segurava: eu resovi despirocar de vez!

Não baixei o vidro. Saí da p**** do carro repentinamente, o que assustou o cara, que era mais baixo do que eu. Perguntei, espumando ódio, o que ele queria. Foi o tempo de ele se recompor e recuperar a valentia. Exigiu minha bolsa. Não vi revólver, então disse que não ia dar p*** nenhuma e fiz menção de voltar pro carro. Ele me segurou pela blusa e sei lá de onde apareceu uma faca. E sei lá de onde apareceu mais ódio e uma valentia de gladiador. Não sei em quem eu me fiava mas achei inebriante esse novo comportamento destemido. Era boooomm!

Empurrei o cara, ele caiu. Adorei. Mas o lazarento parecia que era de borracha porque saltou de volta e se pôs de pé antes que eu voltasse para o carro pra me trancar em segurança. Rapidinho ele me furou várias vezes. A primeira facada foi no pescoço, com certeza. A segunda no ombro e o resto não sei. Não fiquei contando. Sei que ainda consegui lhe arranhar a cara. Acho que acertei um soco em algum lugar mas foi meio sem força.

Daí pra frente é tudo misturado. No limiar da vida, tempo não conta. Lembro de algumas frases, alguns momentos específicos e pausas entre uma coisa e outra.

Eu desconfiei que estava morrendo quando abri os olhos e vi em volta de mim um monte de gente com o olhar consternado. Eu deveria estar horrível. Vi depois alguns rostos conhecidos. Não sei mais se eu ainda estava no local do crime mas olhei para cima (que não sei se era teto ou se era céu) procurando algum sinal, uma luz, uma aparição, sei lá. Não riam! Eu tava morrendo, gente! Tinha todo o direito de esperar um lance sobrenatural. Nunca se sabe.

Bem, não vi nada. Minha pieguice me pareceu sumamente engraçada naquele momento e ri de mim mesma. Alguns se comoveram com o meu olhar elevado às alturas e o sorriso piedoso. "Ela está indo... Deve estar vendo anjos... Oh Senhor!"

Comecei a sentir dor - não muita, mas o suficiente para deixar de achar qualquer coisa engraçada. Mexiam em mim. Não sei se me examinavam, se me transportavam... Por que cavei aquela situação? Queria morrer deveras? Deveria? Doeria? No que daria?

Ouvi a voz da minha irmã, aflita. Ela não sabia se eu ainda estava viva. Nessas horas nem a gente mesma tem lá muita certeza porque desmaia várias vezes, fica tonta, é uma esculhambação. Mas o humor ainda habitava meu corpo. Percebi isso pela idéia que tive quando ela me perguntou como eu estava, se eu podia ouvi-la ou ve-la.

Nesse momento, num "esforço de reportagem" abri os olhos. Vocês não sabem como isso dá trabalho quando se tem pouco sangue no corpo mas ela merecia o sacrifício. Abri os olhos e não resisti à tentação: achei que teria forças para uma piadinha e que riríamos juntas. Enfim, abri os olhos e balbuciei, entre dores e ânsias de riso: "Eis... eis que vejo ... os céus ... abertos...e...o... Filho do Homem... assentado ... no tron... "

Foi demais para mim. Ri. E mori. Porque rir requer um esforço monumental, principalmente para os esfaqueados. Ela não riu comigo. Brincadeirinha mais sem graça!

Mal gosto... Mas ao final das contas observei que foi de imensa valia a piadinha infame. Foi o tema do enterro, dos cânticos, a inspiração do pastor e a placa em minha lápide. Parti como uma bem-aventurada que viu os céus abertos e isso foi um consolo para a minha família.

Mas tem mais! Eu não estava de todo fora do contexto quando disse o que disse. É certo que naquela hora não vi coisa nenhuma, nem anjo nem luz, nadica de nada, mas depois...

Hum! Nem te conto! Você não iria acreditar. Até porque depois de toda essa palhaçada acho que fiquei meio sem credibilidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Jesus Luz & Madonna - Um conto


Claro que havia expectativas em relação a ela. Se eu dissesse o contrário a mentira seria mais tola do que a verdade de dizer que tive crises de ansiedade no primeiro ensaio que soube que ela estaria presente. Nem precisava porque sequer cheguei perto. De longe ela nada mais é do que o que se vê em fotos e telas. Surpresa nenhuma.
Um dia ela chegou perto e falou comigo. Assim, sem mais nem menos.

Conversamos rapidamente na frente de todo mundo. Depois fui ao seu camarim. Acho que ninguém viu mas também não me demorei.




Como é Madonna de perto? Ela é como eu pensei que fosse. Fisicamente não houve surpresa alguma. A surpresa foi por conta de eu descobrir que jamais havia pensado nela de outra forma que não fosse fisicamente. Não parecia ser nem mais jovem nem mais velha, mais bonita ou menos bonita, gorda ou magra. Era como eu achava que fosse por fora e isso quase me surpreendeu porque de um modo geral os popstar nunca são como pensamos.



Ela há muito passou do tempo de se importar em ser vista sem maquiagem. Estava ali, alvíssima e segura como a lua. O que vi em minha frente? Vi a lua surpreendentemente maternal como jamais pensei que fosse. É assim que ela é: clara e forte, imperturbável ao ser longamente fitada. O olhar permanece azul e profundo e nesse momento balancei.


Tocou em meu braço e dei-me conta de que me perguntava algo sobre a festa, sobre o pós-show. Gostou do meu braço, olhou-me. Tive vontade de abraçá-la e na despedida abracei. Me senti pequeno e aconchegado. Foi rápido mas adorei seu cheiro. Queria sentir mais.

Como um carinha como eu poderia ser enxergado como pessoa por uma mulher como ela? Como chegar naquele coração? Mas... para quê chegar naquele coração?

Nossas vidas são pontilhadas de instantes, alguns muito especiais e todos eles têm a vocação da efemeridade. Conhecedores da sua volatilidade, afligimo-nos. O que é eterno não precisa ser pontuado porque cobre uma vida toda mas os instantes especiais desaparecem como fadas travessas, duendes, aparições. Precisamos segurá-los bem firme e olhar em seus olhos por mais tempo antes que sumam para sempre



Madonna... ela é delicada. E o mais surpreendente: tem um quê de maternal até então impensável. Não sei se é no jeito de falar, de olhar... não sei explicar. Tem um aconchego assim, de mãe mesmo, que chama a gente para o meio dos seios com uma autoridade irresistível. Seu olhos são profundos, quase melosos e contrastam com a figura autoritária que a gente vê no palco. Soube muito de sua vida tão somente olhando dentro deles. Oceano.

Quero levar-lhe alguma coisa hoje a noite. Um pequeno momento eterno. Para ela poderá ser banal mas para mim não.










É cansativo mas as exigências de um mega show, ao contrário do que pensam, me ajudam demais em momentos como esse. Uma separação... Muito melhor não pensar nisso. Essa semana mais do que nunca vou me dedicar aos ensaios, a cada detalhe do que for preciso. Quero dormir exausta sempre. Só preciso dormir bem na véspera da apresentação.



Hoje conheci um rapaz - um modelo. Lindo como tantos outros. Senti que ele não se aproximaria se eu não tomasse a iniciativa. Foi o que fiz. Por que fiz? Porque estou tensa, porque estou cansada, porque posso, porque ele é lindo e jovem e cheio de vontade de crescer.



Conversamos rapidamente em meu camarim. Banalidade: nome, você conhece os EUA? Aceita uma cerveja? Gostei do jeito que me olhou. Geralmente esses meninos colocam-se na posição de mercadoria. Esse apenas me fitava e sorria de um jeito despretensioso, como se estivesse tranquilo com a idéia já certa de que não havia como nascer dali alguma coisa maior, um relacionamento. Olhava-me apenas atento a princípio. Depois, pareceu-me, já com crescente simpatia. Em alguns momentos pareceu-me lamentar que não palmilhássemos as mesmas estradas na vida, só aquele breve cruzamento.



Novo, muito novo para ter notado tão de pronto que jamais me apegaria a ele. E no entanto ele é lindo, tão lindo quanto pode ser uma pantera que escolha livremente deitar em seu tapete e partir para a selva tão logo deseje. Infinitamente mais livre do que eu.



Jovem e quente e duro. Claro que o desejei. Claro que seria meu. E claro, ele iria gostar sim.



Estivemos juntos outras poucas vezes, brevemente, antes de estarmos a sós.

Não é justo olhar um homem como um animal de estimaçao mas eu assim o vi. Mas me redimo porque esse olhar sobre ele não foi gerado no sentido caprichoso do termo mas da melhor maneira que se possa entendê-lo: na paixão que nos desperta a idéia da beleza selvagem capturada e usufruida dia e noite sob os olhos, ao alcance da mão. Quem nunca desejou apanhar um tigre, tê-lo, brincar com ele?

Ele não esperava nada de mim. Gostei disso também. Eu não esperava que ele conseguisse me comover - mas conseguiu.



Quando por fim descansei em seu torax enorme ele me falou, como todos falam, de suas primeiras impressões a meu respeito. Ri de sua ingenuidade ao contar que se surpreendeu ao encontrar em mim um "ar maternal" marcante e bonito. Que homem diria isso a uma mulher mais velha sem pedir desculpas logo em seguida? Mas ele disse, e com tanta graça e sinceridade que comoveu. Ele viu em mim o que penso ter de mais importante, o que mais prezo. Foi o maior elogio que um homem poderia me dar.

Levantou-se e vasculhou os bolsos de seu jeans. Voltou com um minúsculo pacote de presente. Não me entregou. Ele mesmo abriu e de lá tirou uma finíssima corrente de ouro com uma pequena imagem da Madona com a qual circundou meu pescoço. Nesse movimento senti seu hálito novamente. Essa imagem já possuía um significado enorme e lagrimei. Ando especialmente emotiva esses dias.



Estaremos juntos no Ano Novo. Não se trata de um romance. Não se trata de nada que não seja um hoje no qual preciso estar com alguém que não faça planos nem peça "presentes" para estar comigo; que não meça as palavras e que daí acabe dizendo sem querer coisas que me acalente o coração. Alguém que veja em mim a mãe que tanto prezo, que pensei que ninguém mais visse. Por fim, que entenda que preciso descansar minha cabeça em um peito assim... como um barco moreno perdido no oceano azul.



Cristina Faraon







sábado, 20 de setembro de 2008

Olhos de Fogo

Acho que esta sou eu com meu vestido amarelo de verão. Foi na década de 30 e nem sei como meu pai permitiu que eu saisse assim, para ser tão demoradamente observada por você.

Debaixo do chapéu meus cabelos negros e limpos não se deixam observar nem serem tocados sequer pelo vento. Pensei que um dia o verias solto em nossa alcova de casados... Naquela manhã ele apenas se enroscava, tranquilo guardião da minha nuca.

Creia que esta fui eu quando tinha a pele alva e preservava cuidadosamente o caminho dos meus olhos. Sim, te olhava vez por outra. Interpretava uma timidez que não tinha e que no entanto era o meu principal adorno.

Posei pra ti em uma rara manhã. As manhãs contigo eram raras. O sol se movia com vigor para o centro do céu. Meu vestido de crepe levou consigo areia quando levantei e o vento cochichou-te o meu perfume.

Essa era eu com minhas pernas fortes e coxas virgens.

Se meu pai permitisse eu posaria pra você mais vezes e em muitas outras cores. O tempo seria sempre eterno como nos quadros, como na mágica dos teus pincéis. Vez por outra verias meus dentes brancos. Deixaria que me olhasses mas não focaria teus olhos de fogo.

Queria ser a esposa que sonhaste, o sague azul, o corpo imaculado guardado em camisolas de algodão, leves como pele de ovo... e em meu quadril perfeito seriam forjados teus filhos e eu não morreria no parto.

Se eu não fosse a mulata que sou, voltaria a ser marfim de 1930. Deixar-me-ia pintar assim, fingindo ser livre e com uma sensualidade vivaz escorrendo pelo sorriso. Em meu silêncio pareceria a ti que ali mesmo poderia se tua se tão somente me tomasses pela mão.

Em algum recanto de mim sou assim. No olhar que não te lanço, no sorriso contido e nas maneiras suaves sinalizo tudo o que pressentimos que sou. Sinalizo para você, Olhos de Fogo, tudo o que nós sabemos que posso te dar se tão somente me tomares pela mão.

Cristina Faraon

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

É show!


Vou tomar banho, me perfumar e passar creme no rosto. Amanhã de manhã vai acontecer novamente aquele evento luminoso no qual a estrela sou eu.

Não estou aqui para me gabar mas admita: não é todo mundo que provoca um ajuntamento organizado e sorridente por onde passa. Eu provoco.

Todos os dias o meu percurso pela Almirante Barroso é um a-con-te-ci-men-to. Claro que já me perguntei o motivo. Não sou má pessoa mas também ainda não fiz nada que merecesse essa reação do público. Mas vou reclamar? Claro que não. Um dia entenderei o que me faz parecer tão nobre. Enquanto não entendo, relaxo e gozo.

Ah amigos, é tão bom ser querida e admirada! Digo isso porque o que mais poderia explicar a emocionada saudação que recebo das árvores todas as manhãs quando passo pela Almirante Barroso? Como explicar os aplausos, os acenos emocionados, a discreta agitação que cresce a partir de quando aponto no Entroncamento?

Qualquer um que esteja por perto no momento da minha passagem verá as árvores se perfilarem e me saudarem emocionadas, vestidinhas de verde, com as folhas lustrosas sem nenhuma poeirinha. Quanto carinho! Algumas vem em turma, outras me acenam mais solitárias mas todas acordam cedo para me recepcionar. Cantam, assoviam, fazem chique-chique enquanto agiram lindamente os galhos à minha passagem. Só não pulam mesmo porque não dá.

Que belo momento...

Tento entender os motivos delas só depois. Na hora "agá" não me detenho nessas questões. Por que desconfiar de gestos de amizade? As árvores gostam de mim e pronto. Tudo o que tenho que fazer é não desapontá-las. Quando me acenam e aplaudem diminuo a velociade e retribuo com o sorriso mais simpático que consigo. É o suficiente. Amanhã estarão lá de novo, cheias de vida.

Já reparei que no Tribunal há três dessas simpáticas árvores, uniformizadas. Elas são mais contidas, claro. Não levantam os braços nem fazem barulho mas o leve aceno, sem muito alarde, já me deixa alegre. Não podem fazer mais do que isso provavelmente por estarem de serviço.

Observo também aquelas que nao podem ir para perto da pista, como as outras. Sei lá como é a hierarquia entre elas mas estas também são tão meigas! Não deixam de comparecer por nada desse mundo. Ficam disputando espaço umas com as outras, debruçadas sobre os muros da avenida, apertadas, me esperando passar. Não há espaço nem para me acenar, tadinhas. Elas apenas arregalam um sorriso verde e brilhoso. Claro que gostariam de chegar mais perto mas mesmo de longe noto como me fitam, tão fofas! As do Bosque Rodrigues Alves são assim. Acho engraçada a briga para chegarem perto. Deveriam deixa-las sair de vez em quando...

Não desfazendo das árvores de serviço nem das contidas pelos muros (segundo escalão) registro aqui meu especial apreço àquelas mais expansivas que sorriem festivas, agitam bandeirinhas à minha passagem, jogam folhas e assoviam. São a alma da festa, certamente. Quando vou me aproximando elas cutucam umas às outras avisando "lá vem, lá vem ela!" Sem elas o evento não seria o que é.

Ainda vou descobrir quem organiza essa festa. Sabe, isso me põe pra cima! Até esqueço os problemas. As árvores da Almirante são super alto astral.

Tenho que admitir: existe uns dez por cento delas que são, digamos assim, menos expansivas. São as mais altas e mais e quietas. Não há vento que as animem. Não sei se isso tem a ver com a idade. Geralmente elas se colocam perfiladas próximo à Doutor Freitas. Bonitonas. Parecem - ou querem parecer - mais nobres.

Sabe, não fico ressentida. Temos que respeitar os diferentes temperamentos, não é? O que importa é a atitude: elas estão lá, firmes e fortes. Não fazem auê mas baixam o olhar quando passo, permitem-se um discretíssimo sorriso e pronto. Pra mim é o suficiente. O simples fato de estarem lá já significa muito.

Todos os dias pela manhã é Sete de Setembro e eu, sozinha, sou a Parada.

Vá para lá amanhã, pra me ver passar! Você vai ver que animação. De repente, vendo você comigo pode até ser que elas lhe joguem umas folhinhas também.

Leve máquina.

Cristina Faraon

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Por que não escrevo um romance

Minha personagem é muito indecisa. Não consegue resolver nem qual será a primeira coisa que fará quando levantar da cama com a cara quadriculada. Ela quer viver, quer demais, mas por isso mesmo, entre tantas opções, deixa-se estar por mais tempo na cama e não levanta. E as horas passam e retorna a noite. Desse jeito ela não está merecendo habitar nenhum livro.


Hoje o dia amanheceu com cara de fim-do-mundo, com cara assim de que se uma posição não for tomada agora, talvez não haja outra chance. Pensando nisso e vendo o cinza fatal pela janela, animou-se um pouco mais. "E se hoje fosse o fim? Nâo, hoje não, mas semana que vem? O que valeria a pena fazer, mesmo por mais louco que fosse?"

Nada! é a resposta. Se vai acabar, nada mais importa. E pensando bem, se de qualquer forma, faça o que eu fizer o mundo vai continuar, importa menos ainda... (Continue lendo)


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

BO-9547

Chuva séria é coisa forte. Ou melhor: chuva forte é coisa séria. E nem estou me referindo às inundações.

Voltemos nossas mentes especulativas para o imenso transtorno causado pela chuva na vida, por exemplo, dos passarinhos. Não me refiro às grandes aves cheias de moral que já estrelaram em documentários de TV a cabo. Estou falando desses passarinhos de bairro que a gente vê todo dia, marronzinhos, meio sem graça.

Esses dias estive pensando sobre isso e me senti profundamente tocada com a situação deles em dia de chuva. Claro que esse meu momento sensível passou rapidinho, mas ainda deu tempo de escrever esse texto.

Não me parece correto imaginar que esses bichinhos inofensivos sejam mais valentes do que nós, então afirmar que eles têm muito medo de chuva e trovoada é falar a verdade. Se você tiver em mente que ninho não tem teto, fica bem mais fácil aquilatar o sufoco deles quando pensam na possibilidade de seus filhotes serem arrebatados - e arrebentados - durante as intempéries.

“- Cadê aquele passarinho que estava aqui?
- Ensopou-se na chuva, depois veio um pé de vento e chutou o pobre pra longe e ele esborrachou-se naquela cerca. Não sabia voar. Olhe, ainda tem uns pedaços dele ali pendurados.”

Não te dói o coração?

Chuva... Chuva é mulher indócil e caprichosa. Ela não mede conseqüências nem se arrepende de seus arroubos. Tendo chance ela sacaneia mesmo e quem quiser que se arranje.

Pobres passarinhos... Além de tudo são solitários. São sim! Em minha acurada visão cada família forma um mundinho particular e eles se viram dentro desse nucleozinho emplumado e frágil. Não há vizinhos que os socorram e o gato da vizinha... melhor nem falar. Os filhotinhos... são tão pequenos, arrepiados e desconhecedores das realidades da vida! Todo o prazer de suas existências resume-se em comer minhocas. E ninguém garante que ao crescer outros gozos os aguardem. Sabe, não consigo imaginar um casal de passarinhos... Deixa pra lá.

Outra categoria que também sofre nas mãos caprichosas da natureza são os nossos amigos do andar de baixo. Não me refiro aos defuntos, mas às formigas.

Sempre cri que entre elas o deus-nos-acuda é sempre maior. Pense bem na aflição que é ter seu buraco cheio de água. Ainda não descobri se elas possuem algum sistema impermeabilizante lá por baixo - refiro-me às suas moradias, fique claro. Como será que conseguem continuar morando no mesmo lugar depois de um toró?

Com o passar do tempo e grande dose de empirismo fui compreendendo melhor as coisas. Não posso mesmo comparar as formigas aos pássaros. Não são lá muito parecidos e nem me refiro ao aspecto físico mas muito mais ao temperamento. Claro que já estudei isso! Você acha que eu colocaria em risco o meu nome ao discorrer sobre algo sem base científica? (Não responda).

Mesmo passando aparentemente por maior dificuldade, concluí que ainda assim as formigas são mais ágeis para contornar seus problemas com a chuva. Claro, pense bem: só pelo fato de serem menos neuróticas já levam vantagem. Todos nós sabemos que uma mente tranqüila encontra solução para tudo. Já os passarinhos, ai ai... São nervosos, assustados, qualquer coisinha vira um drama! Em dia de chuva é impossível dialogar com um deles. Nem tente. Por essas e por outras, desconfio de que todo passarinho tem gastrite - ao contrário das formigas. Formiga não tem gastrite - anote aí.

Elas são apressadas sim, mas não histéricas. Todas as suas atividades são sincronizadas e sem desespero. Também não fazem nada “nas coxas”, até porque não as têm. Admiro-as porque trazem sempre um plano B consigo e em qualquer calamidade as coisas já estão planejadas. Ou mais ou menos planejadas. Sendo assim, nunca saem por aí se lamentando ou puxando as anteninhas.

Já notou que dificilmente a gente pega uma formiga de calças curtas? Todas elas já sabem exatamente o que fazer se, por exemplo, a simpática BO-9547 demorar a voltar ou simplesmente sucumbir em sua missão qualquer. A substituta já estará a postos com a botina brilhando, peito tufado e pronta pra tudo. Nenhuma lágrima rolará de seus olhinhos miúdos.

Claro que elas não são insensíveis! Ficam tristinhas com a perda da companheira mas não tem esse lance de luto nem de remoer tudo de novo sete dias depois. E é como eu disse: há sempre uma substituta reluzente a postos. E isso é tão verdade que em alguns casos (digo-o a título de curiosidade) a viuvez não chega a ser percebida pelo cônjuge sobrevivente. E quando é percebida... entenda: todo mundo por lá tem mais ou menos a mesma cara, então a saudade fica meio sem ambiente e acaba desistindo de encher o saco.

Os passarinhos não: são sensíveis demais, afobados, barulhentos! Quando o companheiro morre o outro não quer mais comer, revira os olhos, arranca as penas, quer se enforcar! Um saco. Além do mais eles se preocupam demais com os filhotes, que por conta dessa super proteção não se prestam para nada. São uns inúteis. Os pais passam trocentos anos construindo ninho, mais outro tanto chocando, depois saem aloprados atrás de comida e quando chegam em “casa” está lá aquele ninho de desesperados de bico aberto como se fossem morrer de fome “daquipralí”. Patético.

Formiga faz fila: passarinho faz escândalo.

Como já dissemos, os passarinhos são muito ligados a família - pelo menos enquanto os filhotes são pequenos. Depois disso o número de divórcios é significativo. Já as formigas não estão muito aí para essa coisa de família. Eu diria até que elas não formam famílias: formam exércitos! Entre as fêmeas não se encontra nenhuma Barbie: todas carregam folha e fazem plantão. E comem de tudo.

Observe novamente a BO-9547. É uma batalhadora! Você nunca vai encontra-la lendo “Capricho” nem assistindo “Rebelde”. Ela está lá é pra guerra mesmo! Formiga e formigo tem seus uniformes praticamente iguais, ao estilo Mao Tse Tung. E não tem lance de namorico, puxa-encolhe, “só-dou-amanhã” ou “juro-que-caso”. Com elas é “pá-buf”.

Estranho é que mesmo sabendo disso tudo qualquer um de nós preferiria ter um quintal repleto de pássaros neuróticos do que invadido por formigas em ordem unida treinando para o Sete de Setembro.

As formigas ocupam menos espaço, não fazem barulho e não estragam a pintura de seu carro com cocô. Por que, céus, escolher os pássaros e não a galerinha da simpática BO-9547? Mistério. Mais fácil entender as formigas e os passarinhos do que a estranha raça humana...

Cristina Faraon

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A moça dos pés falantes


Missa de formatura de filho de amigos? Lá estava eu na belíssima Basílica de Nazaré. Fiquei emocionada. Não com a missa.

Em um momento de “santa balbúrdia” causada por cumprimentos mútuos, vi-me forçada a deixar meu lugar e dirigir-me aos últimos bancos da congregação a fim de resguardar minha integridade física. Ali, de “rabo de olho”, observei um par de pernas jovens e morenas, cruzadas e imóveis.

Era uma moça e era pobre. Demorei a conseguir ver seu rosto. Havia pessoas entre nós.Você sabe: nos últimos bancos o que a gente menos vê é missa. Minha mente, inquieta como um gato na coleira, começou a miar pra se soltar. Segurei o que pude, mas o que Deus esperava de mim? Ali, no último banco diante de uma multidão incomodada em suas roupas de festa? Eles também estavam na coleira, mas estavam fora da minha circunscrição. Não dei liberdade ao gato; ele se soltou sozinho. Aí começou.

Eu e minhas impressões... Depois viriam as certezas. É sempre assim.

Aquela moça... Certamente para ela aquela cerimônia tinha maior significado. Pelo menos em relação a minha pessoa.Vestia roupas visivelmente baratas. Nas unhas, esmalte de quinze dias pelo menos. Os cabelos também não receberam cuidados especiais para o evento. Isso tudo vi alguns minutos depois, porque até então de onde eu estava apenas conseguia enxergar parte de suas pernas cruzadas e pés. Decidi conhece-la a partir daí.

Seus pés falavam, e muito. Contaram-me da exigência de seu coração, que a arrastou até aquele lugar naquele estado. As sandálias eram empoeiradas e gastas. Eu mesma não iria nem na esquina comprar pão usando aquilo. De fato seus pés não sabiam o que era creme hidratante há bastante tempo. Eram desertos morenos que no entanto falavam, me olhavam e sorriam. Entre um “amém” e um “glória a vós, Senhor” aquela discreta inconfidência; eles falaram de sentimentos, vida difícil, carinho sem fim, noite mágica. Seu corpo eu não via, mas seus pés conquistaram minha afeição.

Aquela moça nunca estaria ali se não tivesse jogado pela janela do ônibus toda a sua vaidade antes de chegar. Eu disfarçava mas volta e meia a olhava novamente.Claro que foi seu coração que pediu! Os pés confirmavam que sim e diziam que o romantismo daquela formatura somado ao romantismo de sua idade foram fortes demais, a ponto de nada mais importar. Ela queria estar lá fosse como fosse e ver com seus próprios olhos, chorar sozinha, agradecer a Deus e sentir aquela felicidade opressiva que nos toma tão poucas vezes na vida.Não era a sua formatura, mas de certa forma aquele parecia ser o seu grande momento. Ela estava ali por alguém. Quem? Um irmão? A prima? O pai? Namorado? A melhor amiga? Quem sabe? Eles não me disseram.

A princípio acreditei que sua coragem de deixar-se ver tão despojada viria do fato de ser bonita. Claro, porque uma mulher jovem e bonita sabe tem perdão para quase tudo; qualquer saco de batatas ficaria bem ou não seria percebido, pois a pele necessariamente impecável se imporia acima de tudo. Sim, ela sabia disso porque toda mulher nasce sabendo de coisas assim.

Ah, minhas certezas...Imaginei então um rosto moreno de pele lisa e levemente suada, olhos grandes e negros, boca fresca desdenhando de batom. Nenhuma jóia. Em minha mente ela já era a personificação da saúde, selvagem e impressionante como a floresta amazônica. Cintura fina, quadris imponentes: uma flor d’água, uma índia paraense.

Nada disso. Quando pude ver seu rosto constatei que a seu favor ela só tinha a juventude e a altura, nada mais. Mas amava! Séria e feliz - como quem? Como ela, somente.

A moça dos pés falantes chorava sem parar e também sem contrair o rosto - arte que jamais consegui dominar. Só pude notar que ela chorava pelo movimento das mãos, que levou ao rosto várias vezes para tirar da rota uma, duas, várias lágrimas. Ela o fazia lentamente, sem preocupação alguma em esconder que chorava. Apenas não queria estar com o rosto molhado. Ela era alta e nesse momento me pareceu mais alta ainda. Mais que todos.

Não era a única pessoa feliz ali nem a única emocionada. Mas só ela saiu de casa, pegou um ônibus com aquela roupa e aquelas sandálias surradas e pôs-se ali, na Basílica de Nazaré, com a cabeça erguida de quem sabe que tem todo o direito de estar lá. Ela simplesmente não poderia ter deixado de ir. Pelas lágrimas e pelos pés vi que aquele momento era tudo pra ela.

É certo que não chorei, mas não a esqueci tampouco.

Cristina Faraon

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O laranjinha


O mar pode ser comparado a um tipo de céu assim como o céu é um oceano sem fim. As aves são seus peixes. Escamas e penas são só detalhes.

Sempre achei que os peixes fossem as aves do mar. No caso dos peixes pequenos e coloridos, sem dúvida que são as borboletas do mar.

Mas não falaremos hoje sobre as borboletas mas aqui vai uma dica: elas são apenas flores que não conseguem ficar paradas.

Voltemos aos peixes. Regra número um: é terminantemente proibido comer peixes coloridos. Certa vez comi um. Sem querer - registre-se.

Foi no ano que fugi para a Praia Secreta. Nem procure no mapa porque não consta. Em lá chegando segui de canoa para uma pequena ilha não muito distante. O som mais alto que se ouvia por lá era o “creu-créu” das aves. Ninguém merece ouvir “creu-créu” o dia todo, então fui nadar. Nadar é preciso.

Era como se eu mergulhasse em vidro líquido. A água não era fria nem quente. Minha alma aquática adaptou-se àquele meio rapidamente.
Nadei com uma desenvoltura incrível e quanto mais eu nadava mais energia havia para seguir adiante. Então fui mais fundo, mais longe, mais fundo e mais longe. Era tudo tão lindo que, instintivamente, prendi a respiração. A respiração, por sua vez, não queria mesmo sair. Ficou lá em suspenso, grudada em meus pulmões implorando por não ser respirada. Tudo bem. Deixemo-la. De maneira semelhante meus olhos se comportaram, recusando-se a piscar.

Bem, lá estava eu totalmente em alerta e hipnotizada com o que via. Talvez ali fosse o Reino das Águas Claras do qual falava Monteiro Lobato. E a gente pensando que o velho estava delirando. Vejam só como são as coisas...

Acho que fiquei uma "pequena eternidade" sem piscar ou respirar. Cardumes e mais cardumes rebolavam em minha frente naquele exibicionismo silencioso tão próprio dos peixes, desdenhando aplausos. Havia a tribo prateada, a preta, a dourada, a pintada, os redondinhos, os esguios... Não vi os quadrados. Certamente são tímidos.
Nenhum queria conversa comigo mas dançavam e dançavam, ensaiadíssimos! Vi também pedras, corais... e uma enorme quantidade de “troços-sem-nome” delicadamente arrumados aos lado de “coisas-sem-registro”. Tudo muito estético. Dos cantos de algumas pedras brilhosas cresciam lindos “o-que-que-é-isso!” para o deleite dos visitantes. No caso, eu.

Distraída, eu quase dava de encontro com um “ai-jesuis”. Virei de repente, ainda a tempo. Foi quando me deparei com um cardume de colorido hipnotizante. Estavam parados me olhando com uma expressão indefinível, talvez se perguntando, lá com suas guelras: “avançar ou recuar?”

Acostumada aos movimentos dançantes das criaturas aquáticas, assustei-me com aquela imobilidade. No susto cometi um erro fatal: abri a boca e “puxei o ar” como fazemos quando ficamos surpresos. Os peixes são mais discretos em seus sustos: apenas dão meia volta e tiram o cardume de campo. Pois é: foi nesse momento que engoli, sem querer, um pequeno “laranjinha”. Pelo que lembro de seu tamanho, deveria ser um adolescente cheio de vida...

Jamais me perdoei. Eles também não me perdoaram. O fundo do mar tem seus encantamentos e códigos de ética. Esses lances de “fui mal” ou tirar a bronca acendendo velas, simplesmente não funcionam por lá.

O castigo: fiquei três anos sonhando em preto e branco. Três anos!

Para que você jamais passe por isso deixo aqui esse alerta: nunca, jamais, mas nunquinha mesmo, coma um peixe da tribo colorida. E na dúvida, não coma borboletas também.

Cristina Faraon

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

"Chan Chan"


Esse é o apelido da chinezinha mais gracinha do mundo. Pelo menos para mim.

Os olhos são obviamente apertados e bem negros - como duas amêndoas de ônix. E o cabelos, beeeeem lisinhos. Por determinação superior (ou seja: minha) hoje são cortados no estilo “chanel” bem curtinho. Tipo “melindrosa”. O corte alonga o pescoço de forma graciosa e o efeito é chiquérrimo.

Boneca-souvenir.

É magra - não come muito. Sendo assim, tem perninhas finas. Só as pernas não - ela é toda fininha. A gente tem até a impressão de que pode quebrá-la facilmente, assim como quebramos o macarrão cru apara que caiba na panela de água fervente. Mas claro: ninguém faria isso com a Chan Chan!

Ela deve ter uns seis anos. Eu acho. E não conheceu os pais naturais. Viveu sua pouca vidinha em um orfanato no interior da China. Bons ventos a trouxeram.

Acho que já disse aqui que não sou muito fã de meninas pequeninas. Sempre gostei mais dos meninos. Meninas são mais legais quando já são mocinhas. Mas a Chan Chan é um caso àparte. Não fui atrás, não a escolhi. Veio trazida pela mão de uma amiga e eu me apaixonei.

Você sabe: a gente não escolhe por quem vai se apaixonar. Também não se prepara para o momento fatal. Quando vê, já era. Foi assim.

Ela estava com um vestidinho “tubinho” de gorgorão amarelo. Assim, numa primeira olhada me lembrou um abajur. Abandonei logo a idéia porque lembrei que os abajures não lambem pirulito e ela estava atracada com um e seu jeitinho era distante e satisfeito - “o mundo que se acabe!” - pude ler em seus pensamentos.

Por que estava arrepiada? Acho que esqueceram de penteá-la, porque ela não tinha a aparência de quem andou pulando por aí.

Minha amiga e eu ficamos conversando na sala. Ela me contou a história da chinesinha: que estava ali “emprestada” mas que deveria ser devolvida ao seu responsável: o Estado.

- Hmm... Precisa devolver mesmo?
- Gracinha ela, né?
- Não vai ficar com você?
- Não posso! Você sabe a minha vida como é.
- Mas não dá peninha de devolver?
- Dá. Mas é assim mesmo. Vou visita-la de vez em quando. Ficamos amigas!
- Será que ela ficaria comigo um final de semana?
- Acho que sim. “Você gostou da tia, Chan Chan?”

Ela não respondeu nada mas li seus pensamentos de novo: “prefiro meu pirulito!” Perdoei e coloquei-a sobre meu colo. Era leve como o Nepomuceno (meu cachorrinho inanimado, lavável e anti alérgico) .

Menininha de isopor e cabelo arrepiado...

Demorou um bocado até ouvirmos sua voz. Demorou também para podermos vê-la pulando e perseguindo a Lucrécia (minha gata animada, pouco lavável e altamente alérgica).

Só sei dizer que a Chan Chan foi ficando, ficando... E já tem um monte de vestidinhos no armário. E Melissas coloridas também.

Garanto que é a chinesinha mais fashion das redondezas.

(Galera, isso é só uma fantasia, tá? Vocês já deveriam estar acostumados com meu jeito assim, meio delirante.)

Cristina Faraon

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Quando acontecer


Quando você vier não será tarde demais, mas assim vai parecer.

Será em um dia-noite de céu cinzento, muito cinzento e ar pesado. Calor e frio em mistura opressiva, como febre. Frio por dentro, calor por fora e nenhuma roupa do mundo que amenize esse desconforto.

Hoje o mundo todo tem febre. A Terra está ébria.

A ninguém importa se é dia ou noite; o tempo já não se conta mais dessa maneira; os parâmetros estão desregulados - tanto o das estações quanto o da vida e morte e tudo o mais. O escuro e o claro vez por outra se chocam nessa estranha subversão de todas as coisas.

As pessoas não são confiáveis. Não porque não queiram, mas por estarem deixando de ser pessoas (no sentido mais doce do termo). E no mundo das coisas não há conceitos de moralidade. Aliás, não há conceito algum.

Os relógios não são morais. Talvez por isso estejam se transformando em deuses.
Mesmo amorais há o consenso de que são as únicas coisas confiáveis ainda existentes - embora ninguém se sinta reconfortado por isso. Como são quase deuses, todos os dias olhamos reverentemente para eles, nem que seja uma vez apenas. Ninguém sabe explicar exatamente por quê. Virou uma espécie de ritual. É estranho não fazer... e assustador quando um relógio para.

Os seres, andróginos.

As mulheres há muito deixaram de ser consideradas “caça”. Não são muito amistosas. Pisam duro e por questão de segurança mantêm-se magras.

Nossos homens-meninos são reprodutores assustados e também sozinhos. Geralmente trazem tatuados pelo corpo alguns símbolos representando força. Inutilmente.

As pessoas dormem atormentadas e sonham coisas inquietantes. Dizem que esses sonhos se devem a “memória genética”. Foi feita uma pesquisa e constatou-se que praticamente todo mundo tem sonhos recorrentes que guardam grande semelhança entre si.

As mulheres, geralmente, se vêem em invólucros úmidos, encolhidas como bebês no útero. Ouvem sons musicais profundamente emotivos e acordam chorando convulsivamente.

Os homens sonham com mulheres diferentes: roliças, meigas e comestíveis. Lembram as mulheres de hoje, mas parecem estar em etapa evolutiva anterior. Então acordam angustiados, sentindo saudades daqueles seios, coxas e carnes das fêmeas. Sentem uma falta angustiante de algo que foi posteriormente definido como aconchego.

Nos sonhos masculinos as mulheres tem um cheiro específico. Sabemos que isso não existe! Todas as pessoas tem o mesmo cheiro, independentemente da idade e do sexo.

Há também entre nós pessoas delirantes que afirmam ser isso causado por “espíritos inquietos” que se dedicam a atormentar os humanos com essas saudades inexplicáveis. Só não explicam bem o que seriam os “espíritos”. Mas todos sabemos o que é esse “inferno virtual”.

Por essas e por outras, as mulheres que ainda trazem características físicas que não evoluíram são mantidas em recolhimento como medida de egurança.

Há várias crianças gagas. Algumas são como gatos: ariscas e sobressaltadas. Muitas outras são hostis.

Bichinhos tristes.

Os bichos, todos eles, andam em bandos. Não como antigamente; os bandos de hoje evoluíram para uma coisa que forma quase que um corpo só; são absolutamente coesos e impenetráveis. Os bichos lembram as crianças as vezes... Estão sempre assustados.

A grande angústia dos humanos desse século é a total incapacidade de se proteger em bandos. Todos tem medo de todos; todos desejam ardentemente companhia e abraço ao mesmo tempo em que isso parece arriscado demais. Desejam com a alma, com o fígado, com os rins, mas não conseguem. É uma espécie de fome emocional.

Ninguém sabe onde andam as mães. As mães sumiram do mundo, dando lugar às atuais fêmeas agressivas da espécie humana. Seios secos e mãos crispadas.

Aí você aparece. Ninguém mais estava esperando.

Você é terrível, magnetizante. E assustador de tão lindo. Em nosso mundo, nada que tenha sido lindo sobreviveu. Se existe o belo absoluto, você é a personificação.

Cabelos! Por que seus cabelos são compridos e de negritude tão profunda? Seu olhar é assustador! Emana uma coisa estranha. Parece “paz” ou algo assim. Mas paz é uma coisa perigosa demais. Temos medo! Sempre que nos disseram “há paz!” catástrofes aconteceram em seguida.

A ameaça trazida pela paz é velada. É a calmaria antes da tempestade. Hoje a paz é prenúncio de morte, de lâmina fina perfurando o umbigo. Você é perturbador em sua paz e beleza estonteantes. Temos medo de você, muito medo.

Por que sorri? Por que nos olha assim e sorri?

Quem é essa criatura que sorri?

E todos fogem do seu sorriso pois uma pessoa sem medo traz consigo morte. Tem sido assim.

Mas você vem, implacável e sem armas na mão. Para onde podemos fugir?

Estamos todos armados;
Armados e sujos;
Sujos e famintos;
Famintos e amedrontados;
Amedrontados e suplicantes
E tão cansados!

O que você quer? Diga logo!

Quer nossa carcaça? Nossas mulheres? Foi você quem desconfigurou nossas mães e secou seus seios? Foi você, Criatura Sem Nome, quem domou nossos heróis e os atormentou com saudades e terrores? Você é o tal “espírito” de quem falam os velhos?

Que é você que vem de cima, que vara as nuvens, que faz tudo explodir em cores? Quem é você, que pára os nossos relógios sagrados? Por que vem acompanhado de música e arcos celestes? Por que nos comove? Não sabe que não podemos chorar? Os predadores estão a espreita!

Quem é você? Por tudo o que é mais sagrado, diga-nos seu nome! O que exige de nós? Nossas armas enferrujadas? Nossas frutas mirradas tiradas a fórceps de terras estéreis? Crianças mudas? Mulheres ressecadas?

Quem é você, que nos assusta com essa glória, esse riso, esses sons estranhos que nos fazem chorar?

Por favor, vá embora! Retire-se de nós! Volte para o seu mundo!

Nossos pesadelos agora serão outros. Vimos você, que é tudo o que nossa alma mais deseja. Você é o resumo de tudo, a explicação, a fórmula, a revelação do mistério, o princípio e o fim de todas as coisas.

Vamos sonhar com você para sempre: homens e mulheres. E a saudade do Belo Pleno nos atormentará para sempre.

Não se aproxime, não nos olhe assim. Nós temos medo de tanto amor!
Cristina Faraon


segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O outro lado da moeda


Dia desses fiz uns comentários sobre palhaços, lembra? Ao final prometi fazer revelações sobre os palhaços do mal. Pois aqui estou eu, cumprindo a promessa com o risco de minha própria vida.

Sim, eles existem e nesse exato momento acho que estou sendo observada. Digo isso porque sinto pelo menos um par de olhos cravados em minhas costas. Ui!

Se eu desaparecer sem mais nem menos vocês já sabem. Vou logo adiantando: deixo meus bens para os amigos e as dívidas para os inimigos. Justa divisão, né?

Mas vamos lá: a maldade dos palhaços dessa estirpe é patente e invisível ao mesmo tempo. Alguns poucos “agraciados” percebem o perigo ao redor, o clima pesado, mas ninguém lhes dá ouvidos. A história se repete: um pobre-diabo saca tudo, perde a paz e, mais tarde, a sanidade - mas ninguém acredita nele.

A propósito: você tem ouvido vozes ultimamente? Sente-se perseguido? Ainda não? Tudo bem.

Olhos gélidos e ensandecidos... Se você notar, prepare-se para se sentir sozinho no mundo e, de quebra, ser chamado de louco. Conforme-se em ser a voz do que clama no deserto. Crianças desaparecerão e apenas você conhecerá a verdade. E eles sabem quando alguém sabe deles. Sendo assim, eles sabem que você sabe mas você não sabe se eles sabem que você sabe. É angustiante.

Olhe bem para o palhaço mais próximo. Você nota em sua roupa uma pequena mancha cor de vinho? Claro que não é vinho, seu tonto! É sangue velho, ressecado.

E se a mancha não for cor de vinho, mas vermelho vivo? Pior ainda: é sangue novo!

Mas e se ele estiver com as roupas perfeitamente limpas, como que acabadas de sair da gaveta? Mal sinal. Deve ter acabado de estrangular alguém e ainda agora precisou trocar de roupa às pressas. Se você for verificar seu cesto de roupas sujas verá as evidências. Você tem coragem de entrar em seu esconderijo - digo, camarim - durante o espetáculo?

E se as roupas não estão recém-saídas da gaveta, não tem mancha escura nem clara? Aí é de se desconfiar de que ele ainda não realizou seu intento, mas está armando... Fique alerta!

Quando ele olha para você e vê que você está olhando para ele, ele parece tenso? Desvia o olhar? Ou sorri cínico? Parece desconfiado ou estressado? Os palhaços do mal estão sempre estressados. Só a maquiagem ri com aquele colorido grotesco. Aquelas sobrancelhas negras e tenebrosas, as unhas sujas, o chulé inconfundível...

Aquela bola vermelha no nariz é para desviar o olhar da direção dos lábios, pois os lábios os denunciam. Eles não conseguem disfarçar que por detrás da maquiagem a boca se contrai involuntariamente em um esgar estranho e assustador. Não conseguem controlar isso.

Sumiu alguma criança esses dias? Alguma solteirona “mudou-se” de repente? Uma vovó que morava sozinha foi “visitar a família” e não voltou mais? Um mendigo abandonou seu ponto? Aquele gatinho chato nunca mais miou em sua janela? E o que foi feito dos peixinhos da vizinha? Hummm...

Seu sobrinho quer ir ao circo. Ele está encantado com o “simpático” palhaço e suas brincadeiras sinistras. Não, seu sobrinho não sacou que são sinistras, só você, Mané! O pirralho chama aquele espantalho de tio, quer ir ao camarim pra ganhar um brinquedo e quer usar roupas iguais às dele. O que fazer? Desespere-se.

Vamos ser justos: o palhaço do mal não nasceu assim. Ele teve uma infância triste, sofreu abuso de todo tipo, passou fome e frio e era humilhado pelos meninos ricos. O pai bebia e era violento. A mãe era safada e apareceu morta sem mais nem menos em um terreno baldio, com roupas mínimas. Essas coisas, sabe? Se eu contar tudo você chora.

Tudo bem, ele não tem culpa de estar com a mente detonada por situações destrutivas, mas tá com pena? Leva ele pra você!

Aquela criança magrinha e sofrida tornou-se um ser irrecuperável, meu amigo! É uma alma atormentada por pesadelos e estranhas fixações. E o pior de tudo: está solto no mundo, posando de bonzinho com seu riso nervoso. É, ele não tem culpa de ter virado um monstro colorido - mas seu sobrinho não precisa pagar por isso!

Só existe uma solução: essa alma disforme precisa ser eliminada. Precisa! Essa é a sua missão na terra. Se você não fizer nada, cabeças vão rolar. Não adianta explicar para a polícia - vão acabar te mandando para um manicômio pra se alimentar de pão e água para o resto da vida e tomar choques elétricos aos finais de semana. E o pior: de pijama listrado. Não, fora de cogitação pedir ajuda. Você precisa resolver isso sozinho.

Coragem, amigo. O serviço precisa ser feito o quanto antes.

Onde você guardou mesmo aquela faca?

domingo, 8 de julho de 2007

Brincadeira das sete horas


Agora deitei e fechei os olhos. É aquela preguiça das sete horas da noite. Aquela, antes de a gente resolver tomar logo o banho. Não vou dormir. Não é hora de dormir.
Eu gostava de ficar assim, sozinha, desde quando ainda era pequena e ninguém que eu amava ainda havia morrido.

Fecho os olhos e entrego-me àquela brincadeira gostosa de "fazer de conta". É fácil. Basta ficar quietinha e se concentrar. Você manda em sua mente e ela lhe leva para onde você desejar e para a época que você quiser. Basta querer muito, mas muito mesmo. Adicione um bocado de saudade e melancolia que tudo funciona melhor.

Faz-de-conta que sou criança. Sim, sou pequena e estou deitada na cama dos meus pais. Não é hora de dormir. Ainda não jantei. Mamãe vai me chamar daqui a pouco.

(Está funcionando!)

A luz do quarto está apagada mas a da sala está acesa e clareia parte do meu corpo sobre a cama. Tomei banho há pouco. Sinto o cheiro gostoso da sopa que mamãe está fazendo. Sinto-me querida e segura. Meu vestidinho está limpo, estou penteada e a cama dos meus pais é tão cheirosa! O quarto está em ordem e sinto também o cheiro do chão recém encerado junto com o da sopa, do meu vestido, dos lençóis. Sinto um aconchego dentro de mim, uma coisa gostosa me oprimindo o peito. Quase dói. Acho que é felicidade.

Meu pai saiu agora do banho. Ele entra no quarto com uma nuvem de aromas úmidos. O vapor da água quente chega a mim quase como um carinho, quase como um ser vivo. Reconheço seu sabonete e, de olhos fechados, vejo-o enrolado na toalha. Ele me parece uma pessoa enorme. Seus cabelos escuros e cheios estão ainda ensopados. Ele está cansado do trabalho mas feliz, faminto e em paz. O mundo lá fora não existe e ele me ama. Não abro os olhos mas sei que ele é o homem mais bonito do mundo. Sua voz está dentro de mim mesmo quando calado.

Continuo assim, deitada e vendo tudo mesmo com os olhos fechados. Ouço ele abrir o vidro de colônia. Cai um talher na cozinha. Meu irmão fecha a gaveta.

Chegou uma visita que vai jantar com a gente. Minha mãe sai rapidamente da cozinha - ouço seus passos - e vai receber a visita.

É uma mulher. Sei que minha mãe vai me chamar para cumprimentá-la mas eu não quero. Quero ficar aqui, assim, sentindo o meu mundo, adivinhando onde está cada pessoa, o que estão fazendo e sentindo a paz de cada uma delas. Sei que meu irmãozinho está quase dormindo e que minha irmã brinca com as bonecas.

Daqui as pouco vão me chamar. Daqui a pouco terei de beijar a visita. Daqui a pouco iremos jantar. Mas está tão gostoso aqui, na cama do papai! Ele penteou os cabelos... escuros, molhados. Ele fala alguma coisa na sala. As pessoas estão rindo. Acho que eles estão falando das crianças - falando em nós! Acho que somos muito importantes.

Que gostoso! Quero ficar mais tempo aqui.
Que saudade! Que sopa cheirosa...

Sei que falta pouco.
Vou contar: um... dois... três... quatro...


Cristina Faraon

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Carolina


Carolina pertencia à estirpe rara das mulheres que amam pra sempre.

Ninguém eterniza um amor no peito por querer. Antes de ser virtude, isso é uma fatalidade. Acho que Carolina nem tentou se livrar do inquilino de seu peito. Nunca notei que estivesse incomodada com a dor. Ou sua esperança era invencível ou não tinha noção de muita coisa nessa vida. Não sabia nada sobre juventude, velhice, morte, passar do tempo, novo amor, prazer, aventura, filhos, oportunidade. Nenhuma dessas idéias mudou o rumo de sua vida.

Acho que o que Carolina não possuída era mesmo noção de tempo.

Minha curiosidade levou-me a ouvir as várias histórias que contavam a seu respeito. Todos acreditavam saber quem foi o rapaz que a conquistou tão irremediavelmente e depois sumiu no mundo.

Mencionaram o filho do Dr. Durval - rapaz claro, muito bonito mas franzino e sem vontade própria. Sem cabimento. Também ouvi algo a respeito de seu primo, o qual foi recebido certa vez pela família e passou o período de um ano a se curar de mal do pulmão. Eram como irmãos, dizem. Uma vez curado foi-se embora deixando-a doente de amor. Talvez, talvez. Ouvi até dizer que foi um homem casado, militar, que teria conseguido bem mais que olhares lânguidos da doce Carolina. Falaram também em um padre, um caixeiro viajante... Ninguém sabe ao certo e ela mesma jamais se deu ao trabalho de explicar. Não falava sobre seu amor. Apenas as pessoas o liam em seus olhos, seus gestos calmos e seu quase-sorriso.

Há quem diga que jamais deixou de ser virgem.

Carolina era uma morena clara de jeito cândido. Não falava muito e nunca parecia estar apressada. A expressão de seu rosto era a de uma pessoa que guardava sempre um segredo. Com a convivência essa impressão desvanecia, principalmente porque seu dia-a-dia pacato não deixava margem para fantasiarmos mistérios.

Só lembro do dia em que a conheci, mas não lembro bem de como me aproximei e nos tornamos inseparáveis. Quanto ao meu amor, origem e fim, ainda hoje desconheço.

Não sei muito do passado de Carolina, mas sei de sua alma, seus gestos calmos, do ritmo de seu coração. Éramos amigos e eu a amava. Seu coração, um mistério. Mas ela me sorria, deixava-se amar e isso bastava.

Seus cabelos eram encaracolados castanho escuros com umas mexas douradas que mais claras ficavam sob o sol. Os olhos eram de puro de mel com cílios enormes e densos. Quem a observasse ficaria preso aos seus olhos, sem dúvida. A muito custo escorregaria o olhar para o nariz e boca, os seios pequenos, os quadris de menina.

Não era volúpia, mas uma flor. Não vulcão, mas lampejos alaranjados de sol de fim de tarde, sol morrente, primeiros ventos noturnos.

Fiz de tudo: flores e favores. Promessas mil. Dei-lhe versos, músicas e meu silêncio. Com esse último a cativei. Mas nada a fazia esquecer o que houve. Nada a fazia falar. Carolina - dócil e distante, presente e inalcançável, que no entanto deixava-se abraçar.

Todas as músicas do mundo e todas as flores estavam no cheiro de seus cabelos quando ela recostava a cabeça em meu peito. Eu era capaz de ficar horas, toda uma vida deixando esse cheiro passear dentro de mim e me acariciar por dentro. Nesses momentos todas as palavras se tornavam sacrílegas. Eu era capaz de traze-la nos braços para sempre, suportar seu mistério e olhar perdido apenas para tê-la assim, com a cabeça recostada e sem ouvir meu coração.

Não fomos a mil festas, não dançamos mil quadrilhas nem pulamos mil fogueiras na época de São João. Jamais ela foi Colombina ou bruxinha de Halowen. Seu mundo era o dos sons distantes e das luzes tremeluzindo. Nada que fosse frenético a encantava, pelo contrário.

Contei sozinho as estrelas. Localizei solitário constelações escondidas naquela areia de astros do céu do interior. Cantei e contei histórias não para ela, mas para acalmar meu coração, para dar vazão a esse vulcão de mel dentro de mim - vulcão por ela inaugurado e mantido. Ela nada pedia. O som de minha voz a acalentava independentemente do que eu dissesse. Isso lhe bastava e passou a me bastar também.

A vida passou na janela. Eu vi. Eu estava ao lado de Carolina por todo esse tempo. Ela fechou a janela. Permaneci ao seu lado, ao lado de seu coração mas fora dele.

O tempo também passou, mas ela não reparou. A janela já estava fechada. Eu ouvia sons e tentava despertar sua curiosidade para a vida. Não me parecia que tanto frescor pudesse conter-se por muito mais tempo naquele corpo querido. Mas coube. Depois esvaiu-se para sempre.

Carolina viveu um eterno presente, o que a impediu de sentir seu próprio envelhecimento. Sua alma, sua dor, tudo ficou preso naquele dia sem fim. Falei em amor, falei em luar, em flores. Evoquei todos os lugares-comuns da paixão. Falhei. Deveria também ter-lhe falado no tempo, que só sabe ir.

Em algum lugar ela está agora, ainda presente, como um lindo lago, profundo como a dor do amor. Morri nesse lago. Morri longamente naquele presente eterno de Carolina. Ainda assim não lembro de jamais ter sido tão feliz.

Cristina Faraon

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Vai acontecer

Um dia você vai acordar e se levantar depressa demais, refeito demais.

Pela primeira vez vai conseguir ouvir todos os sons do mundo, tudo ao mesmo tempo, numa sinfonia alucinante.

Não há mais “barulhos”, mas sons que, estranhamente, convivem com o silêncio. Eles não são mais contrários. É como que se beijassem apaixonadamente. Fizeram as pazes!

O silêncio será quase palpável e cheio de significado. Você distinguirá perfeitamente as duas coisas e isso não lhe parecerá estranho. Aliás, aos poucos tudo vai se “desestranhando” diante de seus olhos, como um enorme novelo que se desembaraça.

Todas as perguntas que lhe inquietavam estarão respondidas de uma só vez. O entendimento total entrou em você como bola de fogo e as questões simplesmente desintegraram-se. Todas.

Tudo é agora tão obvio! Quais eram mesmo as suas angústias? Não importa, não importa mais. O certo é que a verdade está estampada, brilhante como o sol, despida de qualquer dubiedade. Tudo faz sentido.

Que dia é hoje?

Você entende com clareza porque e para quê nasceu, o motivo das guerras, das dores, das alegrias voláteis , galáxias... o escuro, o frio, o sol, a água, a morte, a saudade, o amor, a dor, o ódio, o êxtase, bondade, maldade...

Todas as coisas são apenas os braços sinuosos do mesmo rio - A Verdade.

Claro, claro... não poderia ser de outra forma! A noite segue-se ao dia e o dia à noite e tudo canta em seu próprio ritmo que, no entanto, juntando-se aos demais, forma um “tudo” do qual você é parte integrante e bela.

Agora você nota os bilhões de tons de cores dançando à sua frente. Cores novas e indescritíveis! Nuances deslumbrantes que jamais havia notado - e ainda assim o mundo continua o mesmo. O mesmíssimo mundo onde você nasceu. Tudo parece familiar e novo ao mesmo tempo. Todos os contrários coexistem de maneira inimaginável até pouco tempo atrás.

Como você não reparou nisso antes? É claro que o mar fala. Ele canta em tons graves - agora é possível ouvir. Tudo tem som.

Há som nas pedras e no orvalho, no arrastar sedoso das nuvens, no apodrecimento da fruta no chão, na ovulação das mulheres, no momento do enamoramento, na formação dos cristais, na dança dos vermes, nas decomposições, nas carnes mortas despregando dos ossos, na pétala que se desabraça da flor.

Algumas coisas falam, outras gritam e várias outras cantam. O fato é que tudo é som, luz e vibração. É possível ver e até contar todas as formas de vida que cabem em uma gota de água. Basta aproximar os olhos e tudo fica nítido, perfeitamente visível. É ´só aproximar os olhos e fixa-los em qualquer ponto, que toda a constituição do que você estiver olhando se descortina como um livro que se abre ao vento.

Por algum motivo essa beleza toda não oprime seu coração, não se transforma em nó na garganta, em pele arrepiada, tremor ou lágrima. Pela primeira vez você conheceu a beleza em estado bruto e mesmo assim não é possível perceber em si mesmo manifestação física alguma.

A princípio tudo isso é muito instigante. Impossível dizer quanto tempo você passa discernindo todas as combinações que compõe o universo ou deslumbrando-se diante de todas as formas de vida.

Tudo é forma de vida.

Aos poucos... uma sensação nova: uma saciedade jamais experimentada até então: saciedade de vida e de conhecimento. Tudo foi visto, rebuscado, percebido, analisado, entendido, decifrado. Um vento cálido passa ... através de você. E você entende o que ele diz, o que sem pressa lhe propõe.

Você é chamado a algo mais. Uma inquietação semelhante a uma nova curiosidade lhe impele a seguir adiante. Você ainda não sabe onde fica o "adiante" mas não há pressa - só pendor.

Então, saciado, você novamente olha em volta. Por algum motivo percebe e sente e sabe e vê que não faz mais parte. Precisa seguir. É inevitável seguir. Há um tipo diferente de magnetismo doce e irresistível. Você vibra pelo que, de alguma forma, sabe que vai acontecer. Sabe que é bom e está além, muito além.

Aos poucos você é tomado pela convicção de que o mundo todo se repete ... repete... repete... e assim será para sempre.

Alguma coisa mudou?

Você está destoando; não faz mais parte dessas coisas! Você precisa mesmo ir, quer muito, a ponto de começar a se inquietar.

De fato você se levantou rápido demais, leve demais...

Cristina Faraon