quinta-feira, 14 de junho de 2007

Carolina


Carolina pertencia à estirpe rara das mulheres que amam pra sempre.

Ninguém eterniza um amor no peito por querer. Antes de ser virtude, isso é uma fatalidade. Acho que Carolina nem tentou se livrar do inquilino de seu peito. Nunca notei que estivesse incomodada com a dor. Ou sua esperança era invencível ou não tinha noção de muita coisa nessa vida. Não sabia nada sobre juventude, velhice, morte, passar do tempo, novo amor, prazer, aventura, filhos, oportunidade. Nenhuma dessas idéias mudou o rumo de sua vida.

Acho que o que Carolina não possuída era mesmo noção de tempo.

Minha curiosidade levou-me a ouvir as várias histórias que contavam a seu respeito. Todos acreditavam saber quem foi o rapaz que a conquistou tão irremediavelmente e depois sumiu no mundo.

Mencionaram o filho do Dr. Durval - rapaz claro, muito bonito mas franzino e sem vontade própria. Sem cabimento. Também ouvi algo a respeito de seu primo, o qual foi recebido certa vez pela família e passou o período de um ano a se curar de mal do pulmão. Eram como irmãos, dizem. Uma vez curado foi-se embora deixando-a doente de amor. Talvez, talvez. Ouvi até dizer que foi um homem casado, militar, que teria conseguido bem mais que olhares lânguidos da doce Carolina. Falaram também em um padre, um caixeiro viajante... Ninguém sabe ao certo e ela mesma jamais se deu ao trabalho de explicar. Não falava sobre seu amor. Apenas as pessoas o liam em seus olhos, seus gestos calmos e seu quase-sorriso.

Há quem diga que jamais deixou de ser virgem.

Carolina era uma morena clara de jeito cândido. Não falava muito e nunca parecia estar apressada. A expressão de seu rosto era a de uma pessoa que guardava sempre um segredo. Com a convivência essa impressão desvanecia, principalmente porque seu dia-a-dia pacato não deixava margem para fantasiarmos mistérios.

Só lembro do dia em que a conheci, mas não lembro bem de como me aproximei e nos tornamos inseparáveis. Quanto ao meu amor, origem e fim, ainda hoje desconheço.

Não sei muito do passado de Carolina, mas sei de sua alma, seus gestos calmos, do ritmo de seu coração. Éramos amigos e eu a amava. Seu coração, um mistério. Mas ela me sorria, deixava-se amar e isso bastava.

Seus cabelos eram encaracolados castanho escuros com umas mexas douradas que mais claras ficavam sob o sol. Os olhos eram de puro de mel com cílios enormes e densos. Quem a observasse ficaria preso aos seus olhos, sem dúvida. A muito custo escorregaria o olhar para o nariz e boca, os seios pequenos, os quadris de menina.

Não era volúpia, mas uma flor. Não vulcão, mas lampejos alaranjados de sol de fim de tarde, sol morrente, primeiros ventos noturnos.

Fiz de tudo: flores e favores. Promessas mil. Dei-lhe versos, músicas e meu silêncio. Com esse último a cativei. Mas nada a fazia esquecer o que houve. Nada a fazia falar. Carolina - dócil e distante, presente e inalcançável, que no entanto deixava-se abraçar.

Todas as músicas do mundo e todas as flores estavam no cheiro de seus cabelos quando ela recostava a cabeça em meu peito. Eu era capaz de ficar horas, toda uma vida deixando esse cheiro passear dentro de mim e me acariciar por dentro. Nesses momentos todas as palavras se tornavam sacrílegas. Eu era capaz de traze-la nos braços para sempre, suportar seu mistério e olhar perdido apenas para tê-la assim, com a cabeça recostada e sem ouvir meu coração.

Não fomos a mil festas, não dançamos mil quadrilhas nem pulamos mil fogueiras na época de São João. Jamais ela foi Colombina ou bruxinha de Halowen. Seu mundo era o dos sons distantes e das luzes tremeluzindo. Nada que fosse frenético a encantava, pelo contrário.

Contei sozinho as estrelas. Localizei solitário constelações escondidas naquela areia de astros do céu do interior. Cantei e contei histórias não para ela, mas para acalmar meu coração, para dar vazão a esse vulcão de mel dentro de mim - vulcão por ela inaugurado e mantido. Ela nada pedia. O som de minha voz a acalentava independentemente do que eu dissesse. Isso lhe bastava e passou a me bastar também.

A vida passou na janela. Eu vi. Eu estava ao lado de Carolina por todo esse tempo. Ela fechou a janela. Permaneci ao seu lado, ao lado de seu coração mas fora dele.

O tempo também passou, mas ela não reparou. A janela já estava fechada. Eu ouvia sons e tentava despertar sua curiosidade para a vida. Não me parecia que tanto frescor pudesse conter-se por muito mais tempo naquele corpo querido. Mas coube. Depois esvaiu-se para sempre.

Carolina viveu um eterno presente, o que a impediu de sentir seu próprio envelhecimento. Sua alma, sua dor, tudo ficou preso naquele dia sem fim. Falei em amor, falei em luar, em flores. Evoquei todos os lugares-comuns da paixão. Falhei. Deveria também ter-lhe falado no tempo, que só sabe ir.

Em algum lugar ela está agora, ainda presente, como um lindo lago, profundo como a dor do amor. Morri nesse lago. Morri longamente naquele presente eterno de Carolina. Ainda assim não lembro de jamais ter sido tão feliz.

Cristina Faraon

terça-feira, 12 de junho de 2007

Parábola do amor (atenção: esse texto não é de minha autoria!)


O Semeador do amor saiu a semear.

Ao semear a sua semente, uma caiu à beira do coração, e, na mesma noite veio um sedutor e a roubou.

Outra caiu num coração que parecia estar aberto. Mas as muitas alternativas logo inibiram a semente, pois, no fundo, o coração não queria se deixar penetrar pelo amor.

Outra semente caiu entre muitos concorrentes. Sementes de todos os tipos de espinho, e que pegam em qualquer lugar, especialmente no chão seco, carente e desértico. Assim, sufocada, a semente do amor morreu antes de morrer no chão da umidade fértil.

Enfim, uma das sementes caiu num coração que queria amar, e que estava limpo e preparado; pois, nele, não havia sementes de enganos. Esse amou, foi feliz, e conheceu o sentido do encontro entre um homem e uma mulher.

Quem tem coração para sentir e entender, que sinta e entenda!

Caio Fábio

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Amarelei




Estou aqui como prova do meu esforço em escrever um texto sobre o Dia dos Namorados, conforme uma amiga pediu. Não está sendo fácil. Preciso que meu arquivo emocional vomite umas imagens legais, amenas, bonitas, sensíveis mas só me vem pensamentos em preto e branco. Tô com vírus?

Cupido, valei-me!

Esse deveria ser um dos temas mais fáceis do mundo. Não é.

Primeiro porque não tenho namorado, tenho marido.

Namorado é "será?..." Marido é "é isso aí!"

Segundo porque dependo de inspiração mas quando penso em Dia dos Namorados a primeira coisa que me vem à cabeça é multidão. Sério! Multidão nos restaurantes, nos motéis, multidões aflitas nas lojas, multidões correndo atrás de um presente especial para forjar um momento especial em um dia que deveria ser especial para uma pessoa que queria tanto que fosse mesmo especial.

Estou me esforçando para imaginar um ambiente relaxante, luz amena, ô música chata! decoração sensual, coisas vermelhas, cetim, tapete mofado, colchão de mola, bombons, flores roubadas de enterro, abraços, beijos, ar condicionado barulhento, vinho...

Não consigo controlar meus pensamentos! Estou sendo assaltada por perfumes fortes formando um dueto miserável, presentes que não couberam, muito sono, vontade imperiosa de dormir, tesão zero, riso amarelo, beijo chocho, cena de ciúme, lua - isso! lua! - vento do mar, cheiro de jasmim, menino catarrento vendendo flores... Ai, desisto!

O que está acontecendo comigo? Cadê meu espírito romântico? Sou mesmo um protozoário.

Vou tentar de novo: casal fogoso... jantar delicioso... vinho, sorrisos... declarações de bem-querer (falsificada, mas e daí?) encontro no restaurante com a ex dele... não aceitam cartão de crédito... fila no motel...

Chega. Minha imaginação está indiscutivelmente broxa. Vou tentar uns versos:

Noite dos namorados
Sem lua. Sou tua?

Noite dos machucados
Sozinhos na rua

Noite de vinho e queijo
Eu tua, te beijo

Proponho um amor perfeito:
"Me encerres no peito"

Me olhas desconfiado
Me abraças calado

Me finjo toda feliz
Sou mera matriz...

Amiga, valeu a intenção?
Cristina Faraon






segunda-feira, 4 de junho de 2007

Vazio




As lojas estão vazias
E as vitrines tristes, tristes.
Cartazes velhos, lâmpadas queimadas
Liquidações envelhecidas
E manequins pálidos
Com braços
Estranhamente retorcidos


Sentem dor, parece-me.

Lojas cavernosas
Vendedoras deserdadas
Da juventude e dos amores
Nada há. Tudo foi.
Mas eu ainda procuro.

Nem um pedaço de você
Nas lojas!
Nem um fio de seu cabelo,
Um toque ou um suspiro.
Nenhuma jóia que lhe substitua
Nenhum lançamento que compense
Esse universo esvaziado
O nó da vida
Preciso de um lindo presente
Mas o verbo de hoje é ontem

E ainda procuro
E procuro
E ando tanto
Nos labirintos escorregadios
Do shopping

No lanche frio
Procurei você

Procurei seus restos e sobras
Seus sinais de amor
Voltei a revirar cada vitrine
Nem assim lhe encontrei.

Cristina Faraon

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Velhinha porreta


Tenho planos quentes para quando ficar velhinha.

Mal posso esperar para finalmente usar uma saia verde com blusa amarela de florinhas vermelhas. Que tal? E poder dormir durante as cerimônias chatas sem um pingo de pudor.

Decidi também que não vou mais carregar peso. Não que hoje os homens não sejam gentis. Claro que eles oferecem lugar para sentar, juntam algo que cai no chão e às vezes até abrem a porta para eu entrar. O problema é que isso depende da idade do homem em relação à minha e também depende um pouco da minha produção no momento. Decotes ajudam. Só que no futuro vou abolir também os decotes - para o bem de todos.

Quando eu for uma velhinha tudo vai ser diferente! Homens e mulheres estarão a meu dispor. Abrirão portas, carregarão pacotes, oferecerão assento, buscarão água e ainda vão me abanar quando eu fingir que estiver me sentindo mal. A humanidade será meu séqüito. E ai daquele que rir do meu chapéu "grená"!

Adeus, manicura! Pra que isso? Só vou ao salão quando desejar pintar as unhas de verde e os cabelos de azul para assistir algum DVD (se ainda existirem) de show de rock.

Todos sentirão inveja da minha liberdade. Vou esfrega-la na cara do muuuuundo!

Barriguinha? Sim, e daí? Não vou posar pra Play Boy, enjoei de homem e não ganho a vida mostrando a bunda. Já ganhei, mas estou aposentada. Calma, não sou prostituta! É que vida de mulher casada sabe como é né? A bunda está incluída no pacote.

Ah, os homens! Vou rir da cara de babão deles olhando para as garotas. Na verdade hoje já rio, mas será mais divertido no futuro. E vou rir também das garotas querendo parecer sexy para os homens babões. Olharei todos como filhos e será muito engraçado mesmo. Os velhos serão amigos, irmãos, pen drive (memória auxiliar) parceiros de passeio na praça ou simplesmente uns chatos catarrentos.

E nunca mais, mas nunca mais mesmo, vou me apaixonar. Xô, babaquice! Pode anotar aí no caderninho. Coração escravizado? Nem pensar! Ficar querendo, lembrando, imaginando, suspirando, procurando um pretexto para telefonar? Tá me estranhando? Coração batendo se ele vem, coração parando se ele não liga? Dor, ciúme, medo, desejo inclemente? Nunca mais!

“- Ê gostosa!”
“- Você diz isso porque você não conhece a minha neta!”

Isso é que é resposta, né?

Vai ser legal sair de manhã para andar na praça, contar história para as crianças, comprar flores, conversar com as outras velhinhas, encomendar peças de crochê para presentear as noras, olhar de camarote a moda fazendo todo mundo de palhaço e rir dos “últimos lançamentos” que usei até enjoar quando era nova. Detalhe: essa última cena já está acontecendo. Não espalha.

Estarão inapelavelmente abolidos: os saltos altos, o bicos finos, sutiãs com arame, calcinha - especilamente as com renda que espetam, bolsa combinando, roupa apertadinha, camisolas transparentes. Em resumo: tudo o que aperta, espeta e pesa - aí incluídos os homens - desaparecerão desse universo futurista. Sobre as camisolas (não vou usar pijama. Tome nota também) serão todas de algodão e bordadas com motivos infantis: coelhinho, carinhas sorridentes, nuvens, carroça de flores, Frajola, Tom e Jerry, borboletas maluquinhas etc. Tudo bem se alguém rir. Também vou rir de tudo e de todos.
Uma velhinha pode tudo, exceto praticar exercícios de alto impacto - aí incluído o sexo. Mas e quem disse que vou querer? Não vou sentir saudade alguma do tempo em que isso era importante para mim.

Ah, a liberdade! Será doce e engraçada. A liberdade será sapeca, sem vícios e sem medo de morrer. Nunca mais irei a algum programa que realmente não deseje ir. Festa chata? Enterro? Inauguração de botique de amiga? Programa de índio? Casamentos condenados? Quinze anos mala? Vou bocejar olhando a mulherada ao meu redor descabelando atrás de presentes, roupas, cabeleireiros, horários, arranjos. Quando eu disser que não vou, não vou e pronto.

“- Mas vovó, o pessoal vai ficar magoado!”
“- Que magoado o que? Vão até curtir minha ausência.”

“- Mas mãe, eles estão contando com sua presença! Vai ficar chato!”
“- Já disse que não vou! A gente fica velha e todo mundo acha que pode mandar? Eu troquei suas fraldas, seu mijão! Agora é que não vou mesmo, só porque vocês estão querendo mandar em mim.”
“- Mas então o que é que eu digo quando perguntarem pela senhora?”
“- Digam que estou com pressão alta, que gripei, que estou com diarréia. Ou simplesmente falem a verdade: ela não veio porque é uma velhinha pentelha e está cada dia mais teimosa. Pronto.”
E qando eu não gostar de algum presente vou falar na lata.
Caraca!

E se me chatearem muito vou usar a clássica frase: “Respeitem meus cabelos brancos!” Legal. Sempre tive vontade de atacar com esses dizeres. Quando parar de pintar os cabelos finalmente será possível. Claro, porque você não espera que eu passe o resto da vida como refém de tinturas.

Vou também incorporar vários personagens. Chico Anísio que se cuide. Serei uma velhinha doente quando estiver querendo atenção, divertida quando quiser curtir com a cara dos outros, compreensiva e cheia de dicas quando estiver a fim da companhia dos jovens, religiosa, cozinheira, Forrest Gump (contadora de histórias), atleta (sério! Só ainda nãoo bolei como) sexóloga (pretendo conservar a memória), sacana (só para variar) vovozinha dedicada, velhota rebarbada, dorminhoca, espertinha, cheia do gás ou senhora bordadeira. Tudo dependerá da posição das marés, da lua, da época do ano, do ciclo das chuvas e, principalmente, do meu fígado. Porque não terei problema de pressão, entendido?

Nem tente traçar meu mapa astral que lhe dou uma bengalada.

Claro que vou usar bengala. Não porque vá precisar mas para compor corretamente um dos meus personagens de estimação: a velhinha frágil.

Para um plano perfeito não pode faltar o fecho triunfal: a morte. É quando vou sair de cena e deixar para trás todos os meus cacarecos. Jogue fora se quiser, menos as fotos e as poesias porque aí já é desaforo.

Planejo ser dessas vovozinhas cheias de saúde que fazem o favor de morrer de repente enquanto cochilam na cadeira de balanço - pode ir comprando a minha. Quero uma com o aro de madeira bem grande de forma que ocupe metade da sala e proporcione um movimento bem amplo. Não me venha com aquelas de mola.
Eu mesma vou bolar a programação para meu funeral. Músicas, flores, tempo de duração etc. Aguardem. Se não todos, pelo menos uma meia dúzia de pessoas espero que chorem, nem que seja um pouquinho. Não é possível que eu só tenha feito merda nessa vida!

Ainda não me mandaram preencher nenhum formulário mas se eu tiver escolha prometo não virar fantasma. Uma vez morta vou cair fora desse mundo com mala e cuia. Ah, esqueci que dessa vida a gente não leva nada... Bem, podem ficar com minha mala. A cuia dê para os pobres.

O certo é que pretendo ir para aquele outro mundo legal, o “Hopy Hari do Além”. Mas no caso improvável de ter que virar fantasma e precisar vagar por aqui (ô programa de índio!) juro não aparecer para ninguém a noite nem fazer barulhos estranhos na cozinha. Prometo também não arrastar correntes mesmo porque não consigo ver sentido nesse lance de arrastar correntes. Coisa mais besta! O máximo que vou fazer é olhar para todos vocês com ternura e talvez beijar-lhes a testa bem de leve para que não acordem assustados na madrugada.

Depois é claro: vou para a night que ninguém é de ferro.
Cristina Faraon

sábado, 26 de maio de 2007

As despetaladas

Conhece essa atriz? Repare com cuidado.
Este rosto pelo menos lhe parece familiar?

Trata-se de uma atriz famozézima. Uma ex-gostosa. Você assistiu novelas e filmes estrelados por ela. Você a invejava. Ela era linda, roliça. Tinha coxas grossas que configurava crime serem escondidas em calças compridas. Ela era obrigada por questões morais a usar mini saia. Era rosada e seu sorriso mostrava saúde, vitalidade e muito gás a ser gasto com amor, amor, amor. Era uma garota completamente abraçável, apalpável, apertável e fungável. O problema é que ficou famosa demais e o que se seguiu a isso foi a pressão para jogar as carnes fora. Pois é, a iludida aí trocou a beleza real pela beleza virtual, que só convence em fotos, com muita maquiagem e, de preferência, embrulhada em alta costura.

Eu, hein!

Diversas vezes me surpreendi ao rever atrizes ex-gostosas. Mulheres lindas que viraram esqueleto, envelheceram uns 8 anos, trocaram coxas por cambitos e hoje ainda conseguem sorrir confiantes. Estranho, estranho mesmo! Quando vejo essas mulheres sempre exclamo "-Por que será que ela fez isso consigo mesma? Que lástima! Ela era tão linda!"

Lembra como antigamente a Fernanda Torres era um amor em sua beleza roliça e branca? Um anjo barroco! Ela não era gorda, apenas tinha carne. Que mal havia nisso?

Outra que se detonou e envelheceu uns 10 anos rapidinho foi a Cássia Kiss. Era tão bonita! Mas emagreceu impiedosamente. Dá até agonia de olhar.

Quer mais um exemplo de mulher que estava incomodada com a própria beleza? A Débora Secco. Virou palito. Um palito bem produzido, claro. Mas palito.

Sobre a Giselle... não sei se algum dia já teve bunda, coxas e cintura. Acho que nasceu assim mesmo: rosto e cabelo. Tudo bem, não tem culpa. Mostrou-se até inteligente por ter conseguido tirar proveito da própria carência.

Agora me digam: o que esse povo da moda tem contra as coxas? Principalmente aquele par que transborda em quadris redondos, dançantes e apetitosos? Vai dizer que é feio?

Vou pedir uma coisa: nunca mais elogie uma mulher bonita. Cale-se. Finja que não viu. Elogio hoje em dia funciona como maldição: no mês seguinte a sua deusa pode ter sido transformada em escombro de ossos sorridentes. E o pior: a culpa vai ser sua!

Sendo assim, manifesto aqui meu sincero pesar por todas as antigas flores que se livraram das pétalas e hoje sobrevivem como caules.




segunda-feira, 14 de maio de 2007

Eles ou eu?


Pensei que eu já tivesse conseguido dirgerir isso com uma indiferença maldita e confortável.

A gente vê tanta miséria que acaba cansando de pensar nela. Ou se acostuma a pensar que é um fato da vida e ponto final. Bem, nem sei dizer como encaro as fotos e filmagens sobre a miséria.

O detalhe é que ao vivo é diferente.
Pensei que eu já estivesse acostumada, mas não. Na televisão ou em fotos a mente da gente acaba classificando tudo aquilo junto com as imagens dos filmes dramáticos que já vimos; guerras, romances impossíveis, fim do mundo, história de assassinos, catástrofes, incêndios etc. Para defender nossa saúde mental temos um dispositivo interno que arquiva as informações horrorosas e chocantes na mesma prateleira dos filmes. Acho que é assim que funciona.

Tá na hora de mudar essa arrumação. A miséria humana tem que ter uma prateleira só para ela, bem de frente, ao alcance dos olhos.

Hoje a noite vi uma cena comum para os outros. Para mim, que vivo em uma bolha-classe-média não é comum. É uma coisa do outro mundo - mesmo!

Quando fui pegar meu carro para voltar para casa vi umas pessoas no meio de um monte de lixo catando algo para comer. Eles reviravam o lixo como se fossem cães! Meu Deus! Tudo fedia! Como alguém poderia comer alguma coisa daquele monte?

Na televisão não choca. A gente está acostumado. Mas ao vivo e à cores é um soco no estômago. Dói o coração, dói a alma e a consciência.

Aquilo é indigno de um ser humano! É degradante. Não consigo esquecer.

Como será que aquelas pessoas se sentem? Ou elas não tem tempo para essas filosofadas? Filosofar não enche barriga, né?

Elas poderiam me olhar pelo menos com ódio, mas não. Passei perto sem chamar a mínima atenção. Nada! Não despertei o menor interesse naquelas pessoas. Para eles o lixo tinha mais a lhes oferecer do que eu. Havia mais esperança no lixo do que na minha pessoa. O silêncio deles foi contundente.

E o que estou fazendo aqui? Será que escrever no blog pode ajuda-los? Claro que não. Não ajuda nem a mim mesma, que saí de lá me sentindo uma assassina.

Seres humanos como eu, catando lixo como cães!

Agora olhe em meus olhos e crave em meu peito a pergunta fatal: "E aí, Cristina? O que você fez por eles? Conte o resto da história."
Resposta: não fiz nada. Na verdade temi que me assaltassem ou agredissem. Sabe-se lá o que passa na cabeça daquelas pessoas estranhas!

Tendo em vista tudo o que foi dito, quem se desumanizou dentro desse contexto: eles ou eu?
Cristina Faraon

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Carolina


Carolina pertencia à estirpe rara das mulheres que amam pra sempre.

Ninguém eterniza um amor no peito por querer. Antes de ser virtude, isso é uma fatalidade. Acho que Carolina nem tentou se livrar do inquilino de seu peito. Nunca notei que estivesse incomodada com a dor. Ou sua esperança era invencível ou não tinha noção de muita coisa nessa vida. Não sabia nada sobre juventude, velhice, morte, passar do tempo, novo amor, prazer, aventura, filhos, oportunidade. Nenhuma dessas idéias mudou o rumo de sua vida.

Acho que o que Carolina não possuída era mesmo noção de tempo.

Minha curiosidade levou-me a ouvir as várias histórias que contavam a seu respeito. Todos acreditavam saber quem foi o rapaz que a conquistou tão irremediavelmente e depois sumiu no mundo.

Mencionaram o filho do Dr. Durval - rapaz claro, muito bonito mas franzino e sem vontade própria. Sem cabimento. Também ouvi algo a respeito de seu primo, o qual foi recebido certa vez pela família e passou o período de um ano a se curar de mal do pulmão. Eram como irmãos, dizem. Uma vez curado foi-se embora deixando-a doente de amor. Talvez, talvez. Ouvi até dizer que foi um homem casado, militar, que teria conseguido bem mais que olhares lânguidos da doce Carolina. Falaram também em um padre, um caixeiro viajante... Ninguém sabe ao certo e ela mesma jamais se deu ao trabalho de explicar. Não falava sobre seu amor. Apenas as pessoas o liam em seus olhos, seus gestos calmos e seu quase-sorriso.

Há quem diga que jamais deixou de ser virgem.

Carolina era uma morena clara de jeito cândido. Não falava muito e nunca parecia estar apressada. A expressão de seu rosto era a de uma pessoa que guardava sempre um segredo. Com a convivência essa impressão desvanecia, principalmente porque seu dia-a-dia pacato não deixava margem para fantasiarmos mistérios.

Só lembro do dia em que a conheci, mas não lembro bem de como me aproximei e nos tornamos inseparáveis. Quanto ao meu amor, origem e fim, ainda hoje desconheço.

Não sei muito do passado de Carolina, mas sei de sua alma, seus gestos calmos, do ritmo de seu coração. Éramos amigos e eu a amava. Seu coração, um mistério. Mas ela me sorria, deixava-se amar e isso bastava.

Seus cabelos eram encaracolados castanho escuros com umas mexas douradas que mais claras ficavam sob o sol. Os olhos eram de puro de mel com cílios enormes e densos. Quem a observasse ficaria preso aos seus olhos, sem dúvida. A muito custo escorregaria o olhar para o nariz e boca, os seios pequenos, os quadris de menina.

Não era volúpia, mas uma flor. Não vulcão, mas lampejos alaranjados de sol de fim de tarde, sol morrente, primeiros ventos noturnos.

Fiz de tudo: flores e favores. Promessas mil. Dei-lhe versos, músicas e meu silêncio. Com esse último a cativei. Mas nada a fazia esquecer o que houve. Nada a fazia falar. Carolina - dócil e distante, presente e inalcançável, que no entanto deixava-se abraçar.

Todas as músicas do mundo e todas as flores estavam no cheiro de seus cabelos quando ela recostava a cabeça em meu peito. Eu era capaz de ficar horas, toda uma vida deixando esse cheiro passear dentro de mim e me acariciar por dentro. Nesses momentos todas as palavras se tornavam sacrílegas. Eu era capaz de traze-la nos braços para sempre, suportar seu mistério e olhar perdido apenas para tê-la assim, com a cabeça recostada e sem ouvir meu coração.

Não fomos a mil festas, não dançamos mil quadrilhas nem pulamos mil fogueiras na época de São João. Jamais ela foi Colombina ou bruxinha de Halowen. Seu mundo era o dos sons distantes e das luzes tremeluzindo. Nada que fosse frenético a encantava, pelo contrário.

Contei sozinho as estrelas. Localizei solitário constelações escondidas naquela areia de astros do céu do interior. Cantei e contei histórias não para ela, mas para acalmar meu coração, para dar vazão a esse vulcão de mel dentro de mim - vulcão por ela inaugurado e mantido. Ela nada pedia. O som de minha voz a acalentava independentemente do que eu dissesse. Isso lhe bastava e passou a me bastar também.

A vida passou na janela. Eu vi. Eu estava ao lado de Carolina por todo esse tempo. Ela fechou a janela. Permaneci ao seu lado, ao lado de seu coração mas fora dele.

O tempo também passou, mas ela não reparou. A janela já estava fechada. Eu ouvia sons e tentava despertar sua curiosidade para a vida. Não me parecia que tanto frescor pudesse conter-se por muito mais tempo naquele corpo querido. Mas coube. Depois esvaiu-se para sempre.

Carolina viveu um eterno presente, o que a impediu de sentir seu próprio envelhecimento. Sua alma, sua dor, tudo ficou preso naquele dia sem fim. Falei em amor, falei em luar, em flores. Evoquei todos os lugares-comuns da paixão. Falhei. Deveria também ter-lhe falado no tempo, que só sabe ir.

Em algum lugar ela está agora, ainda presente, como um lindo lago, profundo como a dor do amor. Morri nesse lago. Morri longamente naquele presente eterno de Carolina. Ainda assim não lembro de jamais ter sido tão feliz.

Cristina Faraon

terça-feira, 12 de junho de 2007

Parábola do amor (atenção: esse texto não é de minha autoria!)


O Semeador do amor saiu a semear.

Ao semear a sua semente, uma caiu à beira do coração, e, na mesma noite veio um sedutor e a roubou.

Outra caiu num coração que parecia estar aberto. Mas as muitas alternativas logo inibiram a semente, pois, no fundo, o coração não queria se deixar penetrar pelo amor.

Outra semente caiu entre muitos concorrentes. Sementes de todos os tipos de espinho, e que pegam em qualquer lugar, especialmente no chão seco, carente e desértico. Assim, sufocada, a semente do amor morreu antes de morrer no chão da umidade fértil.

Enfim, uma das sementes caiu num coração que queria amar, e que estava limpo e preparado; pois, nele, não havia sementes de enganos. Esse amou, foi feliz, e conheceu o sentido do encontro entre um homem e uma mulher.

Quem tem coração para sentir e entender, que sinta e entenda!

Caio Fábio

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Amarelei




Estou aqui como prova do meu esforço em escrever um texto sobre o Dia dos Namorados, conforme uma amiga pediu. Não está sendo fácil. Preciso que meu arquivo emocional vomite umas imagens legais, amenas, bonitas, sensíveis mas só me vem pensamentos em preto e branco. Tô com vírus?

Cupido, valei-me!

Esse deveria ser um dos temas mais fáceis do mundo. Não é.

Primeiro porque não tenho namorado, tenho marido.

Namorado é "será?..." Marido é "é isso aí!"

Segundo porque dependo de inspiração mas quando penso em Dia dos Namorados a primeira coisa que me vem à cabeça é multidão. Sério! Multidão nos restaurantes, nos motéis, multidões aflitas nas lojas, multidões correndo atrás de um presente especial para forjar um momento especial em um dia que deveria ser especial para uma pessoa que queria tanto que fosse mesmo especial.

Estou me esforçando para imaginar um ambiente relaxante, luz amena, ô música chata! decoração sensual, coisas vermelhas, cetim, tapete mofado, colchão de mola, bombons, flores roubadas de enterro, abraços, beijos, ar condicionado barulhento, vinho...

Não consigo controlar meus pensamentos! Estou sendo assaltada por perfumes fortes formando um dueto miserável, presentes que não couberam, muito sono, vontade imperiosa de dormir, tesão zero, riso amarelo, beijo chocho, cena de ciúme, lua - isso! lua! - vento do mar, cheiro de jasmim, menino catarrento vendendo flores... Ai, desisto!

O que está acontecendo comigo? Cadê meu espírito romântico? Sou mesmo um protozoário.

Vou tentar de novo: casal fogoso... jantar delicioso... vinho, sorrisos... declarações de bem-querer (falsificada, mas e daí?) encontro no restaurante com a ex dele... não aceitam cartão de crédito... fila no motel...

Chega. Minha imaginação está indiscutivelmente broxa. Vou tentar uns versos:

Noite dos namorados
Sem lua. Sou tua?

Noite dos machucados
Sozinhos na rua

Noite de vinho e queijo
Eu tua, te beijo

Proponho um amor perfeito:
"Me encerres no peito"

Me olhas desconfiado
Me abraças calado

Me finjo toda feliz
Sou mera matriz...

Amiga, valeu a intenção?
Cristina Faraon






segunda-feira, 4 de junho de 2007

Vazio




As lojas estão vazias
E as vitrines tristes, tristes.
Cartazes velhos, lâmpadas queimadas
Liquidações envelhecidas
E manequins pálidos
Com braços
Estranhamente retorcidos


Sentem dor, parece-me.

Lojas cavernosas
Vendedoras deserdadas
Da juventude e dos amores
Nada há. Tudo foi.
Mas eu ainda procuro.

Nem um pedaço de você
Nas lojas!
Nem um fio de seu cabelo,
Um toque ou um suspiro.
Nenhuma jóia que lhe substitua
Nenhum lançamento que compense
Esse universo esvaziado
O nó da vida
Preciso de um lindo presente
Mas o verbo de hoje é ontem

E ainda procuro
E procuro
E ando tanto
Nos labirintos escorregadios
Do shopping

No lanche frio
Procurei você

Procurei seus restos e sobras
Seus sinais de amor
Voltei a revirar cada vitrine
Nem assim lhe encontrei.

Cristina Faraon

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Velhinha porreta


Tenho planos quentes para quando ficar velhinha.

Mal posso esperar para finalmente usar uma saia verde com blusa amarela de florinhas vermelhas. Que tal? E poder dormir durante as cerimônias chatas sem um pingo de pudor.

Decidi também que não vou mais carregar peso. Não que hoje os homens não sejam gentis. Claro que eles oferecem lugar para sentar, juntam algo que cai no chão e às vezes até abrem a porta para eu entrar. O problema é que isso depende da idade do homem em relação à minha e também depende um pouco da minha produção no momento. Decotes ajudam. Só que no futuro vou abolir também os decotes - para o bem de todos.

Quando eu for uma velhinha tudo vai ser diferente! Homens e mulheres estarão a meu dispor. Abrirão portas, carregarão pacotes, oferecerão assento, buscarão água e ainda vão me abanar quando eu fingir que estiver me sentindo mal. A humanidade será meu séqüito. E ai daquele que rir do meu chapéu "grená"!

Adeus, manicura! Pra que isso? Só vou ao salão quando desejar pintar as unhas de verde e os cabelos de azul para assistir algum DVD (se ainda existirem) de show de rock.

Todos sentirão inveja da minha liberdade. Vou esfrega-la na cara do muuuuundo!

Barriguinha? Sim, e daí? Não vou posar pra Play Boy, enjoei de homem e não ganho a vida mostrando a bunda. Já ganhei, mas estou aposentada. Calma, não sou prostituta! É que vida de mulher casada sabe como é né? A bunda está incluída no pacote.

Ah, os homens! Vou rir da cara de babão deles olhando para as garotas. Na verdade hoje já rio, mas será mais divertido no futuro. E vou rir também das garotas querendo parecer sexy para os homens babões. Olharei todos como filhos e será muito engraçado mesmo. Os velhos serão amigos, irmãos, pen drive (memória auxiliar) parceiros de passeio na praça ou simplesmente uns chatos catarrentos.

E nunca mais, mas nunca mais mesmo, vou me apaixonar. Xô, babaquice! Pode anotar aí no caderninho. Coração escravizado? Nem pensar! Ficar querendo, lembrando, imaginando, suspirando, procurando um pretexto para telefonar? Tá me estranhando? Coração batendo se ele vem, coração parando se ele não liga? Dor, ciúme, medo, desejo inclemente? Nunca mais!

“- Ê gostosa!”
“- Você diz isso porque você não conhece a minha neta!”

Isso é que é resposta, né?

Vai ser legal sair de manhã para andar na praça, contar história para as crianças, comprar flores, conversar com as outras velhinhas, encomendar peças de crochê para presentear as noras, olhar de camarote a moda fazendo todo mundo de palhaço e rir dos “últimos lançamentos” que usei até enjoar quando era nova. Detalhe: essa última cena já está acontecendo. Não espalha.

Estarão inapelavelmente abolidos: os saltos altos, o bicos finos, sutiãs com arame, calcinha - especilamente as com renda que espetam, bolsa combinando, roupa apertadinha, camisolas transparentes. Em resumo: tudo o que aperta, espeta e pesa - aí incluídos os homens - desaparecerão desse universo futurista. Sobre as camisolas (não vou usar pijama. Tome nota também) serão todas de algodão e bordadas com motivos infantis: coelhinho, carinhas sorridentes, nuvens, carroça de flores, Frajola, Tom e Jerry, borboletas maluquinhas etc. Tudo bem se alguém rir. Também vou rir de tudo e de todos.
Uma velhinha pode tudo, exceto praticar exercícios de alto impacto - aí incluído o sexo. Mas e quem disse que vou querer? Não vou sentir saudade alguma do tempo em que isso era importante para mim.

Ah, a liberdade! Será doce e engraçada. A liberdade será sapeca, sem vícios e sem medo de morrer. Nunca mais irei a algum programa que realmente não deseje ir. Festa chata? Enterro? Inauguração de botique de amiga? Programa de índio? Casamentos condenados? Quinze anos mala? Vou bocejar olhando a mulherada ao meu redor descabelando atrás de presentes, roupas, cabeleireiros, horários, arranjos. Quando eu disser que não vou, não vou e pronto.

“- Mas vovó, o pessoal vai ficar magoado!”
“- Que magoado o que? Vão até curtir minha ausência.”

“- Mas mãe, eles estão contando com sua presença! Vai ficar chato!”
“- Já disse que não vou! A gente fica velha e todo mundo acha que pode mandar? Eu troquei suas fraldas, seu mijão! Agora é que não vou mesmo, só porque vocês estão querendo mandar em mim.”
“- Mas então o que é que eu digo quando perguntarem pela senhora?”
“- Digam que estou com pressão alta, que gripei, que estou com diarréia. Ou simplesmente falem a verdade: ela não veio porque é uma velhinha pentelha e está cada dia mais teimosa. Pronto.”
E qando eu não gostar de algum presente vou falar na lata.
Caraca!

E se me chatearem muito vou usar a clássica frase: “Respeitem meus cabelos brancos!” Legal. Sempre tive vontade de atacar com esses dizeres. Quando parar de pintar os cabelos finalmente será possível. Claro, porque você não espera que eu passe o resto da vida como refém de tinturas.

Vou também incorporar vários personagens. Chico Anísio que se cuide. Serei uma velhinha doente quando estiver querendo atenção, divertida quando quiser curtir com a cara dos outros, compreensiva e cheia de dicas quando estiver a fim da companhia dos jovens, religiosa, cozinheira, Forrest Gump (contadora de histórias), atleta (sério! Só ainda nãoo bolei como) sexóloga (pretendo conservar a memória), sacana (só para variar) vovozinha dedicada, velhota rebarbada, dorminhoca, espertinha, cheia do gás ou senhora bordadeira. Tudo dependerá da posição das marés, da lua, da época do ano, do ciclo das chuvas e, principalmente, do meu fígado. Porque não terei problema de pressão, entendido?

Nem tente traçar meu mapa astral que lhe dou uma bengalada.

Claro que vou usar bengala. Não porque vá precisar mas para compor corretamente um dos meus personagens de estimação: a velhinha frágil.

Para um plano perfeito não pode faltar o fecho triunfal: a morte. É quando vou sair de cena e deixar para trás todos os meus cacarecos. Jogue fora se quiser, menos as fotos e as poesias porque aí já é desaforo.

Planejo ser dessas vovozinhas cheias de saúde que fazem o favor de morrer de repente enquanto cochilam na cadeira de balanço - pode ir comprando a minha. Quero uma com o aro de madeira bem grande de forma que ocupe metade da sala e proporcione um movimento bem amplo. Não me venha com aquelas de mola.
Eu mesma vou bolar a programação para meu funeral. Músicas, flores, tempo de duração etc. Aguardem. Se não todos, pelo menos uma meia dúzia de pessoas espero que chorem, nem que seja um pouquinho. Não é possível que eu só tenha feito merda nessa vida!

Ainda não me mandaram preencher nenhum formulário mas se eu tiver escolha prometo não virar fantasma. Uma vez morta vou cair fora desse mundo com mala e cuia. Ah, esqueci que dessa vida a gente não leva nada... Bem, podem ficar com minha mala. A cuia dê para os pobres.

O certo é que pretendo ir para aquele outro mundo legal, o “Hopy Hari do Além”. Mas no caso improvável de ter que virar fantasma e precisar vagar por aqui (ô programa de índio!) juro não aparecer para ninguém a noite nem fazer barulhos estranhos na cozinha. Prometo também não arrastar correntes mesmo porque não consigo ver sentido nesse lance de arrastar correntes. Coisa mais besta! O máximo que vou fazer é olhar para todos vocês com ternura e talvez beijar-lhes a testa bem de leve para que não acordem assustados na madrugada.

Depois é claro: vou para a night que ninguém é de ferro.
Cristina Faraon

sábado, 26 de maio de 2007

As despetaladas

Conhece essa atriz? Repare com cuidado.
Este rosto pelo menos lhe parece familiar?

Trata-se de uma atriz famozézima. Uma ex-gostosa. Você assistiu novelas e filmes estrelados por ela. Você a invejava. Ela era linda, roliça. Tinha coxas grossas que configurava crime serem escondidas em calças compridas. Ela era obrigada por questões morais a usar mini saia. Era rosada e seu sorriso mostrava saúde, vitalidade e muito gás a ser gasto com amor, amor, amor. Era uma garota completamente abraçável, apalpável, apertável e fungável. O problema é que ficou famosa demais e o que se seguiu a isso foi a pressão para jogar as carnes fora. Pois é, a iludida aí trocou a beleza real pela beleza virtual, que só convence em fotos, com muita maquiagem e, de preferência, embrulhada em alta costura.

Eu, hein!

Diversas vezes me surpreendi ao rever atrizes ex-gostosas. Mulheres lindas que viraram esqueleto, envelheceram uns 8 anos, trocaram coxas por cambitos e hoje ainda conseguem sorrir confiantes. Estranho, estranho mesmo! Quando vejo essas mulheres sempre exclamo "-Por que será que ela fez isso consigo mesma? Que lástima! Ela era tão linda!"

Lembra como antigamente a Fernanda Torres era um amor em sua beleza roliça e branca? Um anjo barroco! Ela não era gorda, apenas tinha carne. Que mal havia nisso?

Outra que se detonou e envelheceu uns 10 anos rapidinho foi a Cássia Kiss. Era tão bonita! Mas emagreceu impiedosamente. Dá até agonia de olhar.

Quer mais um exemplo de mulher que estava incomodada com a própria beleza? A Débora Secco. Virou palito. Um palito bem produzido, claro. Mas palito.

Sobre a Giselle... não sei se algum dia já teve bunda, coxas e cintura. Acho que nasceu assim mesmo: rosto e cabelo. Tudo bem, não tem culpa. Mostrou-se até inteligente por ter conseguido tirar proveito da própria carência.

Agora me digam: o que esse povo da moda tem contra as coxas? Principalmente aquele par que transborda em quadris redondos, dançantes e apetitosos? Vai dizer que é feio?

Vou pedir uma coisa: nunca mais elogie uma mulher bonita. Cale-se. Finja que não viu. Elogio hoje em dia funciona como maldição: no mês seguinte a sua deusa pode ter sido transformada em escombro de ossos sorridentes. E o pior: a culpa vai ser sua!

Sendo assim, manifesto aqui meu sincero pesar por todas as antigas flores que se livraram das pétalas e hoje sobrevivem como caules.




segunda-feira, 14 de maio de 2007

Eles ou eu?


Pensei que eu já tivesse conseguido dirgerir isso com uma indiferença maldita e confortável.

A gente vê tanta miséria que acaba cansando de pensar nela. Ou se acostuma a pensar que é um fato da vida e ponto final. Bem, nem sei dizer como encaro as fotos e filmagens sobre a miséria.

O detalhe é que ao vivo é diferente.
Pensei que eu já estivesse acostumada, mas não. Na televisão ou em fotos a mente da gente acaba classificando tudo aquilo junto com as imagens dos filmes dramáticos que já vimos; guerras, romances impossíveis, fim do mundo, história de assassinos, catástrofes, incêndios etc. Para defender nossa saúde mental temos um dispositivo interno que arquiva as informações horrorosas e chocantes na mesma prateleira dos filmes. Acho que é assim que funciona.

Tá na hora de mudar essa arrumação. A miséria humana tem que ter uma prateleira só para ela, bem de frente, ao alcance dos olhos.

Hoje a noite vi uma cena comum para os outros. Para mim, que vivo em uma bolha-classe-média não é comum. É uma coisa do outro mundo - mesmo!

Quando fui pegar meu carro para voltar para casa vi umas pessoas no meio de um monte de lixo catando algo para comer. Eles reviravam o lixo como se fossem cães! Meu Deus! Tudo fedia! Como alguém poderia comer alguma coisa daquele monte?

Na televisão não choca. A gente está acostumado. Mas ao vivo e à cores é um soco no estômago. Dói o coração, dói a alma e a consciência.

Aquilo é indigno de um ser humano! É degradante. Não consigo esquecer.

Como será que aquelas pessoas se sentem? Ou elas não tem tempo para essas filosofadas? Filosofar não enche barriga, né?

Elas poderiam me olhar pelo menos com ódio, mas não. Passei perto sem chamar a mínima atenção. Nada! Não despertei o menor interesse naquelas pessoas. Para eles o lixo tinha mais a lhes oferecer do que eu. Havia mais esperança no lixo do que na minha pessoa. O silêncio deles foi contundente.

E o que estou fazendo aqui? Será que escrever no blog pode ajuda-los? Claro que não. Não ajuda nem a mim mesma, que saí de lá me sentindo uma assassina.

Seres humanos como eu, catando lixo como cães!

Agora olhe em meus olhos e crave em meu peito a pergunta fatal: "E aí, Cristina? O que você fez por eles? Conte o resto da história."
Resposta: não fiz nada. Na verdade temi que me assaltassem ou agredissem. Sabe-se lá o que passa na cabeça daquelas pessoas estranhas!

Tendo em vista tudo o que foi dito, quem se desumanizou dentro desse contexto: eles ou eu?
Cristina Faraon